Notícia

Época

Um otimista encara a dor

Publicado em 23 outubro 2000

Por Luís Costa Pinto, Ricardo Kotscho, Fabrício Marques e Helô Reinert
Os gestos são largos, o andar é firme, o sorriso ainda é freqüente e o semblante está grave. É Mário Covas em seu gabinete de trabalho no Palácio dos Bandeirantes. Sobre a escrivaninha, um exemplar de Mananciais no Deserto, obra técnica de Lettie Cowman. Na parede, a reprodução emoldurada da capa da revista científica americana Nature. Na edição de julho deste ano a publicação destacou o trabalho de seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa, praga que sufocava os laranjais de São Paulo. Pesquisadores paulistas financiados pelo governo do Estado foram os autores da proeza, um marco científico para o país. Os compromissos se sucediam na agenda da quinta-feira 19. Às 16h30 acabara de anunciar o investimento de R$ 2,7 bilhões da Volkswagen e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) numa linha de montagem em São Bernardo do Campo. Mantivera uma conversa reservada com Luiz Marinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e deixara o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, esperando na ante-sala. Precisava falar de algo ruim, inesperado e doloroso: o câncer que voltou na forma de um tumor na parede externa do intestino, à altura do reto. A doença leva-o a decretar o fim da carreira política. — Definitivamente, não serei candidato a mais nada. Já não era antes. Agora, pode escrever: esta possibilidade está excluída para sempre. A conversa com a reportagem de Época só seria interrompida uma vez para o governador de São Paulo atender o telefone. Do outro lado da linha, David Uip, o chefe da equipe médica que o assiste, queria marcar um encontro à noite. — Sei, sim. Sei o que vocês vão querer — conforma-se, usando monossílabos como se tivesse um código próprio para falar com os médicos. Uip tentava convencê-lo da necessidade de realizar uma cirurgia para a extração do tumor nesta semana. Lila Covas, mulher do governador, já tinha aceitado o vaticínio. "Se for para operar, que opere logo", dissera com resignação. A cirurgia será nesta semana. Desligado o telefone, o governador selara o destino com a tranqüilidade de quem falava de uma terceira pessoa. Ainda não havia conversado com o presidente Fernando Henrique Cardoso ou outros políticos do primeiro escalão do PSDB sobre as más notícias médicas. Não avaliara os rumos do processo sucessório presidencial em 2002 com seu nome fora da lista. Mas admite: era o único dentre os presidenciáveis que podia se considerar uma unanimidade no partido de FH e, a um gesto na direção dos palanques, levaria consigo os aliados federais dos tucanos. Ele está sinceramente preocupado com os rumos de sua vida. Só isso. — Vou é cuidar de mim. Da outra vez, saí da cirurgia com uma cura radical, mas o problema voltou — diz com gravidade e interpondo pausas entre as palavras. A voz denota certo embargo. Cuidar da vida, no caso de Covas, é manter-se ocupado e cumprir uma rotina de 14 horas diárias de trabalho. Não pretende se licenciar do cargo enquanto permanecer no hospital. Tenta se convencer de que isso será possível, apesar de ter sido informado da virulência da quimioterapia a que se submeterá. Há dois anos, quando extraiu a bexiga em razão de um câncer de nível de gravidade 3, numa escala que vai até 4, Covas enfrentou sessões quimioterápicas que alteraram sua freqüência cardíaca e o fizeram emagrecer e perder os cabelos. — Não tenho medo de ficar feio. Quero é ficar vivo. Vou ficar. Vencerei. Na manhã daquela quinta-feira o governador paulista voou de helicóptero da capital a Sorocaba, no interior do Estado, onde inaugurou uma fábrica de cabos ópticos. Ao embarcar no aparelho determinou ao secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São Paulo, José