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Um estudo sobre o discurso de três revistas de divulgação científica

Publicado em 03 abril 2018

Por Equipe de Difusão do NeuroMat

Reduzir a divulgação científica à “tradução” de artigos científicos para uma linguagem “comum” não dá conta da complexidade da atividade e, menos ainda, da complexidade da própria linguagem. No contexto brasileiro, publicações de divulgação científica apresentam características textuais distintas, que variam de acordo com os autores, com os leitores e com as empresas que as administram. Os modos de divulgação da ciência das revistas Scientific American Brasil, Pesquisa FAPESP e Superinteressante são tema do artigo “Os discursos da divulgação científica: Um estudo de revistas especializadas em divulgar ciência para o público leigo“, escrito por Elizabeth Gonçalves, da Universidade Metodista de São Paulo, e publicado pela Brazilian Journalism Research.

O artigo apresenta as características das revistas, a partir de informações como quando foram fundadas, quem as edita, qual o perfil do público, números de tiragem, circulação, etc. Depois, Elizabeth trata da parte teórica da pesquisa, elaborado com base na linha francesa da Análise de Discurso, que, segundo a autora, “forneceu-nos o apoio teórico para observarmos o comportamento das revistas ao tratar as temáticas selecionadas e a maneira como cada uma delas se relaciona com o público que visa atingir”.

Ao longo da parte teórica, pode-se dizer resumidamente que Elizabeth fala dos elementos linguísticos que podem ser analisados, da relação conteúdo veiculado e contexto de produção, dos fatores externos que influenciam os processos, das formas de se interpretar o que foi dito e da ideia de multiplicidade das vozes do discurso proposta por Bakhtin. Mais ao fim nessa parte, para falar sobre Divulgação Científica da perspectiva da Análise de Discurso, a autora cita Ana Paula Leibruder, que diz: “a Divulgação Científica é uma prática eminentemente heterogênea, na medida em que incorpora no seu fio discursivo tanto elementos provenientes daquele que lhe serve de fonte – o discurso científico – quanto daquele que pretende atingir – o discurso jornalístico”.

A mescla dos dois discursos reflete-se na parte em que Elizabeth descreve o corpus estudado, as edições entre 2009 e 2010 das revistas Scientific American Brasil, Pesquisa FAPESP e Superinteressante. Sobre a Scientific American Brasil, Elizabeth diz que a publicação é próxima da linguagem científica, pois seus leitores, que têm “interesse profissional em Ciência e Tecnologia”, estão acostumados com um vocabulário mais técnico. Além disso, os autores das reportagens são, em sua maioria, o editor da revista e os próprios pesquisadores do artigo tema da reportagem. Outro traço dessa publicação é que ela, originalmente dos Estados Unidos, coloca pesquisas brasileiras ao lado da de outros países, embora em menor número, sem ultrapassar os 30% por edição.

Para Elizabeth, há, na Scientific American Brasil, predominância do discurso científico sobre o jornalístico, ao contrário do que ocorre com a revista Pesquisa FAPESP, onde o discurso jornalístico predomina sobre o científico. Em sua descrição, Elizabeth diz que a linguagem adotada é próxima da reflexiva e os textos devem ser consistentes em relação aos dados apresentados ao mesmo tempo que acessíveis ao leitor. Nesse sentido, a Pesquisa FAPESP tenta explicar os termos técnicos com exemplos, metáforas e comparações. A necessidade em esclarecer se deve ao fato de que os leitores da revista são, na maioria, adultos, universitários e pesquisadores. Ademais, as reportagens têm como fontes pesquisadores brasileiros não só de pesquisas nacionais, mas também de pesquisas internacionais.

Escrever com vocabulário mais acessível, mas sem se afastar do rigor científico em relação aos dados, é um traço que diferencia a revista Pesquisa FAPESP da Superinteressante, talvez porque uma, financiada pela FAPESP, esteja afastada do lado comercial, ao passo que a outra, produzida pela editora Abril, esteja totalmente conectada ao lado comercial. Segundo Elizabeth, a Superinteressante tem um público jovem e faz uso da novidade, do fantástico e por vezes do lúdico para dar uma estética ao texto de modo que atraia o leitor. Isso evidencia-se no vocabulário das matérias, em que gírias e expressões populares são recorrentes. A linguagem é próxima da do jornalismo factual, as matérias focam os resultados, e não em todo o processo de construção e elaboração da pesquisa.

Na análise de Elizabeth, a revista mantém o contato com o público com a linguagem adotada da perspectiva comercial. Da perspectiva científico, no entanto, a ênfase no “ineditismo” do resultado mais o vocabulário distante do técnico, pode sugerir uma superficialidade na divulgação científica. “Nas publicações que analisamos, temos a Scientific American Brasil mais próxima da linguagem científica, a Revista Pesquisa FAPESP, mais próxima da linguagem jornalística reflexiva e a Superinteressante mais próxima de um jornalismo mais factual ou imediatista”.

Referência: GONÇALVES, Elizabeth Moraes. Os discursos da divulgação científica–um estudo de Revistas especializadas em divulgar ciência para o público leigo. Brazilian Journalism Research, v. 9, n. 2, p. 210-227, 2013.