Notícia

JC e-mail

Um congresso a ser lembrado

Publicado em 22 outubro 1999

Por Darcy Fontoura de Almeida
Gramado, Rio Grande do Sul, Outubro de 99, 45º Congresso Nacional de Genética, são o local, a data e o evento que ficarão registrados de forma especial na história da Sociedade Brasileira de Genética (SBG). Pois ali e então aconteceram as comunicações dos primeiros resultados e dos desdobramentos do projeto Genoma, iniciativa da Fapesp e do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, SP. Foram três conferências. Na primeira foi apresentada uma nova abordagem para o seqüenciamento de fragmentos de DNA codificante, para aplicação ao transcriptoma humano. Na segunda, o genoma completo da Xylella fastidiosa, bactéria fitopatógena que é o agente causal da clorose de cítricos, praga dos laranjais e congêneres. E na terceira, os primeiros achados do projeto sobre o genoma do câncer humano. O impressionante conjunto marca a entrada da ciência biomédica brasileira no pelotão de frente dos estudos de genomas completos, em condições de competitividade. Aliás, as três conferências nada ficaram a dever às melhores exposições oferecidas pelo I Mundo e nos trouxeram a imagem viva de pesquisas em fluxo literalmente ininterrupto. Para explicar a rara ocorrência, vários fatores devem ser relacionados. Em primeiro lugar, a disposição de uma agência governante (a Fapesp) e de uma instituição de pesquisa (o Instituto Ludwig) de patrocinarem o projeto, com investimentos bastante altos para nossos padrões. Depois, uma coordenação hábil e segura, tanto cientifica quanto administrativa. E, na outra ponta, a constituição de um consórcio de cerca de 30 laboratórios, compondo equipes previamente bem treinadas e com equipamentos modernos à sua disposição, com uma predominância marcante de jovens pesquisadores. Com estas características, é fácil imaginar suas (boas) conseqüências. Algumas estão bem à vista: projeto com integração múltipla, envolvendo e beneficiando laboratórios espalhados por todo o estado; - estudos que nos deixarão mais próximos do tratamento de doenças de vegetais e de humanos; - capacitação da força de trabalho jovem, que agora amadurece, e que serão potenciais focos de irradiação de ciência. Outras, que não se encontram imediatamente aparentes, talvez sejam, a meu ver, as mais importantes: a abertura de frentes de bioinformática para a investigação dos mecanismos biológicos subjacentes àqueles problemas, e a outros correlatos, que configuram a chamada era pós-genômica (não sei se esta é a melhor tradução para o inglês genomics). Neste particular, as oportunidades parecem infinitas, o que nos leva a indagar da possibilidade de expansão dos projetos, nesta fase, a laboratórios em outros estados. Aliás, esta pergunta surgiu por duas vezes durante as conferências. O trabalho cresce de importância quando sabemos que a mesma equipe já começa a estabelecer, com base na infra-estrutura montada até aqui, os projetos Genoma da Cana (e aí os estados de Pernambuco e do Rio de Janeiro estão associados) e Genoma da Xanthomonas campestris, outro fitopatógeno. Para concluir, o projeto tem óbvias repercussões econômico-sociais, devidamente ressaltadas nas conferências, o que só faz aumentar sua importância. Além deste fato marcante, várias outras atividades levantaram grande interesse. Entre elas: - a contrapartida do projeto Genoma Humano, que focaliza os genes a partir das doenças, com a apresentação do Centro de Estudos de Doenças Genéticas; - a conferência sobre patentes de genes (B. Brenig, Alemanha); - a tensa discussão sobre plantas transgênicas, ainda e sempre na pauta; - e a experiência das atividades junto à população da cidade, a Genética na Praça, que sofreu nos primeiros dias, devido à inesperada (pois o inverno já se foi) baixa de temperatura, compensada pelo calor da participação, em especial de escolares do primeiro e segundo graus. Um Congresso a ser lembrado. Membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).