Notícia

Ciência Hoje (Portugal)

Um olhar sobre a Ciência no Brasil

Publicado em 11 junho 2008

Por Claudina Rodrigues-Pousada

Depois de ter chegado de uma viagem ao Brasil onde participei no Congresso da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq) conjuntamente com a Pan-American Association for Biochemistry and Molecular Biology (PABMB) que teve lugar em Águas de Lindóia de 16 a 20 de Maio, apraz-me comunicar a percepção que tive da evolução científica que se está a operar no Brasil sobretudo na área das ciências biológicas, aquela que melhor apreciei.

Os dois mil participantes do Congresso estavam entusiasmados. Muito partcipativos e activos notando-se entre estes uma elevada percentagem de jovens, estudantes de doutoramento e de pos-doutoramento mas também muitos cientistas já estabelecidos e muitos convidados estrangeiros. Participaram neste congresso proferindo conferências para além de mim, a Leonor Cancela (UALG), Candida Lucas (UM), Manuel Costa (UM) e ainda o Paulo Gavaia (UALG).

Os simpósios versaram temas bastante diversos tais como genómica e bioinformática, estrutura e função dos carbohidratos, receptores neuronais e mecanismos neurodegenerativos em particular os implicados nas doenças de Alzeihmer e Parkinson, descoberta e desenho de novos fármacos, vias de endereçamento do RNA e seus alvos, processos de senescência, vias de destoxificação dos metais, stress oxidativo e respectivas vias de sinalização bem como a bioquímica e biologia molecular de plantas e ainda a parasitologia e epidemiologia. Foram também tratados temas mais específicos na área da biotecnologia. Assisti a muitas conferências que me mostraram que a ciência nos paises latino-americanos e em particular no Brasil está com um nível de desenvolvimento excelente.

Como costumo habitualmente fazer em congressos, fui visitar a sessão dos paineis apresentados pelos alunos e conversei com eles sobre os respectivos trabalhos. A alegria que mostravam em discutir era patente bem como a excelente preparação que evidenciavam.

Embora tendo já tido uma visão bastante positiva a partir das minhas observações durante o congresso, tive a oportunidade de visitar a Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte. Esta oportunidade foi-me dada pela Glória Franco que apresentou ao congresso uma excelente conferência sobre o genoma de Corynebacterium pseudotuberculosis uma bactéria gram-positivo que causa doenças em ovinos e que por isso é responsável por sérias perdas económicas na produção industrial destes animais. Passei um dia no seu departamento cujas instalações não eram propriamente muito modernas mas que estava muito bem equipado.

Estupefacta perante a organização

Estão muito bem equipados com os aparelhos necessários para a genómica estrutural e funcional tais como sequenciadores pela técnica de Sanger e de pirosequenciação e ainda por fase sólida (Solexa), DNA chips, proteómica e ressonância magnética, espectrometria de massa entre muitos outros. Desenvolvem também bons programas de investigação. Confesso que fiquei estupefacta perante a organização da investigação científica que levam a cabo. Colaboram entre eles para além de terem colaborações internacionais, sendo os serviços mantidos centralmente.

No Brasil estão implementadas as redes de genómica, proteómica e ainda de transcriptómica havendo um coordenador geral e um coordenador em cada Universidade que integra a respectiva rede, com grupos de bioinformática associados. Curiosamente, pareceu-me um esquema muito semelhante ao que foi implementado na Europa pelo Andre Goffeau, quando se iniciou a sequenciação sistemática do genoma da levedura sobre os auspícios da União Europeia e em que o meu laboratório esteve também envolvido. Não é surpreendente visto que o Andre (Universidade de Louvain) e o Steve Oliver (Universidade de Manchester) fizeram parte do “steering committee” quando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) lançou, em 1997, o projecto da sequenciação do genoma da Xylella fastidiosa.

Esta bactéria é um fitopatogénico que cresce no xilema de plantas, sobretudo dos citrinos, e que através da produção de uma goma bloqueia a passagem da água e de nutrientes nos caules. Foi pois, a visão alargada e estratégica do director científico da FAPESP, José Fernando Perez, que permitiu que o Brasil entrasse no mapa dos genomas e assim publicassem em 2000 na Nature o genoma completo desta bactéria, o primeiro fitopatogénico a ser descodificado.

Actualmente fazem o genoma de Schistosoma mansoni, um platelminto tremátodo que causa bilharziase ou esquitossomose e que é responsável pela morte de cerca de duzentas mil pessoas por ano. Fazem ainda a sequenciação de muitos outros genomas bacterianos estando também em progresso o genoma da cana de açúcar.

 O que é de salientar é que muitos dos projectos não são de iniciativa individual mas são os governos federais e a FAPESP, que lideram os processos aos quais os grupos apresentam candidaturas. Como já referi a situação é semelhante à que foi implementada na Europa. Em Belo Horizonte visitei também a Fundação Oswaldo Cruz que igualmente se encontra muito bem equipada e cujas equipas de investigação interajem com outras Universidades do Brasil mas também com os programas da Universidade Federal de Minas Gerais.

Autoridades portuguesas não absorveram

Curiosamente em 1997, na altura encontrava-me no IGC, veio o presidente da FAPESP ao ITQB com o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia de então. Participei na conversa havida tendo ficado claro que a mensagem trazida pela FAPESP não foi absorvida pelas autoridades presentes. Não houve portanto qualquer impacto positivo o que é de lamentar pois Portugal nunca lançou programas genómicos ou outros.

Quando individualmente os investigadores se associam com uma empresa e tentam lançar um projecto de genoma, as incompreensões e as dificuldades são tantas por parte da agência financiadora que só uma persistência e resiliência consideráveis conseguem “levar” a carta a Garcia.

 Como último comentário pergunto-me porque esperámos nós em Portugal para estabelecer programas de cooperação efectivos com os cientistas brasileiros que, isso sim, em minha opinião, são importantes investimentos. Já tenho colaborações no Brasil em particular com a Elis Eleutherio (UFRJ), tendo publicado recentemente no Biochemical Journal, mas gostaria que houvesse uma iniciativa politica forte e programada por parte de sua Excelência o Ministro da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior. Não será possível?