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Jornal do Brasil

Um império mantido pela escrita

Publicado em 02 março 2010

Qual é o papel da comunicação escrita nos séculos seguintes à invenção da imprensa (ocorrida por volta de 1440)?Essa é a principal questão abordada por O Império por escrito —formas de transmissão da cultura letrada no mundo ibérico (séculos 16 a 19), organizado pelas historiadoras LeikMezan Algranti e Ana Paula Megiani. Das leituras da vida na Corte às gazetas manuscritas revolucionárias do século 18, do cotidiano na colônia desde o Descobrimento aos registros da Biblioteca Real, o estudo mostra como a comunicação escrita foi fundamental para a administração e a manutenção do Império português.

Segundo Leila, professora de história na Unicamp, a obra destaca o papel da escrita envolvendo os dois lados do Atlântico, não só nas relações entre Brasil e Portugal, mas também entre Portugal, Espanha e Africa:

— Nesse circuito de circulação de ideias, a escrita manuscrita teve um papel importante, apesar da presença crescente da imprensa, no período analisado, e dos impressos na cultura letrada. Isso se faz presente nas narrativas de viagens, cartas, nas correspondências régias, receitas e na poesia.

Segundo Leila, há muitos momentos na administração oficial em que a comunicação se torna extremamente importante.

— Em termos de Portugal e Brasil, é evidente que sem a comunicação por escrito seria praticamente inviável administrar o Império. O livro mostra, em vários contextos, a importância da escrita na manutenção do Império — disse.

Além dos impressos, registros manuscritos de todo tipo (cartas, regulamentos, crônicas, gramáticas) desempenharam um papel fundamental na transmissão de ideias, valores, normas, costumes e saberes entre as metrópoles e suas colônias, bem como entre as diferentes possessões ultramarinas que integravam tais impérios coloniais.

De acordo com a historiadora, ao se expandir, o Império português sentiu a necessidade de trocar informações com mais rapidez.

— As ordens que até então eram feitas oralmente começaram a ser feitas por escrito. As normas regulavam não só a administração, mas também outras esferas, no âmbito político e jurídico, envolvendo queixas ou denúncias, por exemplo,- explicou.

E a partir desse momento, segundo Leila, que surgiram os arquivos, como o da Torre do Tombo, em Portugal.

— Todo navio que chegava ao Brasil de Portugal, e vice-versa, trazia documentos. A manutenção do Império se deu a partir da troca de informações, grande parte com deliberações para os encarregados locais — disse.

O estudo reúne trabalhos que abordam conjuntos de escritos, impressos ou manuscritos, além de gravuras e mapas que circularam e foram objetos de coleções. Um dos artigos que compõem o livro, de Maria Aparecida de Menezes Borrego, pesquisadora da USP, analisa a presença de livros impressos e manuscritos entre os bens materiais arrolados nos inventários de mercadores paulistas, no decorrer do século 18.

A partir da análise de inventarios contidos no Arquivo do Estado de São Paulo, a autora conclui que a propriedade dos livros disseminou-se no período.

— Ainda que os proprietários de livros representassem uma parcela insignificante da população livre, é pouco satisfatório acreditar que somente os comerciantes focalizados nesta pesquisa fossem proprietários de livros, o que nos leva a especular sobre a presença de mais impressos nas casas de outros habitantes da capital — destacou.

O estudo aborda a questão de contatos e intercâmbios entre povos de culturas distintas, a partir da análise de manuscritos e impressos que circularam entre América e África.

No artigo Bebida dos deuses, por exemplo, Leila analisa técnicas de fabricação e utilidades do chocolate no império português.

— A bebida feita com cacau pelos índios da América Espanhola não era mais o mesmo

chocolate tomado na corte europeia nos séculos 17 e 18, por exemplo. E um saber que foi transformado. E tudo isso passa pela escrita — disse a historiadora, que pesquisa sobre a história da alimentação.

A quarta e última parte do livro, Usos da escrita e formas de contestação política, enfoca o estudo a circulação de informações e ideias consideradas sediciosas, heréticas ou libertinas no império luso-brasileiro, a partir de vários tipos de manuscritos e impressos.

No capítulo Do destino das almas dos índios, por exemplo, Evergton Sales Souza, professor adjunto na Universidade Federal da Bahia, comenta as mudanças no paradigma da teologia portuguesa entre o século 17 e o 18, a partir de visões antagônicas sobre a salvação dos gentios expostas nas textos do jesuíta Simão de Vasconcellos e do padre Antônio Pereira de Figueiredo.

"Os textos da quarta parte abordam, ainda, a questão da produção, divulgação e recepção de notícias, bem como de proposições políticas contra a administração portuguesa na América", contam as organizadoras.

Agência Fapesp