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Um economista preocupado com a inovação

Publicado em 23 fevereiro 2020

A indústria brasileira recuou 1,1% no ano passado, de acordo com dados divulgados no início de fevereiro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A produção industrial do país voltou ao patamar de 2009. Os números são compatíveis com o diagnóstico do economista David Kupfer, para quem o Brasil sofre de “doença industrial grave”. Morto em 19 de fevereiro, aos 63 anos, em decorrência de um câncer no pâncreas, o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ) e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE) da mesma universidade era um dos principais especialistas em economia industrial do país.

Seu trabalho considerava a indústria brasileira para além de variáveis econômicas como a taxa de câmbio, enfatizando aspectos como tecnologia e inovação. Entre 1992 e 1994, foi um dos coordenadores do Estudo da competitividade da indústria brasileira, que mapeou os desafios da transição do modelo industrial protegido e de substituição de importações para um modelo de competição global. Os coordenadores gerais eram Luciano Coutinho, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp), e João Carlos Ferraz, da UFRJ.

“Conheci David quando ele era um jovem professor. Era um economista completo. Dominava teoria, particularmente de inovação e desenvolvimento, mas também conhecia as políticas públicas e compreendia bem os métodos estatísticos. Era muito cuidadoso com a qualidade da base de dados”, afirma Coutinho, que foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 2007 e 2016. “Também conhecia a realidade da indústria muito de perto. Não era só um teórico”, acrescenta.

A abordagem da desindustrialização brasileira que Kupfer defendia se distinguia por enfatizar o lento crescimento da produtividade, em vez do estrangulamento cambial. “Ele se preocupava com a rigidez de um parque industrial que parou no tempo e não acompanha o avanço do mundo”, explica a economista Esther Dweck, professora do IE-UFRJ e pesquisadora do GIC desde 2005. “Para entender por que a produtividade cresce tão devagar no Brasil, David adotou uma visão desagregada, setor a setor, que tem influenciado pesquisadores do país inteiro.”

“O Brasil perdeu o economista industrial mais equipado e o mais profundo pensador dos desafios e rumos da indústria brasileira”, lamenta o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida. “Desenvolvemos diversas iniciativas juntos. A última delas foi a organização de mesas de debate sobre a indústria do futuro, para alunos e economistas da área industrial. Não parece, mas ainda são muitos no Brasil. As palestras dele eram sempre muito concorridas”, conta.

Entre 2017 e 2018, Kupfer e Coutinho trabalharam juntos novamente, no projeto Indústria 2027: Riscos e oportunidades para o Brasil diante de inovações disruptivas, encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O projeto analisa como o parque industrial brasileiro está sendo impactado por tecnologias de quarta geração (ou indústria 4.0). “Ele se interessava pelo crescimento chinês, visitou muitas vezes a China”, lembra Coutinho. Kupfer se dedicava à segunda versão desse estudo. Ano passado, quando a doença não lhe permitiu continuar, teve de interromper o trabalho.

“Sua grande qualidade era ser extremamente generoso”, afirma Dweck. Essa generosidade se estendia às coisas mais simples. “Ele se sentava com os alunos, da graduação ao doutorado, para, por exemplo, ensinar o uso do Excel”, exemplifica. Kupfer era também um incentivador das jovens gerações, ressalta a economista Cristina Reis, da Universidade Federal do ABC (UFABC), sua aluna no mestrado na UFRJ. Na primeira apresentação pública que fez de seu trabalho, diante de uma plateia composta por pesquisadores renomados, Reis conta que ficou intimidada e não conseguiu se expressar bem. Ao terminar a fala, foi abordada por Kupfer. “Ele me acalmou, dizendo que eu era jovem e logo pegaria a tarimba de falar em público”, lembra.

No livro Made in Brazil: Desafios competitivos para a indústria (Campus, 1995), o economista analisou os efeitos da abertura comercial realizada pelo presidente Fernando Collor (1990-1992) e concluiu que seus impactos sobre a competitividade do país tiveram duração limitada. Publicado em 2002 pela Campus Elsevier, Economia industrial: Fundamentos teóricos e práticas no Brasil, organizado por Kupfer e Lia Hasenklever, sua colega na UFRJ, é o principal manual de organização industrial no Brasil. As duas obras foram agraciadas com o prêmio Jabuti.

Kupfer fez toda a sua formação na universidade onde trabalhou. Graduou-se em engenharia química, depois fez o mestrado (1986) e o doutorado (1988) no Instituto de Economia. Coordenou o programa de pós-graduação do IE-UFRJ e dirigiu o instituto até agosto do ano passado. Integrava o Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o Instituto de Estudos Brasil-China (Ibrach). Entre 2011 e 2014, foi assessor da presidência do BNDES. Expressava suas ideias como articulista do jornal Valor Econômico. Em 2019, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) homenageou-o com o título de pesquisador emérito.