Notícia

Jornal da USP

Um cientista e líder

Publicado em 25 outubro 1998

Por GERHARD MALNIC
Estou muito contente por poder saudar o dr. Alberto Carvalho da Silva nesta ocasião, na qual ele é homenageado pela atribuição de seu nome a esta Sala da Congregação do ICB. Tenho muitos motivos para estar honrado por a diretora do Instituto, professora Magda, ter me incumbido desta tarefa. De um lado, por poder saudar uma pessoa que tem se destacado sobremaneira como pesquisador e como líder da política científica nacional e, de outro, pela questão mais pessoal de ter guiado os meus primeiros passos na vida científica. O professor Alberto, tendo nascido em Portugal e vindo ao Brasil nos primeiros anos de vida, obteve aqui uma formação das melhores possíveis em nosso meio. Após cursar a Faculdade de Medicina da USP, completou sua formação científica com os professes Rheinboldt e Hauptmann no setor de Química da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de nossa universidade, obtendo especialização em Química Analítica que lhe possibilitou aplicar a suas pesquisas um rigor científico incomum tanto naquela época como hoje. Além disso, seguiu na época o curso de Sociologia daquela faculdade, o que certamente muito contribuiu para sua visão geral do papel da ciência em nossa Sociedade. Sendo indicado assistente da cadeira de Fisiologia da Faculdade de Medicina pelo professor Franklin de Moura Campos, instalou laboratório modelar para o estudo da nutrição, preocupando-se basicamente com a função de uma série de vitaminas. Usou como animal experimental o gato, que apresentava diversas vantagens para pesquisa na área da Nutrição, e de cujo uso foi pioneiro, tendo inclusive escrito capítulos a respeito do mesmo como animal experimental em textos internacionais sobre animais de laboratório. Teve nestes anos uma carreira científica produtiva, com considerável número de publicações em periódicos internacionais de sua especialidade, o que o levou a ganhar a cátedra de Fisiologia em 1964. Já antes dessa época, e com maior intensidade depois, dispôs-se a remodelar e modernizar o Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina, introduzindo novas técnicas de ensino e, particularmente, aperfeiçoando o ensino prático, desta forma transformando o departamento em um dos mais ativos e evoluídos da faculdade. Nesta época, criou e foi o primeiro presidente da Associação dos Auxiliares de Ensino da USP, predecessora da atual Adusp, Associação dos Docentes desta universidade. Muito sofreu o professor Alberto com o governo militar, submetido a inquérito policial-militar em 1964, sem que se encontrasse nada a incriminá-lo, mas depois sendo aposentado compulsoriamente em 1969, por ato arbitrário conseqüente ao fechamento institucional da época. Teve que deixar seu querido departamento, o que foi um golpe violento para todos nós que estávamos entusiasmados com a nova orientação do mesmo. Ao contrário de muitos colegas, permaneceu no País, em parte por motivos familiares, o que certamente não contribuiu para atenuar o golpe. Nesta época, trabalhou por muitos anos na Fundação Ford, no Rio de Janeiro, contribuindo para o apoio financeiro e para a orientação de muitos centros de pesquisa do País. Apesar disto, a semente que deixou e os jovens que permaneceram no departamento conseguiram, de alguma forma, continuar sua obra, cujos reflexos permanecem até hoje. Após sua reintegração à Universidade, voltou a ter importante papel de liderança, agora no ICB. Foi chefe do Departamento de Fisiologia e Farmacologia de nosso instituto, e o primeiro chefe do Departamento de Farmacologia, após a separação destes departamentos. . O professor Alberto teve importância particular na orientação de nossa política científica, contribuindo de forma muito importante para a criação da Fapesp, no início dos anos 60, sendo logo depois seu segundo diretor científico. Não se pode minimizar este papel, que acabou levando à criação e ao fortalecimento de uma instituição que levou a incomparável impulso da vida científica de nosso Estado e, certamente, também de seu desenvolvimento econômico e tecnológico. Após sua reintegração à Universidade, foi por dois mandatos consecutivos presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp. Mais recentemente, e até a presente data, tem sido professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, com a função de realizar estudos sobre política científica brasileira. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Fisiologia e é atualmente presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. E certamente devo ter esquecido ainda de mencionar algumas de suas muitas atividades. Mas as melhores lembranças que tenho do professor Alberto estão no nível pessoal. No fim do segundo ano de Medicina, após o curso de Fisiologia, convidou-me para estagiar no seu laboratório; lembro-me dos muitos sábados e domingos que estivemos trabalhando juntos, de termos estudado juntos o livro de Fisiologia Renal de Homer Smith para iniciar estudos nesta área referentes à excreção renal de vitaminas, estudos esses que levaram à minha tese de doutorado dois anos após minha formatura em Medicina. De uma pessoa que por muitos anos foi um segundo pai, além de orientador científico, orientando mais pelo exemplo de vida que por dizer o que fazer. O professor Alberto, apesar das dificuldades por que passou em um período negro de nossa história, tem tido sua importância e contribuição reconhecidas e honradas de muitas maneiras. É Professor Emérito deste instituto e da própria Universidade. Apesar disso, nunca é demais lembrarmos de um homem de sua estatura moral e científica, e é isto que fazemos hoje, dando o seu nome a esta sala. Gerhard Malnic é professor de Fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP