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Um novo olhar sobre a obra de Vilanova Artigas

Publicado em 27 agosto 2014

João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) é uma referência na arquitetura brasileira. Embora nascido em Curitiba (PR), seu nome ficou associado ao movimento que se convencionou chamar de Escola Paulista. Grandes obras guardam a memória de sua passagem pela cidade de São Paulo e região.

 

Entre elas, o Edifício Louveira, no bairro de Higienópolis (1946); o Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no bairro do Morumbi (1952); e o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, conhecido como Parque Cecap, no município vizinho de Guarulhos (1967-1972). Mais do que todos, destaca-se o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), uma espécie de materialização, em concreto aparente, de seu paradigma arquitetônico (1961-1969).

 

Muito já se escreveu sobre Artigas. Em especial, deve-se mencionar o catálogo da grande exposição sobre sua obra realizada no Instituto Tomie Ohtake em 2003, com introdução de Ruy Ohtake, texto de Julio Katinsky e um perfil biográfico redigido pela historiadora Rosa Artigas, filha do arquiteto.

 

Um novo livro, com um enfoque peculiar, acaba de ser lançado pela Editora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), com apoio da FAPESP. Trata-se de Vilanova Artigas – Habitação e cidade na modernização brasileira, de Leandro Medrano e Luiz Recamán, arquitetos formados pela FAUUSP e atualmente professores na mesma instituição.

 

A peculiaridade, no caso, é a tentativa de identificar o padrão urbano subjacente à obra arquitetônica de Artigas, realizada entre as décadas de 1940 e 1970. “Analisamos uma série de casas projetadas por ele, tentando entender qual era a expectativa de cidade que informava essas obras, visto que a cidade ainda não tinha a configuração formal que possui hoje”, disse Medrano à Agência FAPESP.

 

A principal ênfase do livro não é tanto estudar as obras em si, embora isso também seja feito, mas investigar como essas obras dialogaram ou tentaram dialogar com a São Paulo em pleno desenvolvimento no período tratado.

 

“Partimos de uma pesquisa que tinha como objetivo entender a arquitetura paulista contemporânea. Isso nos levou a estudar certas origens, certas matrizes, e, por esse caminho, chegamos à obra de Artigas, que, entre outras coisas, foi um dos mentores do projeto pedagógico da FAUUSP”, disse Medrano.

 

Membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1945 e intelectual bastante ativo dessa agremiação, Artigas foi um arquiteto preocupado com a questão urbana e em como a arquitetura poderia contribuir para a construção de uma nova formação social.

 

Antes de empreender seus grandes projetos públicos (o estádio do Morumbi, o prédio da FAUUSP e o Parque Cecap), Artigas dedicou-se, principalmente, a projetar casas para um segmento intelectualizado da média burguesia paulistana, um segmento aberto a novas ideias e formas de convivência.

 

Essas casas inovadoras, em quase tudo diferentes dos casarões da oligarquia tradicional, têm como protótipos as duas casas, edificadas no mesmo terreno no bairro do Campo Belo, que Artigas construiu para si mesmo: a “Casinha”, de 1942, e a “Casa do Arquiteto”, de 1949. Algumas de suas soluções arquitetônicas foram tão copiadas que, hoje, parecem lugar-comum. Mas, na época, eram bastante ousadas.

 

E o livro enfatiza a concepção subjacente a esses projetos, que faz da casa “o oposto do urbano”, a “alternativa transformadora, ainda que sobrecarregada de conteúdos da tradição”, o “paradigma da nova ordem, intimista, libertária, associetária”. “A preocupação de Artigas, nesse momento, era ‘construir’ São Paulo com suas casas”, afirma o texto.

 

“Percebemos, a partir de suas formas arquitetônicas, que Artigas vivenciou uma espécie de contradição consciente entre a sua expectativa de cidade e a cidade real que crescia de maneira rápida e desordenada à sua volta. Em função disso, ele concebeu seus objetos arquitetônicos como elementos de certa forma autônomos em relação à cidade, objetos que se fundamentavam neles mesmos. Não que ele fosse incapaz de uma visão geral. Muito ao contrário. Mas sua trajetória nos fez entender que, talvez, essa tenha sido a saída que lhe restava”, explicou Medrano.

 

Já foi exaustivamente apontada, por vários autores, a influência do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) na obra de Artigas, principalmente em suas fases iniciais. O livro, porém, indica uma diferença fundamental.

 

Enquanto as vastas habitações projetadas por Wright são orientadas por linhas de força centrífugas – que, por assim dizer, lançam o edifício sobre seu entorno natural, conquistando-o e ordenando-o –, as casas de Artigas são orientadas por linhas de força centrípetas, e, voltando-se para o interior de si mesmas, apartam-se, de certa forma, do contexto urbano.

 

É curioso que Artigas tenha levado essa introversão adiante mesmo quando lhe foi dada a oportunidade de projetar uma cidade inteira a partir do zero. Isso ocorreu, em 1956, por ocasião do concurso para o projeto de Brasília, do qual ele participou, mas não venceu.

 

“No momento em que teve liberdade para propor uma cidade inteira, o modelo que o inspirou foi o dos subúrbios norte-americanos da classe média afluente: casas isoladas em terrenos relativamente amplos, ligadas por grandes avenidas, com a mobilidade feita pelo automóvel, e setores administrativos, comerciais e outros concentrados em algumas torres com localizações específicas”, afirmou Medrano.

 

“Essa concepção, calcada no modelo norte-americano, era bastante diferente daquela que resultou no projeto aprovado, de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, baseado nas ideias de Le Corbusier”, disse.

 

Na Brasília de Artigas, diz o livro, a “casa-universo” é o modelo ideal. E a cidade “é a sua somatória, e não um organismo que a determina ou condiciona”.

 

“Nossa pesquisa mostrou uma coerência entre o projeto para Brasília e o padrão de residências muito autônomas, tanto como forma arquitetônica quanto como padrão de vida familiar, que Artigas estava implementando em São Paulo: um padrão calcado em quadras relativamente grandes, com casas isoladas, abrigando uma convivência doméstica também isolada de um cotidiano de cidade”, comentou o autor.

 

Há uma aparente contradição entre esse padrão e a ideologia comunista do arquiteto. Mas Medrano tem uma explicação para isso. “Artigas sabia dessa contradição. Ele de maneira alguma tratou seus projetos com inocência. O que pudemos identificar foi que, ao isolar suas formas, suas domesticidades, digamos assim, ele buscou se retrair em relação a um país que se desenvolvia em uma expectativa contrária àquela que ele possuía como ambição política. De certa forma, ele estava querendo dizer que não pertencia àquilo, que não fazia parte daquilo.”

 

“O objetivo dele era a cidade, o objetivo dele era a transformação social, mas o que ele podia fazer era a casa. As casas, para Artigas, sempre foram entendidas como teses, como constelações de um ideal”, disse o estudioso.

 

Vilanova Artigas – Habitação e cidade na modernização brasileira

Autores: Leandro Medrano e Luiz Recamán

Lançamento: Agosto de 2014

Preço: R$ 34,00

Páginas: 160

 

Mais informações: www.editora.unicamp.br/vilanova-artigas.html

 

José Tadeu Arantes

Agência FAPESP