Notícia

Jornal da USP

Um exemplo de divulgação científica

Publicado em 23 agosto 1999

Por ROBERTO C. G. CASTRO
Um marco no relacionamento entre ciência e imprensa. É assim que a comunidade científica considera a série de cinco programas sobre o Projeto Genoma Humano que a TV Cultura de São Paulo levou ao ar na semana passada. A série incluiu informações sobre o Programa Genoma/Fapesp, projeto de seqüenciamento genético da bactéria causadora da praga do "amarelinho" que devasta laranjais paulistas. A nova imagem da ciência na telinha Com uma série de cinco programas sobre o Projeto Genoma Humano - com destaque para as pesquisas feitas no Brasil-, a TV Cultura de São Paulo mostra o potencial do jornalismo científico no País. A série Genoma - "Em busca dos sonhos da ciência" - que a TV Cultura de São Paulo produziu e levou ao ar na semana passada - está sendo considerada pela comunidade científica como um marco no relacionamento entre ciência e mídia. Dirigida pela jornalista Mônica Teixeira e apresentada de segunda a sexta-feira, das 21h às 21h30, a série mostrou para o grande público o trabalho dos cientistas do Brasil e do exterior que atuam no Projeto Genoma Humano - a tentativa de mapear todos os cerca de 100 mil genes presentes no DNA humano. A série abordou também o Pro grama Genoma-Fapesp, o proje to de seqüenciamento dos genes da Xylella fastidiosa, a bactéria causadora da clorose variegada dos citros - a chamada "praga do amarelinho", que ataca os laranjais paulistas e causa sérios prejuízos econômicos. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Genoma-Fapesp deu aos cientistas paulistas a infra-estrutura e o know-how necessários para desenvolver o Programa Genoma Câncer - um projeto feito em parceria entre a Fapesp e o Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, de São Paulo com o objetivo de produzir seqüências de genes humanos. O Genoma Câncer também foi analisado pelos programas da TV Cultura, que tiveram gravações feitas nos laboratórios paulistas ligados aos projetos da Fapesp e nos grandes centros de pesquisa em genoma dos Estados Unidos, localizados em Seattle, Washington e Saint Louis, entre outras cidades. "Esse foi só o primeiro passo dado em direção a uma nova relação entre a comunidade científica e a mídia", considera o diretor científico da Fapesp, professor José Fernando Perez, explicando a importância do espaço dado pela TV Cultura à ciência paulista. Ele acredita que outras emissoras de televisão e rádio e a imprensa escrita possam seguir o exemplo da Cultura e se dedicar também à divulgação científica. "A série mostrou de maneira brilhante que é possível falar de ciência de uma forma agradável, interessante e acessível ao grande público", afirma Perez, destacando que o jornalismo científico tem "um enorme potencial" ainda não inteiramente aproveitado pelas empresas de comunicação. "A mídia precisa se conscientizar disso." Para Perez, a divulgação científica é uma questão de cidadania - daí a importância da atuação da mídia nesse setor. Com o avanço científico e tecnológico, diz, o homem contemporâneo precisa de informações confiáveis e consistentes para poder se posicionar diante de novas questões e problemas. Entre essas questões está, por exemplo, o consumo de alimentos transgênicos - cujos efeitos no organismo humano a sociedade ainda desconhece. "Para viver na nossa sociedade atualmente, o cidadão necessita de informações que são fornecidas pela pesquisa científica, por isso o trabalho da mídia é fundamental", lembra o diretor científico da Fapesp. "A ciência não é feita somente para o prazer de quem a faz, mas principalmente para beneficiar a sociedade inteira." A ciência brasileira Outra importante contribuição da série produzida pela TV Cultura, segundo Perez, foi mostrar a qualidade da pesquisa científica brasileira - que graças aos esforços feitos nos últimos anos atingiu um padrão de nível internacional. Como foi lembrado na série, o Programa Genoma-Câncer, por exemplo, permitiu que os pesquisadores brasileiros se integrassem ao Projeto Genoma Humano e participassem dessa que é talvez - ao lado da exploração espacial - a mais ambiciosa aventura do conhecimento humano. "A nossa sociedade ainda não percebeu que a ciência brasileira está tão avançada", aponta Perez. "Os programas da TV Cultura, em que se pôde perceber o entusiasmo dos pesquisadores e a qualidade dos laboratórios, serviram também para mostrar esse avanço." Mas não foi só. Os cinco programas da série "Genoma - Em busca dos sonhos da ciência" deram noções do desenvolvimento da genética desde as pesquisas dos cientistas James Watson e Francis Crick, ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina em 1962 pela descoberta da estrutura do DNA. Sempre valorizando o trabalho dos pesquisadores brasileiros, a série abordou também conquistas feitas no Brasil - como a descoberta da bactéria Xylella fastidiosa, cujo crédito, no entanto, foi dado a pesquisadores dos Estados Unidos, que publicaram o mesmo feito com alguns meses de antecedência. Outro tema abordado foi a aplicação da ciência da computação na biologia molecular, que permite o seqüenciamento do DNA em computadores. "A série foi muito bem feita e contribuiu bastante para o desenvolvimento da pesquisa e de toda a sociedade." Segundo um acordo firmado entre a Fapesp e a TV Cultura, as gravações feitas para a série que não foram ao ar ficarão de posse da fundação. Perez considera que essas imagens e entrevistas são importantes para a história da ciência no Estado e, por isso, faz questão de preservá-las. Algumas das entrevistas realizadas nos Estados Unidos foram publicadas em encartes que circularam junto com as edições 43 e 44 do Notícias Fapesp - a revista mensal da Fundação. Elas estão disponíveis também no site www.fapesp.br. "Esperamos que os programas da TV Cultura motivem outros veículos de comunicação a abrir mais espaço para a ciência", propõe Perez. "O público tem interesse e precisa desse tipo de prestação de serviço." Assuntos para isso não faltam. Atualmente a Fapesp financia relevantes pesquisas científicas em praticamente todas as áreas do conhecimento - desde a genética e a biotecnologia até a astronomia, a sociologia e a psicologia. Somente no que se refere à genética - além dos programas voltados para o mapeamento de genes humanos e da Xylella fastidiosa -, a Fundação mantém o Programa Genoma-Cana, cujo objetivo é seqüenciar cerca de 50 mil genes da cana-de-açúcar. Com isso, os pesquisadores poderão contribuir para o aperfeiçoamento das plantações, tornando-as resistentes a patologias e a condições adversas de clima e solo. "A pesquisa em São Paulo está numa fase de muita produtividade. A mídia precisa acompanhar esse processo", conclui Perez.