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Um outro olhar para a tragédia

Publicado em 22 setembro 2005

Por Mariluce Moura

Impressiona como o olhar imediatamente recorta de uma realidade complexa aspectos que o ofício de cada um o habituou a ver melhor, dia após dia, e como daí se esboçam conclusões quase impensáveis para outros olhares. Veja-se, a propósito, a seguinte cena: na sessão da Câmara dos Deputados que decidirá a respeito da cassação do deputado Roberto Jefferson, o ex-ministro José Dirceu está na fila de votação e, por irônica coincidência, posiciona-se logo atrás do próprio Jefferson, seu algoz, digamos assim, num certo arroubo de exagero. Ambos são personagens centrais da tragédia encenada há quase quatro meses, e feita espetáculo midiático diário a partir de uns tantos palcos do Planalto Central, mas com ricas contribuições canalizadas de todos os cantos do país para seu eficaz desdobramento. No momento de votar, ponto alto da cena, Dirceu simplesmente esquece de colocar a cédula no envelope e deposita seu voto aberto na urna. O voto foi anulado.
Um incidente "sintomático", claríssimo ato falho, eis o que significa o voto aberto para um atento olhar psicanalítico. E Geraldino Alves Ferreira Netto, 70 anos que parecem não mais que 60, explica isso depois de relembrar o episódio com suavidade mineira e a tranqüilidade de quem se mantém a léguas de distância das sentenças levianas e das construções casuais de última hora, por preferir as interpretações bem refletidas. É em suas aulas mais recentes sobre Sintomas Atuais da Cultura, no curso de Semiótica e Psicanálise da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que ele tem estendido bastante suas reflexões sobre cenas atuais da política brasileira e dedicado a elas um bom tempo. O ato falho ou a falha, como sabe muita gente desde que a nossa fala começou a deixar patente que a influência do doutor Freud na cultura do Ocidente no século 20 foi bem mais profunda do que jamais sonharam seus inimigos e detratores, enfim, a falha alude a um aspecto inconsciente em nosso funcionamento. E que dificuldade inconsciente é essa de Zé Dirceu para condenar Roberto Jefferson?, interroga doutor Geraldino.
Não se pense que o psicanalista em questão, autor de Wim Wenders: Psicanálise e Cinema (Unimarco, 2001) tem algum parentesco, mesmo o mais longínquo, com aqueles que manifestam claramente seu desejo de "acabar de uma vez por todas com essa raça" (que "raça": os petistas, os trabalhadores, o povo brasileiro? O senador autor da frase não foi explícito). Muito pelo contrário, ele é daqueles que se posicionam no campo da esquerda, mais do que apenas na política, na vida, digamos assim, e pensa que toda a história recente da luta de resistência à ditadura e de construção da democracia no país, da qual o PT é parte essencial, tem que ser respeitada e louvada. "A luta valeu a pena, a democracia é firme, ainda que cheia de percalços", diz. E quanto ao deputado José Dirceu, em particular, ele pensa que não se pode deixar de ressaltar a beleza de sua militância, desde os tempos do movimento estudantil, nem deixar de reconhecer que a sua tem sido uma vida movida todo o tempo por uma ideologia — quase uma religião. Mas justo aí está um problema que merece mais uma mirada profissional do experiente psicanalista lacaniano — aliás, esse é um dos raros rótulos que o independente doutor Geraldino, um livre atirador, como se autodefine, nauseado das lutas de poder nas sociedades e seitas psicanalíticas, carrega com gosto.
Em sua visão, num processo semelhante ao de alguns grupos fundamentalistas muçulmanos, com seus homens-bombas, o PT se explodiu de certa maneira. Mas aqui na linha da auto-punição inconsciente de algumas lideranças por algo que fizeram. "Eles não foram enxotados de fato da cena política, apesar da luta, de terem pegado em armas, seqüestrado embaixador... Isso não teria deixado uma necessidade profunda de punição?". Na verdade, o rumo da história colocou esse líderes, quando o PT finalmente alcançou o governo, num lugar que seria simbolicamente do opressor, da direita, do Capital. E assim, sentimento de culpa por um lado e, por outro, uma certa identificação com o opressor, seriam componentes inconscientes desse movimento de destruição. Curioso é que doutor Geraldino tem a convicção de que tanto José Dirceu quanto seu inimigo, Roberto Jefferson, terminaram se surpreendendo com a força furiosa, com os potentes efeitos do movimento a que deram início. "Eles não imaginaram, com certeza, o tamanho do estrago". 
Já lançando seu olhar para a população e detendo-o sobre a perplexidade e o enorme desalento que tomaram conta da alma de milhões de brasileiros que colocaram cheios de esperança Lula e o PT no poder, nosso psicanalista vê também aí, nesses sentimentos coletivos, uma conotação inconsciente. "Chocou-nos muito ver que somos feitos da mesma farinha e que qualquer um de nós poderia fazer coisas semelhantes. Não se trata ali de políticos que historicamente sabemos corruptos e em relação aos quais sentimos uma superioridade moral. Em vez disso, são homens que víamos acima de qualquer suspeita, éticos, de reputação ilibada, como entendemos que somos".  Desse choque surge a descrença no ser humano, a decepção com nossa condição precária. Em jargão da psicanálise: marcados pela falta, a falta que vemos no outro nos remete para o espelho e para nossa própria falta. O processo é de queda dos ideais de ego que colocamos em nossos líderes, nossos representantes. E daí doutor Geraldino diz algo de que nos lembramos perfeitamente: "A alegria contagiante que sentimos no dia da eleição de Lula era porque ele era nós lá. Lula estava nos representando, com a única falha de um dedo".
Então, a derrocada do PT nos afundou, ele diz.. Depois de termos esperado durante anos um novo dia que ia amanhecer, entre lutas e canções na ditadura, depois de termos atravessado uns tantos percalços pós-ditadura, dos quais o  maior de todos chamou-se Collor, sempre na esperança de que o dia radiante ia chegar, e por fim com a sensação de que ele chegara, "esse dia escureceu e não há sinal de luz". De qualquer sorte, em que pese um certo pessimismo de Freud, ou, como prefere nossos interlocutor, seu realismo, tão nítido por exemplo em O mal-estar da civilização (ou da cultura, em outras traduções), essa análise não seria a de um psicanalista se ele não dissesse que a perspectiva é boa quando a angústia aumenta. A própria angústia serve de catapulta para cima e para a procura de novas saídas, em geral mais realistas. De uma certa maneira, o que ele está dizendo é o seguinte: ainda que o PT desapareça, o ideal não morreu.
Só para encerrar: sabem por que, para nosso psicanalista, a atual crise política se escreve mais como tragédia do que como drama? Porque os supostos heróis dessa história viam-se guiados pelos deuses para o Olimpo e, nesse caminho, todos os desvios (os de dinheiro, inclusive) eram racionalmente justificáveis se estavam a serviço de uma causa supostamente superior e no final redundariam no bem comum. O inconsciente, contudo, não quer saber dessas justificativas racionais.

Mariluce Moura é jornalista e diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp