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Correio da Paraíba online

Um freio no acelerador de partículas

Publicado em 26 outubro 2008

Agência Fapesp

Setembro de 2008 pode entrar para a história como o mês em que a física de partículas, tema tão fascinante quanto complexo, esteve no topo de todos os noticiários como raramente se viu. O primeiro assunto do período foi, claro, a crise na economia americana, que ameaça provocar uma recessão de proporções mundiais e imprevisíveis. O segundo, a esperada entrada em funcionamento do Large Hadron Collider (LHC), o maior acelerador de partículas do planeta, montado pelo Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) 100 metros abaixo da superfície, nos arredores de Genebra, bem na fronteira da Suíça com a França. 

Em 10 de setembro, quando o primeiro feixe de prótons percorreu o túnel circular de 27 quilômetros de extensão do LHC, uma audiência televisiva estimada em 1 bilhão de pessoas, um sexto da população do planeta, assistiu a reportagens sobre o início dos trabalhos da maior e mais complexa estrutura científica edificada pelo homem.

Criação de buraco negro ???

Mais uma prova de que o LHC era o destaque do momento apareceu na internet: nesse dia a página inicial do buscador Google, uma parada quase obrigatória para quem usa cotidianamente o computador, estampava um desenho do megaacelerador. Tamanha publicidade em torno do LHC rendeu também algumas notícias que desagradaram à comunidade científica. Disseminada por alguns meios de comunicação, a hipótese, absurda, de que a operação do equipamento poderia criar um buraco negro capaz de sugar a Terra primeiro irritou os físicos e depois foi motivo de piadas.

Respostas para o Big Bang

O LHC é uma obra que consumiu quase  duas décadas, contando planejamento, construção e atrasos, e custou perto de US$ 10 bilhões. O equipamento, onde pesquisadores esperam provocar e observar as tão aguardadas colisões de prótons, se propõe a investigar o Universo frações de segundo após a explosão primordial (Big Bang) que o teria criado e os misteriosos bósons de Higgs, hipotéticas partículas elementares da matéria que seriam as responsáveis por dar massa às demais partículas, mas cuja existência nunca foi comprovada. Ou seja, respostas para a física do muito pequeno e do muito grande. Quase 10 mil pesquisadores, dos quais cerca de 70 brasileiros, devem produzir algum tipo de trabalho científico no LHC nos próximos anos.

Os eletroímãs são peças fundamentais na estrutura do LHC. Quando resfriados a temperaturas absurdamente baixas, assumem propriedades supercondutoras e servem de guia para os prótons em suas viagens pelo enorme túnel subterrâneo. Com auxílio do gás hélio, trabalham resfriados a -271,3° C no megaacelerador do Cern. Para consertar os dois eletroímãs que apresentaram falha e derreteram no mês passado, será necessário esquentar o local onde eles estão instalados, fazer as trocas e reparos e, em seguida, resfriar novamente todo o ambiente. Todo esse processo deverá se estender por dois meses e terminar perto de dezembro, à beira do inverno europeu. Como o Cern fecha na estação fria para a realização de manutenções periódicas, o LHC só deverá voltar a funcionar em 2009, na primavera do hemisfério Norte.

Rap é sucesso na Internet

O vídeo de um rap de quase cinco minutos sobre o megaacelerador, produzido e estrelado por uma jornalista norte-americana de 23 anos, Katherine McAlpine, tornou-se um hit na internet. O Large hadron rap foi acessado quase 3,5 milhões de vezes no You Tube, o site mais popular de hospedagem de vídeos na rede mundial de computadores, e virou tema de reportagens na imprensa internacional. O sucesso do vídeo musical, amador, mas bem-feito, transformou Alpinekat, nome artístico da rapper encarnada pela jovem comunicadora, numa pequena celebridade do mundo digital. “Achava que, com toda a badalação em torno do LHC, o vídeo seria visto por umas 10 mil pessoas”, disse à Pesquisa FAPESP Katherine, que se formou no ano passado em física e jornalismo pela Universidade Estadual de Michigan.