Notícia

Gazeta Mercantil

Um jeito pouco saudável de ser

Publicado em 19 fevereiro 1996

Por Maggie Fox — Reuters
Vá em frente - chore, grite, reclame -, é bom para você, acabam de confirmar médicos belgas, que cunharam um novo tipo de personalidade conhecido como tipo D. Essas pessoas reprimiram emoções negativas, como raiva e frustração, e tiveram aumentada sua probabilidade de morrer prematuramente. Eles recomendaram que os médicos que tratam de cardiopatias devem levar em consideração fatores de personalidade. O dr. Johan Denollet, do Hospital-Universidade de Antuérpia, estudou 303 homens e mulheres com doenças coronárias. Eles foram submetidos a testes de personalidade e foram classificados ou como tendentes a vivenciar emoções negativas, mas não manifestá-las (tipo D), ou não. Os pacientes, com idades entre 31 e 79 anos, foram acompanhados de seis a dez anos. As personalidades de tipo D revelaram uma probabilidade quatro vezes maior de morrer prematuramente. Das 38 pessoas que morreram (24 de cardiopatias), 23 eram do tipo D. Isso independentemente de outros fatores de risco, como níveis de colesterol, artérias obstruídas ou grau de forma física. Catorze pessoas morreram mais de cinco anos depois de sofrer um "episódio coronariano" como enfarte, acrescentaram eles. "O risco de morrer, depois de mais de cinco anos de acompanhamento, foi três vezes maior em pacientes do tipo D do que em pacientes não do tipo D", escreveram eles num artigo publicado na revista médica Lancet. Mas eles disseram não saber como ajudar os pacientes do tipo D. "Os traços de personalidade deveriam ser levados em consideração na associação entre desgaste emocional e mortalidade em doenças cardíacas coronárias", concluíram eles, defendendo a realização de mais estudos. Esse não é o primeiro estudo que relaciona doenças com tipos de personalidade. Os médicos relacionaram a personalidade chamada de tipo A, com suas tendências à impaciência e à dependência do trabalho, com morte prematura. Os de tipo B são mais tranqüilos. A designação de tipo D pelos belgas é separada da antiga distinção entre tipo A e tipo B. Não existe tipo C, embora ninguém saiba explicar por quê. A Fundação do Coração britânica informou na semana passada que estava lançando um estudo de 1.300 homens e mulheres de 60 a 80 anos para verificar se a personalidade tinha relação com as cardiopatias. O dr. François Lesperance, do Instituto do Coração de Montreal, Canadá, e a dra. Nancy Frasure-Smith, da Universidade McGilI, contestaram o valor do estudo, embora tenham dito que ele é interessante. "Todo clínico sabe que as emoções negativas podem interferir nas capacidades dos pacientes de lidar com a doença física, que resultam em precária qualidade de vida", comentaram eles na Lancet. Eles destacaram que os pacientes poderiam estar sofrendo de angústia e depressão por sofrerem do coração. "O fator determinante está longe de estar claro. É o meio ambiente, as reações do paciente, seu comportamento, sua personalidade ou mesmo seus genes que precisam mudar? Se houver uma mudança, aumentarão as chances de sobrevivência?" Por via das dúvidas, eles preferiram defender a fórmula tradicional, de realização de testes clínicos seguida do uso de antidepressivos e psicoterapia.