Notícia

A Tarde (BA)

Um olhar sobre a atualidade

Publicado em 19 janeiro 2006

Por Edivaldo M. Boaventura

Um homem inteligente, bem formado e que muito realizou, cumprindo cargos e altos encargos, tem muito a dizer da rica experiência acumulada. E experiência acumulada com intensa reflexão é sabedoria. É o que fez o reitor Roberto Santos. Reuniu artigos, pronunciamentos e estudos, em seu recente livro "Reflexões sobre temas da atualidade" (Edufba).
A temática desperta o maior interesse para a ciência e tecnologia, educação e saúde. A sua participação na vida universitária, científica, política e, mais recentemente, na associativa, pode ser percebida neste texto. Sem deixar de perder o prumo baiano, acresce uma dimensão ampla, nacional, pela liderança de scholar, em momentos significativos.
Há um sentido de ligar o passado que vivenciou com o presente que participa. Dirigindo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na redemocratização, com Tancredo Neves, estabelece alguns liames entre organizações científicas, na era do conhecimento e da inovação.
Como governador, criou o primeiro Museu de Ciência e Tecnologia do Brasil, na Bahia. Destaca os 50 anos do CNPq e os 40 anos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pioneira e inspiradora de tantas outras congêneres criadas pelos Estados-membros. Estimulante é o cotejo que estabelece entre a criação artística e científica.
É no bloco da educação que demonstra a capacidade do homem prestante, útil, impulsionado pelo estudo e pela pesquisa, pela vontade pública de servir, que o fez um político credenciado. Relata a experiência médica que o levou a explorar outros territórios então inusitados para a saúde pública, Nordeste de Amaralina, em Salvador, e Favela Ramos, no Rio de Janeiro.
O discurso de posse, na Academia Baiana de Educação, que preside com tanto entusiasmo, é momento de reflexão sobre a reestruturação e reforma das universidades federais, em especial a da Bahia, cujo processo modernizador liderou como reitor.
Em toda a obra, além do sentido de ligar, existe, sobretudo, o sentimento de volta, de retorno, de colaborar, de construir e de tonificar a organização que viu nascer e que ajudou a crescer: a Universidade Federal da Bahia. Conta como surgiram a Faculdade de Medicina, a de Enfermagem, a de Biblioteconomia.
Curioso é o comentário à memória histórica da Faculdade de Medicina da Bahia, escrita por Gonçalo Moniz, em pleno fastígio da reforma do ensino Rivadávia Corrêa. O perfil de companheiros de jornada —
Anísio Teixeira, Miguel Calmon, Pedro Calmon, Hosannah de Oliveira, Adriano Pondé, Ivette Oliveira, Hernani Sávio Sobral — revela a tendência para a biografia, uma das suas leituras preferidas.
O professor não se desprende da obra construída. Tanto em educação, como em saúde. As duas balizas marcantes da sua caminhada acadêmica. O discurso de posse, aliás, muito tardio, na Academia de Medicina da Bahia, é o retorno ao seu terroir ao ofício de médico, de professor sempre em dedicação exclusiva, de líder reformador do ensino médico, enfim, de ministro da Saúde.
Saúde, repita-se — é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas numa ausência de doença ou enfermidade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Homem formado nos melhores centros acadêmicos, soube dar aos problemas humanos uma dimensão universal, participando, intensivamente, da OMS e de outros organismos internacionais. Educação e saúde se integram ao escrever sobre Associação Brasileira de Educação Médica.
A sua acuidade científica estende-se aos agronegócios, que dependem aliás de muita pesquisa. Disserta sobre os transgênicos, a pecuária de corte e o cacau do sul da Bahia. Deixa cair, no final, as suas preferências de leitura e de música: Haydn, Beethoven e Mozart.
Aguardemos as suas memórias, em vidas paralelas, pai e filho, Edgard e Roberto Santos, médicos, professores, reitores, presidentes do CNE e ministros. Ambos autênticos doutores da Bahia.

EDIVALDO M. BOAVENTURA é professor e diretor-geral de A TARDE