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Um golpe na malária

Publicado em 18 setembro 2000

Por ALEXANDRE MANSUR
Nos países tropicais, a malária e um flagelo responsável por mais de 1 milhão de mortes por ano - e o Brasil engrossa essa estatística. Mata uma criança a cada 30 segundos. O ciclo da doença tomou-se conhecido há um século, mas, ainda assim, é difícil combater a infecção. O parasita responsável por ela, chamado plasmódio, usa estratégias eficazes para tomar conta do organismo da vitima. Uma descoberta feita por pesquisadores do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) pode mudar esse quadro. Eles encontraram uma maneira de alterar o ciclo de desenvolvimento do parasita, o que pode deixá-lo mais frágil e facilitar o tratamento. Quando uma pessoa é contaminada, o plasmódio se abriga dentro dos glóbulos vermelhos, principal célula do sangue, e lá se multiplica. Em certa hora do dia, rompe as paredes da célula para invadir novos glóbulos vermelhos. Esse ataque em massa gera febre alta, calafrios, tremores e dores. Pode ser fatal. "Como todos os plasmódios atacam ao mesmo tempo, fica mais difícil para o sistema imunológico reagir", explica a bioquímica Célia Regina Garcia, coordenadora da pesquisa com a farmacologista Regina Markus, ambas da USP. Através de estudos com camundongos, descobriu-se que o processo infeccioso é desencadeado pelo hormônio melatonina. Produzido pela glândula pineal, ele regula o sono, entre outras funções. Os pesquisadores retiraram a pineal de um grupo de camundongos infectados. Sem a melatonina, o ataque do parasita ficou fora de sincronia. A invasão dos glóbulos vermelhos não ocorreu ao mesmo tempo. "Em princípio, isso deixa o plasmódio mais vulnerável à ação dos medicamentos", diz Sílvia Di Santi, chefe do laboratório de malária da Superintendência de Controle de Endemias, em São Paulo. A equipe da USP também injetou em camundongos uma substância chamada luzindol, para neutralizar a ação da melatonina. A droga evitou o ataque simultâneo do parasita no organismo dos animais. A descoberta foi publicada em julho na revista inglesa Nature Cell Biology. Para os pesquisadores, o próximo desafio é desenvolver substâncias que bloqueiem a ação do hormônio sem causar transtornos à saúde do infectado. O PONTO FRACO DA INFECÇÃO A falta do hormônio melatonina, comum no corpo humano, perturba o ciclo de vida do plasmódio, o parasita da malária Na corrente sanguínea da pessoa infectada, cada plasmódio invade um glóbulo vermelho e, dentro dele, começa a se multiplicar Após dois dias, cada plasmódio dá origem a 36 novos parasitas, que explodem a membrana da célula para invadir outros glóbulos vermelhos Todas essas explosões ocorrem ao mesmo tempo, num surto que dura aproximadamente meia hora e deixa o sistema imunológico sem reação Sem o hormônio metatonina no sangue, os glóbulos não se rompem simultaneamente e a infecção pode ficar mais vulnerável à ação de medicamentos