Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

Um livro para guardar com carinho

Publicado em 17 janeiro 2006

Por José Sebastião Witter
"Biblioteca Indisciplinada" de Guita e José Mindlin é praticamente uma obra de arte que serve de guia e, ao mesmo temp pega o leitor pela mão para um passeio ordenado entre quase mil peças escolhidas a duras penas entre milhares de outras que também mereceriam destaque

Destaques da Biblioteca Indisciplinada de Guita e José Mindlin — 2 volumes — Edição da FAPESP/Edusp/Edições Biblioteca Nacional
Um livro ou uma obra de arte? Difícil ou - melhor, impossível definir. Mas posso dizer que é uma das mais belas edições que já vi desde sempre. Acrescento, não poderia ser diferente porque retrata os destaques de uma das mais belas bibliotecas que conheço. Guita e José Mindlin são pessoas especiais e cuidam de forma muito especial daquilo que colecionaram por toda uma vida. Freqüentei muito pouco este lugar precioso e, agora, poder tê-lo reproduzido, em parte, na minha pequena coleção de livros é uma felicidade.
A edição que traz a chancela da Edusp, da FAPESP e da Biblioteca Nacional traz outra marca registrada: a sensibilidade e a mão de Plínio Martins Filho, presidente da Edusp. Ao todo são 515 páginas de bom gosto.
A apresentação é de Pedro Corrêa do Lago e a Introdução de José Mindlin.
Do apresentador reproduzo este trecho:
"[...]Mas como todo em preendimento colossal, a biblioteca é tão rica que o visitante não sabe por onde começar.
Neste livro, Dr. José resolveu o problema: serve-nos de guia e pega o leitor pela mão para um passeio ordenado entre quase mil peças escolhidas a duras penas entre milhares de outras que também mereceriam destaque E fascinante segui-lo nesse per curso: muitas vezes Dr. José se detém numa obra para consultá-la com mais vagar, e o leitor ouve nas palavras do mestre observações preciosas a respeito das particularidades da peça ou sobre as circunstâncias de sua aquisição. Não consigo imaginar melhor caminho para uma visita "virtual" de um universo tão amplo que até mesmo seu criador só pode abordá-lo parcialmente. Este livro está destinado a tomar-se um "clássico imediato", obra básica no Brasil sobre este fascinante assunto, e um dos "livros sobre livros" mais significativos em todo o mundo.
Vários, amigos de D. Guita e Dr. José uniram-se na empreitada de publicar esta grande obra, que se beneficia sobretudo do enorme esforço do casal de colecionadores na seleção e comentário das peças. Sua filha Diana, no belo projeto gráfico, e sua neta Lucia, nas fotografias, ampliam a contribuição de uma família unida em que todos os membros também amam os livros. Cristina Antunes, curadora do acervo, Elisa Nazarian e Rosana Gonçalves participaram ativamente deste trabalho."
De José Mindlin, grande empresário, batalhador incansável, pelas causas brasileiras, erudito e colecionador infatigável; um bibliófilo autêntico, transcrevo: "[...] Na realidade, esta obra visa a tomar conhecidos alguns destaques, e não seria possível estendê-la demais. Daí, por exemplo, terem sido descritos somente alguns exemplares dos Lusíadas e das Rimas de Camões, quando a Biblioteca possui um conjunto de mais de cem edições. O mesmo acontece com os cancioneiros medievais, as obras sobre os jagunços e . cangaceiros, e assim por diante.
Não posso encenar esta apresentação sem falar em dois amigos bibliófilos, Rubens Borba de Moraes e Luiz Camillo de Oliveira Netto, grandes interlocutores, que até hoje me fazem falta.
Por volta de 1940 conheci Rubens, e nos tornamos amigos fraternais. Foi diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo — para a qual adquiriu a excepcional Biblioteca de Félix Pacheco — da Biblioteca Nacional e da Biblioteca da ONU. Como obra de sua vida, foi autor da Bibliographia Brasiliana, um monumento de erudição. Deixou-nos sua biblioteëa em testamento, e ela se conserva em nossa casa tal como ele a mantinha, em suas próprias estantes. Muitas são as duplicatas, mas o acervo de Brasiliana, com a junção das bibliotecas, cresceu significativamente. Ele tinha, por exemplo, muito mais obras da Impressão Régia do que nós, mas, em compensação, nós tínhamos mais livros impressos na Tipografia do Arco do Cego do que ele. Para mim, foi um privilégio tê-lo como interlocutor no campo de livros raros e de leituras em geral. Aprendi muito com ele e a conversa sobre livros foi para nós, durante uma amizade de mais de quarenta anos, uma fonte permanente de prazer.
Conheci Luiz Camilo de Oliveira Netto também no começo da década de quarenta. Foi diretor da Biblioteca e do Serviço de Comunicações do Itamaraty, e demitido por ter sido o autor do "Manifesto dos Mineiros", pedindo o fim do Estado Novo. Era um grande erudito em assuntos brasileiros e tinha uma primorosa biblioteca, onde nossas conversas, assim como aqui em casa, foram muitas e deliciosamente intermináveis.

Este livro comprova a minha loucura mansa...
E agora, vamos à jornada."
Sobre um livro como este, o que melhor faz um, comentarista apreciador do belo é insistir em dizer que, folheando as suas páginas estamos diante de algo tão belo que é impossível descrevê-lo. As diagramadoras da página de Livros & Idéias, com a sensibilidade de sempre, reproduzi rão alguns dos destaques que foram escolhidos por nosso grande Mestre José Mindlin. Espero que muitos dos meus leitores possam ter em suas bibliotecas mais este precioso e indescritível e raríssimo exemplar que já é um "clássico-imediato" e um dos "livros sobre livros" mais significativos em todo mundo.