Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Um passeio pelos extremos da história

Publicado em 05 março 2009

Por Carlota Cafiero

As atrocidades cometidas durante a Inquisição e a arte digital promovida pela interação entre máquinas e seres humanos. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) inaugura hoje duas exposições que passam por estes extremos da história. Na Galeria de Arte do Instituto de Artes (IA), Artemis Moroni e Jônatas Manzolli uniram suas especialidades para criar a instalação sonoro-visual Aural: Instalação Sonoro-Visual - Ambiente Evolutivo à Sonificação de Trajetórias Robóticas. No Espaço Cultural Casa do Lago, no Campus, Avelino Bezerra também utilizou a tecnologia para remeter o espectador ao século 17, na instalação/performance intitulada Giordano é uma Brasa.

Além destas, mais uma mostra em Campinas, na Galeria de Arte da Escola Comunitária. Bem mais comportada, mas não menos instigante, Riscos e Rabiscos traz formas quase abstratas e bastante coloridas nos desenhos de Valéria Menezes, que tem o lápis de cor como objeto de estudo e pesquisa.

No lugar de telas ou esculturas, robôs. Pela primeira vez, a Galeria de Arte do IA/Unicamp cederá espaço para a inteligência artificial. Três exemplares recentemente produzidos pela empresa IRobot, dos Estados Unidos, chamados de Create, mais um robô doméstico da mesma empresa — com a função de aspirar pó — irão se movimentar aleatoriamente por um espaço de 4x4 metros, interagindo com outro robô, o Nomad, um “senhor” com cerca de 10 anos de idade, que é comandado pelos espectadores.

A coreografia dos robôs e a relação entre eles vai disparar vários algoritmos em um programa batizado de Vox Populi, gerando uma música digital, além da projeção de imagens captadas pela visão artificial. Por meio do desenho de uma curva com o mouse, o visitante irá disparar uma complexa cadeia de eventos sonoros. Um vídeo de 30 minutos também é exibido o tempo inteiro, revelando o processo de todo o projeto, que conta com bolsa da Fapesp e CNPq.

Artemis é pioneira no uso de computadores para finalidade artística no Brasil — ela participou de duas bienais de arte de São Paulo, em 1989, com arte fractal, e em 1991, com uma coreografia de robôs.

Pesquisadora da Divisão de Robótica e Visão Computacional do Centro de Tecnologia da Informação “Renato Archer” (DRVC/CTI), Artemis juntou-se ao músico Jônatas Manzolli, do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (Nics), da Unicamp, para desenvolver o projeto, que consumiu três anos da dupla, mais 15 alunos da iniciação científica em robótica.

“Um dia, o computador pode vir a ser criativo. Se a partir de uma molécula surgiu a vida, acho que a partir da máquina analítica de Charles Babbage (1791-1871) também pode surgir um computador criativo”, aposta Artemis. “O que mostramos aqui é a diferença entre o aleatório e o evolutivo”, diz Manzolli. No dia 20 de março, último dia da exposição, às 12h30, três músicos irão interagir ao vivo com a música dos robôs.

Provocação

Avelino Bezerra classifica sua instalação Giordano é uma Brasa de “provocação multimídia”, pois utiliza projeção de imagens, música e performance ao vivo. Foi depois de uma viagem a Roma, no ano passado, que o artista e coordenador do Espaço Cultural Casa do Lago teve necessidade de criar algo a partir das várias fotografias que tirou da Piazza Di Fiori, onde o filósofo e teólogo Giordano Bruno (1548-1600) foi queimado vivo pela Inquisição, após defender que o universo é infinito e que existe vida inteligente fora da Terra.

A Galeria da Casa do Lago está tomada por imagens em grandes dimensões, impressas em papel sobre placas de isopor, dos 13 anjos da Ponte Sant’angelo, onde eram expostos os corpos dos mortos pela Inquisição; e de oito esculturas de juízes que adornam o Palácio da Justiça, perto da ponte. Até o dia 27 de março, sempre às 19h30, a galeria será palco para uma coreografia de Bukke Reis e das bailarinas das companhias Juliana Hadler e Corpo Cru, sob luz negra, além da projeção de um video-clipe com colagem de cenas de filmes como Giordano (1973), O Nome da Rosa (1986) e outros.

Antes, o público é recepcionado pelas bailarinas e conduzido até a galeria, para depois seguir a uma arena que simboliza o céu e o inferno, em um percurso que leva uma hora e conta com música barroca executada ao vivo, a cargo de José Augusto Mannis. Paralelamente à instalação/performance, acontece um ciclo de filmes, incluindo o registro da peça Galileu Galilei, de Celso Nunes, com Paulo Autran.

SAIBA MAIS

Aural: Instalação Sonoro-Visual — Galeria de Arte Unicamp/IA (Rua Sérgio Buarque de Holanda, s/n, Cidade Universitária, fone: 3521-6561, Prédio da Biblioteca Central). De segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, até 20/3. Abertura hoje, 12h30.

Giordano é uma Brasa — Galeria do Espaço Cultural Casa do Lago (Rua Érico Veríssimo, s/n, Cidade Universitária, 3521-7017). Entrada franca. Até 27/3, 19h30. Abertura hoje, 19h30

Riscos e Rabiscos — Galeria de Artes da Escola Comunitária (Rua Egberto Ferreira de Arruda Camargo, 650, Jardim Notre Dame, 3758-8500). Até 10/4. Abertura hoje