Notícia

Jornal da USP

Um novo olhar sobre o passado

Publicado em 02 outubro 2000

Guardados durante séculos no Arquivo Ultramarino de Lisboa, em Portugal, um material inédito sobre o Brasil no período colonial está agora à disposição dos pesquisadores brasileiros. Graças ao Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco - financiado pelo Ministério da Cultura - , cerca de 250 mil documentos do arquivo foram microfilmados e, nesse formato, trazidos para o País. Trata-se de textos enviados pelos administradores da colônia à Coroa, dando conta dos atos realizados ou fazendo solicitações. Reunidos em CD-ROM, eles se encontram nos arquivos públicos estaduais, abertos à consulta de qualquer interessado. Na USP, podem ser consultados no Departamento de História. Em breve, o material deverá estar disponível na Internet. Do total de 250 mil documentos, 6.500 manuscritos se referem à então chamada Capitania de São Paulo. No dia 25 passado, esse material referente a São Paulo foi lançado pela Fapesp, que financiou a parte paulista do Projeto Resgate. Em quatro CD-ROMs - que acompanham três volumes com os resumos de cada manuscrito e um índice - , o pesquisador tem acesso aos documentos que contam boa parte da história colonial da capitania. As pesquisas sobre o material microfilmado - que começam a partir de agora - deverão trazer novos conhecimentos sobre o período colonial brasileiro. Uma prova disso pode ser verificada através de uma rápida e nada científica consulta aos documentos. Tome-se, por exemplo, o tema "educação". Ao percorrer os textos sobre o assunto, nota-se que os manuscritos não correspondem à idéia generalizada de que a metrópole portuguesa ignorava e até boicotava o ensino na colônia. Numa "provisão" de 10 de setembro de 1800, o governador e capitão-geral da Capitania de São Paulo. Antonio Manuel de Melo Castro e Mendonça, ordenou o lançamento de editais para o preenchimento do cargo de professor de gramática latina na vila de Taubaté. Para a Capitania de São Paulo, procurava-se um substituto para as aulas de "gramática latina, retórica, filosofia racional e moral". Em 20 de maio de 1805, o governador Antonio José da Franca e Horta comunicou ao príncipe regente D. João que criara nas vilas de Sorocaba e Parnaíba - "por serem as mais populosas da capitania" - as "cadeiras de primeiras letras e de gramática latina". LIVROS NA COLÔNIA Até mesmo livros eram enviados pela metrópole, contrariando a noção de que a circulação de publicações era proibida na colônia. Sabe-se disso graças a um ofício do governador Antônio Mendonça, datado de 22 de janeiro de 1801. Nele, Mendonça cita o desinteresse dos estudantes pelos "estudos filosóficos e retóricos" e pede que não sejam enviados quaisquer livros para a capitania "sem antes saber a relação dos impressos que são necessários para a construção de uma memória econômica-política e geográfica". Em 4 de dezembro de 1802, um documento avisou o secretário de Estado da Marinha e Ultramar da chegada de "caixote de livros, cuja falta se acusara anteriormente". Há outros documentos que indicam pelo menos algum esforço da metrópole pela educação na colônia. Um requerimento de 22 de agosto de 1804 solicita a certidão de nomeação de professores públicos da Capitania de São Paulo no ano de 1801. Outro requerimento ainda mais antigo, de 23 de novembro de 1795, enviado por um certo Floriano José Rodrigues à rainha D. Maria I, solicita informações sobre sua nomeação para a "cadeira de ler, escrever e contar da vila de Mogi das Cruzes". Em 6 de novembro de 1800, um ofício reclama da falta de "subsídio literário" da capitania para manter um professor de latim na vila de Itu. Outro ofício, de 2 de junho de 1806, informa sobre a criação de uma "aula de cirurgia" no Hospital Militar, ministrada pelo "físico-mor" e assistida pelos ajudantes dos regimentos, "no intuito de suprir a falta de médicos". Assim como a educação, outros temas sobre o Brasil colonial deverão ser reavaliados graças aos documentos agora à disposição. Os historiadores já estão fazendo o planejamento dessa pesquisa. Foi isso que eles discutiram no Congresso Projeto Resgate & Agenda do Milênio, realizado na USP na semana passada (leia texto tio lado). CONGRESSO DISCUTE PESQUISA DOS DOCUMENTOS Encerrado o trabalho de microfilmagem dos 250 mil documentos encontrados no Arquivo Ultramarino de Lisboa, os pesquisadores do Projeto Resgate da Documentação Histórica Barão do Rio Branco começam agora a planejar o estudo desse material, que deverá trazer à luz novos conhecimentos sobre o Brasil colonial. Para isso, foi realizado no Anfiteatro do Departamento de História, de 25 a 27 de setembro, o congresso "Projeto Resgate & Agenda do Milênio". No congresso - que reuniu professores portugueses e brasileiros - , os pesquisadores se dividiram em várias equipes de trabalho para discutir temas como "Cultura e religiosidade", "Dinâmicas locais e sistema mundial", "História econômica", "Sociedade e movimentos sociais" e "Historiografia e memória social" - as cinco grandes linhas de pesquisa que nortearão as investigações sobre os documentos. Os participantes debateram as formas de cooperação entre Brasil e Portugal na área de História e planejaram o resgate de documentos sobre o período colonial conservados em outros países - como Espanha, Holanda, França e Itália. Para o professor Luis Adão da Fonseca, professor do Departamento de História da Universidade do Porto, em Portugal - que coordena os pesquisadores portugueses ligados ao projeto - , o congresso na USP foi um "ponto de partida". Deve-se, agora, trabalhar para que o projeto possa dar ainda mais resultados. Para isso, diz Fonseca, é importante promover a difusão da produção historiográfica das equipes de pesquisadores para a comunidade científica internacional - em inglês. Além disso, o professor sugere a criação de projetos de pesquisa que envolvam não apenas pesquisadores do Brasil e de Portugal, mas também de países da África e de outras nações que, ao longo da história, mantiveram relações com Brasil e Portugal. O Projeto Resgate foi financiado pelo Ministério da Cultura, com apoio dos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia. A pesquisa sobre a Capitania de São Paulo - incluindo os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - está sob a coordenação do professor José Jobson de Andrade Arruda, do Departamento de História da USP.