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Um percurso de conquistas e precariedades

Publicado em 14 maio 2010

Por Cyro Andrade

A liderança mundial dos próximos anos será de países que consigam crescer, vencer a pobreza e reduzir a desigualdade modificando o conteúdo material e energético da vida econômica. Assim entende Ricardo Abramovay, professor titular do departamento de economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) e pesquisador do CNPq e da Fapesp. A conquista dessa liderança estará ao alcance de países que não só encontrem alternativas aos combustíveis fósseis, mas, sobretudo, que orientem o processo de inovação pela sobriedade no uso de energia e de materiais em todos os segmentos da vida social .

Na avaliação de Abramovay, a liderança brasileira na oferta de etanol é uma conquista fundamental, mas as chances de exportação do modelo brasileiro de produção são limitadas , porque sua competitividade apoia-se numa concentração fundiária incompatível com a realidade da esmagadora maioria dos países africanos em que poderia, em tese, ser implantado . O resultado é que o etanol ainda é um combustível cuja oferta se concentra nos Estados Unidos (onde é altamente subsidiado e ineficiente) e no Brasil.

Abramovay também entende que o esforço para que a inovação industrial e agrícola no Brasil tenha como parâmetro fundamental a chamada economia verde é lamentavelmente precário , mesmo em segmentos nos quais o país poderia ser internacionalmente pioneiro, como na cadeia produtiva da madeira, do papel e da celulose, na soja ou na pecuária.

Na indústria, a contrapartida do combustível limpo é, até aqui, a ausência de objetivos nacionais de produção de motores e de veículos mais eficientes . Então, o panorama atual é o de um país que avança em suas fontes de energia limpas, mas cujos processos de inovação industrial e agrícola são os que marcaram o século XX e não os que se anunciam promissores nos próximos anos .

Valor: Costuma-se dizer que será fundamental a aglutinação de esforços e objetivos de vários países para a comoditização do etanol e outros biocombustíveis, condição, por sua vez, para a progressão na abertura de novos mercados. Qual tem sido/deverá ser o papel do Brasil nesse processo?

Abramovay: Transformar o etanol em commodity é um objetivo estratégico decisivo, tanto para o setor privado como para o governo. O modelo produtivo adotado no Brasil tem por base a herança histórica do latifúndio e seu módulo mínimo é de 20 mil hectares. A mecanização da lavoura permitirá a supressão de formas degradantes de trabalho, em que um cortador de cana desfere 30 golpes de foice por minuto em jornadas que vão muitas vezes além de dez horas diárias. É difícil imaginar esse modelo em países da África sub-sahariana. Talvez a internacionalização passe pela adoção em larga escala do etanol celulósico. Nesse caso, os protagonistas mais importantes seriam a China e a Índia, que, segundo estudo da OCDE e da Agência Internacional de Energia (AIE), contribuiriam com cerca de 20% da produção de etanol celulósico em 2030. Mas é preciso dizer que hoje esses países estão quase na estaca zero nessa direção. Etanol celulósico é uma tecnologia que supõe altos investimentos e também plantas agrícolas capazes de fornecer de maneira abundante as matérias-primas que vão alimentar as usinas.

Valor: Quais são os trunfos do Brasil para afirmação, em foros internacionais, de suas potencialidades em matéria energética, a ponto de influirem, talvez, na formulação de políticas aplicadas em países desenvolvidos?

Ricardo Abramovay: O Brasil tem três trunfos importantes nas negociações internacionais. O primeiro é a menor dependência de energias fósseis. O segundo é a recente redução do desmatamento na Amazônia. Na verdade, é fundamental que se avance rapidamente para o desmatamento zero na Amazônia e que sejam estabelecidas metas muito mais ambiciosas que as atuais para outros biomas, como o Cerrado e a Caatinga. Alcançar esses objetivos não exige avanços tecnológicos espetaculares e sim a contraposição a interesses que caracterizam o que o Brasil tem de mais atrasado. É fato, contudo, que a coalizão de interesses que fazia do desmatamento uma espécie de direito associado à própria ideia de crescimento econômico foi seriamente abalada nos últimos anos. O terceiro trunfo brasileiro é a qualidade de sua pesquisa científica, em especial na área de mudanças climáticas, na qual o avanço tem sido extraordinário.

Valor: A Europa ou os Estados Unidos estariam mais predispostos a prestigiar iniciativas de renovação das fontes de energia, com afirmação do uso de biocombustíveis?

Abramovay: Os biocombustíveis são mais prestigiados nos Estados Unidos do que na Europa. O grande desafio para ambos é ampliar essa produção. Ao que tudo indica, isso será feito com base no etanol de segunda geração (num futuro mais distante) e na biomassa lignocelulósica. Aquele estudo da OCDE e da AIE mostra que, em 2030, os biocombustíveis líquidos deverão representar 9% da matriz energética na área de transportes e 26% em 2050. Os biocombustíveis de segunda geração, nesse horizonte, corresponderiam a 90% do total. A vantagem do Brasil é ter o único biocombustível de primeira geração (o etanol de cana-de-açúcar) competitivo com o de segunda. Além disso, mesmo com a entrada no mercado dos biocombustíveis de segunda geração, a oferta europeia ou americana será insuficiente para atingir as metas de consumo estipuladas nas políticas desses países. A aprovação pela agência ambiental americana do etanol de cana-de-açúcar como combustível avançado abre perspectivas promissoras às exportações brasileiras. Contudo, Europa e Estados Unidos farão o possível para reduzir sua atual dependência energética e isso passa não só pelo estímulo a fontes próprias de produção, mas a inovações tecnológicas capazes de reduzir o consumo de energia nas residências, nos escritórios, na agricultura, nos transportes e na indústria.

Fonte: Valor Econômico