Notícia

JC e-mail

Um destaque na historia da Educação para a Ciência, artigo de Antônio Carlos Pavão.

Publicado em 08 agosto 2001

O autor é professor do Depto. de Química Fundamental da UFPE (www.dqf.ufpe.br) e diretor do Espaço Ciência (www.eciencia.pe.gov.br). Artigo publicado na coluna Vida & Ciência, do "Jornal do Commercio" de 3/8: A educação para a ciência foi o destaque da 53ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) realizada em julho, na Bahia, Estado onde quase tudo começou. Atenta às grandes questões sociais e refletindo uma tendência mundial, a SBPC reconheceu a importância do tema e corretamente programou este ano várias atividades de educação e divulgação científica. Tal iniciativa, somada à ousadia do Recife em propiciar a 2.705 professores a participação no evento, transformaram a reunião em mais um referencial histórico nos programas de educação científica. É claro que foi marcante o fato de que cerca de 20% dos congressistas eram professores da rede municipal de uma única cidade do País. Isto colocou questões cruciais para prefeituras e Estados: como capacitar professores em ciências? Como bem usar recursos públicos, como o Fundef? Por que todas as cidades não fazem o mesmo? Não será este um direito do professor? Vale lembrar que a próxima reunião será em Goiânia e a de 2003 ocorrerá no Recife. Portanto, governantes, preparem-vos! Mas tivemos também outros destaques. Na conferência de abertura do Colóquio em Ensino de Ciências, George Nelson, da AAAS (Associação dos Estados Unidos para o Progresso da Ciência), falou de uma universal science literacy, um programa USA de globalização do ensino de ciências até 2061. Que precisão! E ainda previu nossos filhos e netos na Lua, Marte e asteróides. Valeu o comentário de Ennio Candotti, da UFES e sempre uma liderança nas discussões sobre o ensino e divulgação de ciências, sobre as diferenças culturais no planeta. Mas George Nelson também falou que todos os livros didáticos de Física continham erros. Nelio Bizzo, da USP, no mesmo dia, mostrou alguns exemplos de erros já famosos em livros nacionais. Mas, é bom lembrar que Lavoisier, entre outros, estudou pelo Cours di Chimie, do francês Nicholas Lémery, um livro com erros crassos que foi usado durante quase 100 anos. Portanto, precisamos sim de bons livros, mas muito mais de leitores críticos. No colóquio sobre Atividades Educacionais em Museus de Ciência, com a coordenação da Estação Ciência-SP, chamaram atenção os relatos e as estratégias de implantação e sustentabilidade do Maloka, o belo museu da Colômbia, e do Espaço Ciência, de Pernambuco, que sugere um maior envolvimento do Estado (ou a alternativa de assaltar o FMI) para o financiamento de um grande número de centros de ciência no País. Na verdade, as próprias escolas poderiam adquirir um caráter de centro interativo de ciências, desprivatizando-se (a escola é privada no sentido de que é um espaço destinado apenas a alunos e professores) e abrindo-se para a freqüência de famílias e de toda a sociedade. Assim a escola seria mais militante, intervindo forte e decisivamente no seu meio social. No Simpósio de Divulgação Científica foram discutidas as visões do cientista e do jornalista. Carlos Vogt, da Unicamp, deu uma lição de coordenação naquela que talvez tenha sido a melhor das mesas-redondas, com belas exposições dos jornalistas José Monserrat Filho, do Jornal da Ciência, e Ulisses Capozoli, da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, além de comentários contundentes dos presidentes de honra da SBPC Aziz Ab'Saber e Crodowaldo Pavan, este entusiasticamente criticando o caráter propagandístico institucional da revista Pesquisa da Fapesp e questionando se de fato é fazer ciência a operação de apertar botões do Projeto Genoma. Arte-ciência também marcou presença na reunião. Leopoldo de Méis (UFRJ) e equipe foram aplaudidos de pé no final da peça O Método Científico, mostrando a importância de experiências pedagógicas com artistas, alunos e educadores. Valeu pela montagem simples, engraçada e criativa. Porém, na cena do guilhotinamento de Lavoisier, O Método criticou a revolução francesa no protesto de Lagrange (levou menos de um segundo para cortar esta cabeça, mas levará mais de um século para produzir outra igual), ridicularizou a necessidade de democratização da Academia de Ciências nas críticas ao cidadão Marat, mas não falou que Lavoisier e seu sogro (também guilhotinado na mesma manhã do dia 8 de maio de 1894) coletavam impostos para o rei e se beneficiavam com a malquista Fermier, que Lavoisier mandou construir um muro ao redor de Paris para controlar a coleta e que foi acusado de molhar a pólvora para obter mais lucros. No fim, a peça acabou passando uma versão oficial, a de um Lavoisier coitadinho. Mas são questionamentos que mostram a necessidade de uma constante revisão na história da ciência. Também foi destaque a boa notícia dada por João Steiner, do MCT, na reunião da ABCMC (Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência) de que teremos um Instituto do Milênio para a divulgação científica. Isto significa cerca de R$ 5 milhões, em três anos, para um programa nacional de divulgação/educação para a ciência que deverá estar sob a coordenação da Academia Brasileira de Ciências. Assim, a Bahia garantiu seu lugar na história da educação e divulgação da ciência. E para quem faz história, este não foi o começo. Educação científica é uma prática e aspiração muito antiga. E uma necessidade cada vez maior para o exercício da cidadania. JC E-Mail 1848