Notícia

Jornal da Unesp

Um lugar no mundo

Publicado em 01 novembro 2001

Crianças de 9 a 13 anos de escolas públicas estaduais do interior paulista, indagadas sobre as principais capitais do mundo, muitas vezes não apresentam dificuldade em responder. Porém, se perguntadas sobre o nome da rua em que moram ou sobre acontecimentos históricos da própria cidade, silenciam. Justamente para que o aluno não perca o contato com a sua realidade imediata e cotidiana, o Grupo de Desenvolvimento de Materiais Didáticos (GDMD) do Instituto de Biociências (IB) da UNESP, câmpus de Rio Claro, criou Atlas das cidades de Limeira, Ipeúna - já publicados e em pleno uso nas escolas locais - e Rio Claro, localizadas na região de Campinas. "Mostramos aos alunos que qualquer município, por menor que seja, pode e deve ser tratado em sala de aula", afirma a geógrafa Rosângela Doin de Almeida, coordenadora do projeto "Integrando Universidade e Escola Através da Pesquisa em Ensino", financiado, na modalidade de Programa de Apoio ao Ensino Público, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Docente do Departamento de Educação do IB, Rosângela conta que a elaboração desses Atlas exigiu, durante mais de dois anos, um amplo levantamento bibliográfico e de documentos com informações geográficas, topográficas, sociais e humanas das regiões enfocadas. "Como tínhamos apenas mapas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do final da década de 1960, tivemos que atualizar esses mapas, o que exigiu, muitas vezes, reconhecimento de campo", conta. "Alguns núcleos rurais de Rio Claro, por exemplo, não existiam mais ou haviam mudado de nome." Cada Atlas reúne informações sobre localização do município, divisão político-administrativa, rede viária, bairros e setores urbanos e rurais, sítios arqueológicos, ocupação e povoamento, história da cidade, expansão urbana, bacias hidrográficas, gestão de recursos hídricos e saneamento básico. "Com esse amplo material didático, as crianças poderão receber informações sobre recuperação da memória local e preservação dos recursos naturais", explica. O Grupo liderado por Rosângela contou com a participação de nove professores da rede pública estadual das áreas de História, Geografia, Ciências e uma pedagoga, além de três bolsistas de Iniciação Científica. "Esses bolsistas tiveram um papel fundamental. Eles iam para as escolas e acompanhavam as aulas com os Atlas, verificando o que funcionava em sala de aula, o que podia ser alterado e o que devia ser retirado", explica a coordenadora. "Para essas crianças, ter a história da própria cidade e das ruas em que moram relatada em livro é fundamental para o desenvolvimento de cidadãos mais conscientes", avalia uma das integrantes do GDMD, Fabiane Pizzirani, 22 anos, quintanista do curso de Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) e bolsista da Pró-reitoria de Extensão (Proex). O Atlas que exigiu mais da equipe em termos de coleta de dados foi o de Ipeúna, município autônomo desde 1964. Com apenas 3 mil habitantes, localizado a 20 km de Rio Claro, demandou um grande esforço para recuperar a História local. "Além de conseguir documentos originais, obtidos em arquivos públicos e particulares, realizei entrevistas com idosos entre 75 e 87 anos. Elas foram essenciais para a reconstituição do passado da cidade", conta a historiadora e professora da rede pública estadual Hélia Maria de Fátima Gimenez Machado, do GDMD. Uma inovação dos Atlas é a presença de um capítulo sobre sensoriamento remoto, que consiste na observação da Terra a partir de imagens geradas por satélites. "Os professores da rede pública não receberam formação acadêmica para trabalhar informações oriundas dessas novas tecnologias em suas aulas", diz a geógrafa Valeria Cazetta, 27 anos, mestranda do IGCE e especialista no desenvolvimento de mapas gerados com tecnologia de ponta, também do GDMD. "Ao levar o aluno a localizar a sua rua e, ao mesmo tempo, oferecer as primeiras noções de como ler mapas cartográficos, estes Atlas contribuem para que o aluno, desde os primeiros anos, aumente a sua auto-estima e aprenda a lidar com o conhecimento de forma mais crítica", conclui Rosângela.