Aníbal: "O assunto saúde está proibido aqui dentro. Vamos falar de trabalho. Notícias. Cadê os jornais?" Ainda não eram 10 horas. Dali a uma hora o infectologista David Uip, o urologista Sami Arap, o cirurgião Raul Cutait, o oncologista Ricardo Brentani e o cardiologista Whady Hueb dariam uma entrevista coletiva para explicar a evolução e o tratamento da doença de Mário Covas. No aeroporto de Sorocaba, equipes de rádio, TV e jornais já o esperavam. Vendo-os de cima, o governador engoliu em seco. Olhou o secretário e os pilotos que dividiam a cabine do helicóptero e baixou a determinação: "Estão todos aí querendo que eu fale da doença. Falarei, mas no fim", disse, com a intimidade de quem se acostumara a lidar com a imprensa em mais de três décadas de vida pública. "Também vão querer filmar e fotografar o governador sendo auxiliado a descer do helicóptero. Ninguém me ajuda, que eu não preciso. Descerei sozinho. Proíbo qualquer um de me dar o braço." A ordem foi cumprida. Há quase dois anos, Mário Covas superou o primeiro tratamento contra o câncer com surpreendente rapidez. Por recomendação médica, passou a fazer exames trimestrais de avaliação. A finalidade é detectar uma eventual proliferação de células cancerosas. Todos os tecidos de sua cavidade abdominal são milimetricamente esquadrinhados nos exames de rotina. O cuidado permitiu o diagnóstico precoce do novo tumor, mas é impossível afirmar com segurança a margem de sucesso das intervenções médicas a que o governador se submeterá. — Falei para os médicos que sentia dores estranhas na barriga — conta Covas, lembrando por que alertou David Uip e Sami Arap antes da revisão trimestral que estava prevista. — Era um tumor… Depois a biópsia determinou que era maligno. Fazer o quê? Vou superar cada obstáculo. Vou enfrentar tudo. Lila, a primeira-dama paulista, é a companheira que o segue por todos os cantos do Palácio dos Bandeirantes. Estão casados há 46 anos e, em 1976, enfrentaram juntos a dor de perder a filha Sílvia num acidente automobilístico. Os outros dois filhos, Renata e Mário Covas Neto, o Zuzinha, tornaram-se os grandes companheiros dos pais. O governador e Lila cultivaram o hábito de passear toda manhã, cedo, pelos jardins do casarão erguido no meio de um terreno de 2 hectares no bairro do Morumbi. "Percebo que ele está apavorado", diz a mulher de Covas. "Mas Mário costuma ser um bom paciente, não está irritado nem mal-humorado. Vai obedecer aos médicos direitinho, como sempre." Ela também está abalada. Diariamente, entoa um rosário de orações e pede pela saúde do marido. Carrega presas ao sutiã quatro medalhas — de Nossa Senhora de Fátima, São Bento, Nossa Senhora das Graças e do Cristo crucificado. "Ajudam-me a enfrentar a dor e o medo." Lila Covas não admite que escondam dela nenhum prognóstico, nem mesmo o mais pessimista. "Já passei por tudo", diz. "Nós superamos." Aos 70 anos, reunindo forças para seguir dando lições de otimismo aos amigos e subordinados e vencer o mal que lhe provoca dores lancinantes, o dono de uma das mais respeitáveis biografias da política brasileira na segunda metade do século XX só teme a tristeza dos amigos e dos aliados. — Dê um sorriso — ordena a quem, reverencialmente, baixa os olhos diante dele ao falar da fatalidade. — Não vou morrer agora. TRANSPARÊNCIA NA FICHA MÉDICA Ao contrário dos costumes no passado, políticos expõem os males - Tasso Jereissati: Governador do Ceará, é um dos nomes do PSDB para a sucessão de Fernando Henrique em 2002. Teve um enfarte há dois meses e uma isquemia nas pontes de safena implantadas em 1986 - Roseana Sarney: Governadora do Maranhão e um dos nomes de destaque do PFL para a eleição federal de 2002, na última semana, retirou um nódulo benigno do seio direito. Em 1998 eliminou um tumor dos pulmões. Extirpou outros do útero, ovários e do intestino