Notícia

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Um debate sobre a presença de contaminantes emergentes na água para consumo humano

Publicado em 19 abril 2011

Por Luiz Sugimoto

Oferecer embasamento para uma futura legislação de controle de contaminantes emergentes em água para consumo humano. Foi com esta proposta que o Laboratório de Química Ambiental (LQA), do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, organizou o segundo worshop sobre o tema, nesta terça-feira, no Centro de Convenções. O evento, coordenado pelo professor Wilson de Figueiredo Jardim, contou com a participação de palestrantes brasileiros e estrangeiros, além de representantes de concessionárias de água e esgoto, comitês de bacias hidrográficas, agências ambientais e Ministério Público.

Contaminantes emergentes são substâncias encontradas em águas de mananciais ou nas redes de distribuição para a população, e que podem causar algum tipo de risco à saúde humana e animal, não havendo lei que regule sua concentração máxima no meio ambiente. São resíduos de produtos farmacêuticos e de higiene pessoal, indicadores de atividade antrópica, subprodutos industriais, hormônios sintéticos e naturais e drogas ilícitas. Um exemplo são os resíduos de pílulas anticoncepcionais, hoje já detectados pelos pesquisadores em águas que passaram por estações de tratamento.

O workshop marcou o encerramento de projeto temático sobre a ocorrência destes contaminantes nos mananciais e na água consumida no Estado de São Paulo, financiado pela Fapesp e desenvolvido por pesquisadores da Unicamp, Unesp e Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). "Foi um estudo sistemático em que coletamos mais de 150 amostras ao longo de dois anos. A presença de vários contaminantes é incontestável: desde atrazina (um agrotóxico clássico), passando por cafeína e hormônios sintéticos e naturais, até compostos de perfumaria ou higiene pessoal (como triclozan, um bactericida)", aponta Wilson Jardim.

Segundo o docente da Unicamp, o projeto Fapesp resultou na determinação de quantidades presentes não apenas em mananciais, como em água potável. "Os estudos indicam valores para águas superficiais, mas os riscos trazidos por esses compostos para a saúde humana, ainda não conseguimos medir. Entretanto, em relação à saúde animal, já é sabido, entre vários outros exemplos, que o hormônio sintético presente na pílula anticoncepcional altera o sexo de peixes, ou seja, induz à feminização dos machos".

Wilson Jardim ressalta a péssima qualidade dos nossos mananciais, por conta do lançamento do esgoto in natura nestes corpos, deteriorando a qualidade da água. "O controle da concentração de contaminantes está no tratamento da água e do esgoto, mas temos concessionárias que funcionam de modo tradicional, investindo alto em novos clientes e muito pouco em tratamento. Não vamos solucionar este problema enquanto país de economia entre as sete do mundo, mas com saneamento deplorável. Há um descompasso entre riqueza econômica e riqueza em saúde".

O pesquisador explica que o projeto temático executado em São Paulo foi o primeiro no país visando saber o quanto de contaminantes está chegando às torneiras da população. "Depois deste levantamento no Estado, a ideia é replicá-lo em nível nacional, dentro de outro programa, a fim de obter uma radiografia da situação no Brasil e compará-la com as de outros países. Alguns deles, como Japão, Canadá e Estados Unidos, já determinaram valores para proteção da vida aquática. Mas, no que se refere à água potável, estamos caminhando lado a lado. O processo é um tanto moroso, mas acredito que nos próximos cinco anos teremos novidades em termos de legislação".

Conferencistas

O 2º Workshop sobre Contaminantes Emergentes em Águas para Consumo Humano teve como palestrantes internacionais: Susan Richardson, pesquisadora da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (US-EPA); Theodore Henry, pesquisador da Universidade de Plymouth (Inglaterra); Douglas Wolf, professor do Instituto Politécnico de Virginia e também pesquisador da US-EPA; e Melanie Eldridge, pesquisadora do Centro de Biotecnologia Ambiental de Knoxville (Tennessee, EUA).

Entre os conferencistas, Wilson Jardim, que apresentou resultados do Projeto Temático Fapesp juntamente com Gisela Umbuzeiro, professora da Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp; Roseane Souza, engenheira do Centro de Vigilância Epidemiológica; Pedro Mancuso, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e colaborador do Ministério Público do Estado; e José Lutti, primeiro promotor de Justiça do Meio Ambiente do município de São Paulo.