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Jornal da USP online

Um militante da pesquisa e da administração

Publicado em 23 fevereiro 2015

Professor Emérito do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e diretor da Fundação Faculdade de Medicina desde 2003, Flavio Fava de Moraes teve papel de destaque como reitor da USP entre 1993 e 1997 e também à frente do ICB, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), da Associação Internacional de Universidades junto à Unesco/Paris e em outras instituições. Ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (1998-1999), em setembro do ano passado ele recebeu o título de Cidadão Paulistano, da Câmara de Vereadores de São Paulo, por toda a sua contribuição na área da saúde. Nascido em Lins (SP), ele contou ao Jornal da USP um pouco da sua trajetória de vida.

Jornal da USP – O que representa para o senhor o título de cidadão paulistano?

Flavio Fava de Moraes – É um privilégio que nós, os caipiras, nascidos no interior, também possamos ser considerados cidadãos paulistanos. Quando vim para São Paulo, era muito jovem, tinha 13 anos, morei em república e me virava sozinho. Dos meus 73 anos de idade, 60 eu vivenciei na cidade de São Paulo. Tudo o que aconteceu na minha vida foi fruto do ambiente paulistano. Desde estudante secundário até universitário, depois a vinculação com a USP, onde fui aluno, até me tornar reitor. Depois, tive atividades no governo Covas e finalmente recebi um convite para dirigir a Fundação Faculdade de Medicina, em razão do meu tempo como diretor da Fapesp, e estou até hoje nessa função. Tudo o que ocorreu na minha vida profissional e familiar foi na cidade de São Paulo. Meus dois filhas nasceram aqui também. A integridade do DNA paulistano está associado ao meu DNA de caipira de Lins.

JUSP – Onde e qual foi o curso universitário que realizou?

Fava de Moraes – Quando prestei vestibular, entrei na Faculdade de Odontologia da USP, porque eu tinha um tio que me induziu muito para que eu fizesse Odontologia, para ficar com a clínica dele, em São Paulo. Assim que entrei na disciplina de Histologia, em que se usa o microscópio e se vê um mundo invisível a olho nu, senti que ali havia um campo interessante para as minhas curiosidades. Terminei o curso de Odontologia, mas me interessava mesmo pela pesquisa, para decepção do meu tio. Aliás, meu primeiro trabalho científico, publicado numa revista importante na área de histoquímica de polissacarídeos, foi escrito quando eu ainda era estudante. Tive oportunidade de receber uma bolsa de estudos no Instituto de Biofísica no Rio de Janeiro, dada pela Capes. Quando eu estava lá, o então governador de São Paulo, Carvalho Pinto, fez uma expansão do quadro docente da USP. Em junho de 1961 fui contratado como professor.

JUSP – Analisando sua trajetória profissional, destaca-se seu papel em cargos de direção.

Fava de Moraes – Eu diria que oportunidades precoces surgiram na minha vida, e sempre tive uma curiosidade e inquietude enormes. Já no curso pré-universitário, eu era o coordenador da Academia de Letras do colégio. Na Faculdade de Odontologia, fui presidente e vice-presidente do centro acadêmico. Como presidente do centro acadêmico, tinha participação nos colegiados da UNE União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Estadual dos Estudantes (UEE) de São Paulo. Isso tudo foi me dando não só um gosto pela representatividade como um treinamento para eu ter argumentos de fundamentação para discutir em assembleias, criar um pragmatismo na apresentação de propostas, demostrar quais são exequíveis e quais de certa forma são demagógicas. Isso tudo dá uma certa experiência parlamentar. Se você desenvolve corretamente o seu papel, os seus colegas percebem que ali não tem outra intenção a não ser a valorização do profissional.

JUSP – Como foi sua experiência como reitor da USP?

Fava de Moraes – Foi o maior privilégio que tive na minha carreira. Ninguém que vai ser reitor imagina o que irá enfrentar no seu mandato. É um cargo complexo, exige habilidade de conciliação, ser um espelho de exemplo, com dedicação integral e exclusiva. Tem que fazer uma gestão participativa e absolutamente aberta, porque a diversidade dentro da USP não só é benéfica como é de uma escala enorme em termos de gênero, raça e condição social. A USP é um verdadeiro laboratório de exercício da tolerância, diversidade e aceitação do outro. Isso não se consegue fazer sozinho. Todo indivíduo que tenta ser reitor e faz um comando muito individualizado tende a ter fracasso na gestão. A participação mais coletiva é que vai determinar a paz, a harmonia e o caminho a ser seguido. Mesmo quando se tem posições ideologicamente diferentes das suas ou da grande maioria da Universidade, aprende-se que a maioria tem o direito de definir diretrizes institucionais respeitando o direito das minorias. É uma habilidade especial, pois ser reitor não é fácil.

JUSP – Como pesquisador, quais foram suas principais contribuições?

Fava de Moraes – Na área da pesquisa, há dois destaques entre as duas centenas de trabalhos que publiquei. Nos anos 80, dois dos meus trabalhos foram citados entre as dez publicações que mais se destacaram, na época, no campo da histofisiologia da secreção celular. Esses trabalhos são as minhas teses de doutorado e de livre-docência:Morfologia e Histoquímica das Glândulas Salivares de Mamíferos e Histoquímica e Bioquímica Comparada de Glândulas Salivares. O outro destaque é um trabalho pioneiro, publicado na Inglaterra em parceria com o professor José Carneiro, do ICB. Esse trabalho demonstrou a capacidade de renovação das fibras do colágeno, uma proteína. Depois de 40 anos, ele ainda é citado em bibliografias. Esse é um trabalho pioneiro na área.