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Um em cada cinco brasileiros sofreu punição física regular na infância

Publicado em 03 julho 2012

Uma pesquisarealizada em 11 capitais brasileiras revelou que mais de 70% dos 4.025entrevistados apanharam quando crianças. Para 20% deles, a punição físicaocorreu de forma regular – uma vez por semana ou mais.

Castigos comvara, cinto, pedaço de pau e outros objetos capazes de provocar danos gravesforam mais frequentes do que a palmada, principalmente entre aqueles quedisseram apanhar quase todos os dias.

Olevantamento foi feito em 2010 e divulgado este mês pelo Núcleo de Estudos daViolência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP), um Centro de Pesquisa,Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP.

O objetivoda pesquisa, segundo Nancy Cardia, vice-coordenadora do NEV, foi examinar comoa exposição à violência afeta as atitudes, normas e valores dos cidadãos emrelação à violência, aos direitos humanos e às instituições encarregadas degarantir a segurança.

"A perguntasobre a punição corporal na infância se mostrou absolutamente vital para apesquisa. Ao cruzar esses resultados com diversas outras questões, podemosnotar que as vítimas de violência grave na infância estão mais sujeitas a seremvítimas de violência ao longo de toda a vida”, disse Cardia.

A explicaçãomais provável para o fenômeno é que as vítimas de punição corporal abusiva nainfância têm maior probabilidade de adotar a violência como linguagem ao lidarcom situações do cotidiano.

"A criançaentende que a violência é uma opção legítima e vai usá-la quando tiver umconflito com colegas da escola, por exemplo. Mas, ao agredir, ele também podesofrer agressão e se tornar vítima. E isso cresce de forma exponencial ao longoda vida”, disse Cardia.

Osentrevistados que relataram ter apanhado muito quando criança foram os que maisescolheram a opção "bater muito” em seus filhos caso esses apresentassem maucomportamento. Também foram os que mais esperariam que os filhos respondessemcom violência caso fossem vítimas de agressão física na escola. Segundo ospesquisadores, os dados sugerem um ciclo perverso de uso de força física queprecisa ser combatido.

Osresultados foram comparados com levantamento semelhante de 1999, realizado peloNEV nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre,Salvador, Recife, Belém, Manaus, Porto Velho e Goiânia. No levantamento de2010, a capital Fortaleza também foi incluída.

Embora opercentual dos que afirmam ter sofrido punição física regular tenha diminuídona última década – passando de um em cada quatro entrevistados para um em cadacinco –, ainda é considerado alto.

A pesquisamostrou também que a percepção da população sobre crescimento da violênciadiminuiu, passando de 93,4% em 1999 para 72,8% em 2010. No último levantamento,porém, foi maior a quantidade de entrevistados que disse ter presenciado emseus bairros uso de drogas, prisão, assalto e agressão.

De modogeral, houve uma melhora na avaliação das instituições de segurança. O Exércitoapresentou um aumento expressivo de 55,2% em 1999 para 66,6% em 2010. Aaprovação da Polícia Federal saltou de 42% para 60%. O índice de aceitação daPolícia Militar, a mais mal avaliada, passou de 21,2% para 38%.

Penas eprisões

Um achadoconsiderado preocupante pelos pesquisadores foi o crescimento da tolerância aouso de violência policial contra suspeitos em determinados casos. O número de pessoasque discorda claramente da tortura para obtenção de provas caiu de 71,2% para52,5%, o que significa que quase a metade dos entrevistados (47%) toleraria aviolência nessa situação.

Também caiuo percentual dos que discordam totalmente que a polícia possa "invadir umacasa” (de 78,4% para 63,8%), "atirar em um suspeito” (de 87,9% para 68,6%),"agredir um suspeito” (de 88,7%, para 67,9%) e "atirar em suspeito armado” (de45,4% para 38%).

Quandoquestionados sobre qual seria a punição mais adequada para delitos consideradosgraves –entre eles sequestro, estupro, homicídio praticado por jovem,terrorismo, tráfico de drogas, marido que mata mulher e corrupção porpolítico–, muitos entrevistados defenderam penas que não fazem parte do CódigoPenal brasileiro, como prisão perpétua, pena de morte e prisão com trabalhosforçados.

A pena demorte foi mais aceita em casos de estupro (39,5%) e a prisão com trabalhosforçados foi mais defendida para políticos corruptos (28,3%).

"Jáesperávamos que a população apoiasse penas mais duras por causa da frustraçãoque existe em relação à impunidade. O conjunto das respostas indica que aspessoas consideram as prisões como um depósito”, avaliou Cardia.

Para amaioria dos entrevistados, a prisão é percebida como pouco ou nada eficientetanto para punir (60,7%) e reabilitar (65,7%) criminosos como para dissuadir(60,9%) e controlar (63%) possíveis infratores. Essa questão foi avaliadaapenas na pesquisa de 2010.

Outroaspecto da pesquisa considerado negativo por Cardia foi a baixa valorização dedireitos democráticos como liberdade de expressão e de oposição política.

Mais de 42%dos entrevistados concordam totalmente ou em parte que é justificável que ogoverno censure a imprensa e 40% aceitam que pessoas sejam presas por posiçõespolíticas, com a finalidade de manter a ordem social. Para 40,4%, o país tem odireito de retirar a nacionalidade de alguém por questões de segurançanacional.

"Esperávamosque, 30 anos após o fim da ditadura, os valores da democracia tivessem 70% ou80% de aprovação, mas isso não ocorreu. Além disso há focos muito poucodemocráticos que sobrevivem, como o apoio à tortura. Há resquícios dopensamento de que degredo é legítimo e pode ser aplicado no século 21. Échocante”, disse Cardia.

(Agência Fapesp - 29/06/2012)