Notícia

Gazeta Mercantil

Um palco para a tecnologia

Publicado em 30 junho 1997

Por Ozires Silva
Executivos norte-americanos estão no mercado para contratar empregados necessários para preencher vagas em empresas que desenvolvem tecnologia de ponta em todos os campos da atividade produtiva. E não conseguem! Mesmo a poderosa estrutura educacional do País parece não poder fornecer na quantidade e na qual idade requeridas os talentos que os modernos desafios para o desenvolvimento tecnológico vêm demandando. Enquanto isso, o presidente Clinton, entusiasmado com a performance da economia do seu país, quer se transformar em paradigma do sucesso das administrações federais e se mostra orgulhoso pelos resultados que vem conseguindo. Ninguém contesta que o crescimento americano é movido por significativos investimentos em tecnologia e educação. O resultado é que a economia trabalha em um ambiente de permanente inovação, sendo a criatividade a palavra de ordem de todos os dias. Governo e empresas patrocinam intensamente as pesquisas científicas e tecnológicas certos de que a liderança competitiva da produção nacional somente pode ser mantida à custa da geração permanente de conhecimento inovador. E parece que está dando certo. Os Estados Unidos gozam de uma taxa de desemprego razoavelmente baixa, enquanto outras nações perplexas não conseguem articular solução para o complexo problema. No orçamento qüinqüenal, recentemente publicado pelo governo dos Estados Unidos, somente as Forças Armadas receberão dotações correspondentes a US$ 36 bilhões por ano para aplicação direta em Ciência, Tecnologia, Ensaios e Avaliações (RDT & E). Sobre esses números adicionam-se aqueles de aplicação das próprias empresas e instituições privadas, avaliados em US$ 280 bilhões. É uma impressionante massa de recursos. São argumentos e fatos irretorquíveis. Contudo, vamos saltar o Atlântico e aterrissar na França da semana de 15/22 de junho, dentro do 42° Salão Internacional de Aeronáutica e Espaço de Paris, que acotovelou, no Aeroporto de Le Bourget, 1.750 expositores de 42 países, oferecendo uma amostra ao vivo do que há de melhor na tecnologia mundial dos materiais, das peças, componentes e equipamentos. Tudo Já estava enquadrado na onda mundial do conhecimento aplicado e os resultados foram dispostos, sob a forma dos mais variados produtos, surpreendendo todos os que tiveram a oportunidade de ver. Foi realmente um dramático banho de alta qualidade e de arguta inovação, abrangendo todos os campos do conhecimento, tudo produzido com técnicas e habilidades na maioria das vezes inacreditável, mesmo para os melhores especialistas. O avião é reconhecidamente um produto complexo e requer insumos de todas as áreas. Assim não é estranho encontrar em exposições aeroespaciais produtos que se encaixam nas mais diversas finalidades da produção. Neste cenário, entre os quase 2 mil participantes, foi possível encontrar empresas e organizações brasileiras enfrentando o duro mercado da competição aeroespacial mundial. A Embraer, que, com seu novo jato regional - o EMB-145 para 50 passageiros - foi para vencer, anunciou vendas superiores a US$ 1 bilhão. A TAM anunciou a compra de cinco Airbus A330-200, os novos e modernos bimotores transcontinentais para até 380 passageiros, firmando opções para mais cinco unidades. Também lá estavam a Avibrás, empresa de produtos aeroespaciais de São José dos Campos, a Infraero (Empresa de Infra-Estrutura Aeroportuária), a AEB (Agência Espacial Brasileira) e a AIAB (Associação das Indústrias Aerospaciais do Brasil). O ambiente foi muito diferente daquele encontrado nos últimos salões, caracterizados pela extrema recessão que atingiu o mercado aeronáutico mundial no período 1990/96. No entanto um fator externo afetou o ambiente de otimismo resultante da recuperação das vendas. O 42° Salão de Paris ocorreu poucas semanas após o eleitorado francês ter rejeitado o governo de direita de Alain Juppé, fazendo com que a esquerda voltasse ao poder. A argüição comum em Le Bourget era se a França do futuro se manterá em sintonia com sua capacidade de ser um contendor válido na atual desafiante economia global do livre comércio competitivo. O presidente Jacques Chirac, que acaba de perder uma eleição por ele próprio antecipada, certamente tem a visão das necessidades e dos valores práticos da Ciência e da Tecnologia para o desenvolvimento nacional. Conscientemente ele foi capaz de até agora demonstrar um objetivo interesse pelo assunto e manter constantes contatos com os líderes das maiores empresas francesas para debater o assunto. Chirac, um ardente defensor de uma poderosa União Européia, tem sido fundamental para a definição essencial das urgentes reorientações de que necessita a estrutura produtiva francesa, para modernizar a estrutura produtiva e gerar novos pontos positivos nas fronteiras da sociedade, como, por exemplo, o desemprego. No entanto, em que pese o exemplo norte-americano, a preocupação sentida no salão era de que tudo agora pode se modificar. Contrariando a atual tendência de que as grandes decisões passam pelos Conselhos das Empresas, parece que a França agora, sob o novo governo, volta-se para a política que se superpõe às iniciativas empresariais dos investidores, contrastando com o que se observa no panorama dos seus parceiros europeus e do outro lado do Atlântico. Na França, como no Brasil, há uma permanente relutância em abandonar o conceito do estado paternalista e empreendedor industrial. Empresas européias que, em passado recente, venceram o penoso processo de privatização ficam agora a perguntar aos seus acionistas sobre a conveniência de se associarem às estatais francesas. Todas estão conscientes da importância dos processos associativos para aumentar a capacidade de a Europa competir, em particular com a intimidante onda criativa e de alta eficiência dos Estados Unidos. Assim, aqueles que comentaram o assunto em Le Bourget estão convencidos de que o governo de esquerda da França com sua consagrada agenda de um rígido controle sócio-econômico é muito mais do que um problema doméstico. Entendem que o programa econômico do primeiro-ministro Leonel Jospin tem o potencial perigo de colocar nuvens no futuro da coalizão européia e de reduzir a capacidade de os Estados-membros da Comunidade ganharem posições no disputado mercado regional e mesmo mundial. O que adicionalmente preocupa importantes analistas é que os executivos franceses parecem apoiar e ratificar as decisões do governo de seu país, esboçando quase nenhuma reação, quando na realidade deveriam optar pelas práticas e implementar iniciativas mais orientadas para a satisfação dos consumidores. A impressão dominante no extraordinário Salão de Aeronáutica e Espaço de Paris é que a vitória da esquerda nas recentes eleições francesas contribui para o incremento das apreensões em relação ao futuro e mesmo gera clara consternação. Alguns executivos de empresas britânicas, em declarações generalizadas na imprensa, acreditam que, em que pese o quadro preocupante, a realidade possa forçar o novo governo a modificar suas visões e a permitir que as privatizações planejadas possam prosseguir. Outros duvidam. O futuro dirá. Como resultado permanece a consciência de que o progresso das nações, no mundo intensamente competitivo em que vivemos, depende fundamentalmente da capacidade dos povos de preparar seus cidadãos para que, com inteligência, criatividade e tenacidade, possam conquistar vantagens comparativas para seus países, num clima de liberdade para empreender e gerar riquezas. Claramente não há escapatória para o domínio que mentes avançadas e preparadas possam exercer sobre aquelas populações que não estejam suficientemente preparadas para conquistar um pedaço na participação da economia global. A grande lição que vem do que o salão mostrou, além dos debates que ensejou, é que não há lugar para a estagnação e para a falta de liderança criativa num mundo em que até os produtos mais simples requerem conhecimentos novos, os quais não são encontrados nas prateleiras, mas nas cabeças das pessoas e dos cidadãos capazes. Será muito curioso acompanhar o que ocorrerá na França e como isso se refletirá na capacidade européia de encontrar e expandir seu espaço na economia mundial, sobretudo em relação à pujante economia americana que se caracteriza por uma ampla liberdade e de grande espírito empreendedor.