Notícia

Cruzeiro do Sul

Um catolicismo genuinamente indígena

Publicado em 15 setembro 2010

Por José Antônio Rosa

O estudo da realidade dos povos indígenas não é exatamente novidade para o professor e músico sorocabano Paulo Edson. Em 2004, para gravar o CD "Terra Sem Mal", projeto apoiado pela Line, ele manteve contato com a tribo guarani Tekoa Pyau".

Como parte das letras do álbum, que mescla rock com a música produzida pelos índios, foi escrita em tupi e guarani, Paulo decidiu aprofundar a pesquisa e, seis anos depois, lança, na próxima sexta-feira, dentro da programação da 24a Semana de Letras da Uniso, "Catolicismo Indígena".

O livro aborda o trabalho de tradução realizado pelo jesuíta José de Anchieta no processo de catequese das comunidades com as quais conviveu no século XVI. Mais precisamente, o autor foca as questões linguísticas e suas implicações.

Para evangelizar e se fazer entender, Anchieta estudou a fundo a língua falada pelas tribos de então. O Tupi, explicou Paulo Edson ao Mais Cruzeiro, "carecia de expressões importantes do dogma cristão".

Não existiam, por exemplo, expressões que designassem "Deus", "pecado", "demônio", "tentação", e "anjo", entre tantas outras. O padre teve de fazer uma série de adaptações e concessões para que sua mensagem fosse compreendida.

No livro, o professor identifica exatamente essas situações e os seus desdobramentos na concepção que o índio teve da mitologia cristã. "Em outras palavras, Anchieta, por meio de manobras linguísticas, acabou criando um Catolicismo que pertencia a uma terceira esfera: não era totalmente cristão, nem totalmente pagão. Daí, o livro se chamar Catolicismo Indígena", contou o autor.

Foi também a leitura de um artigo do pesquisador e professor da USP Eduardo Navarro, um dos maiores conhecedores da língua Tupi, sobre a catequização e os problemas de tradução no trabalho missionário no século XVI, que levou Paulo Edson a investir no livro.

"Pesquisei ainda mais a tradução de Anchieta e acabei cursando um ano de Tupi na USP com o próprio Eduardo Navarro, que se tornou meu co-orientador no processo de pesquisa que, por sua vez, resultou no doutorado seguido do financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com o qual publiquei o livro". Paulo Edson conclui que José de Anchieta promoveu um verdadeiro "sincretismo linguístico", ao usar o tupi para difundir a doutrina crista. "Tenho muito claro que Anchieta foi uma pessoa de extrema inteligência. Ele se tornou proficiente em Tupi em apenas seis meses, através do contato com os nativos do Brasil. Antes de completar um ano no país, (ele é natural das Ilhas Canárias), elaborou a gramática da Língua Tupi. A língua, até então, era uma língua ágrafa (apenas oral). Foi Anchieta quem adequou a escrita da língua em alfabeto latino".

Incorporar ao vocabulário indígena expressões próprias do catolicismo exigiu muito do jesuíta. Paulo Edson cita algumas situações. "Deus era designado pelo termo Tupã, palavra que, até então, definia um ser sobrenatural com poderes de comandar os trovões".

Demônio era "Anhangá", também nome do ser mitológico dos tupis que protegia as florestas e a caça. Ele agia contra o índio, pois fazia com que sua flecha não atingisse sua presa ou que ele se perdesse dentro da mata.

Outro exemplo está na expressão "karaibebê", ou, em tradução literal, "pajé voador". Anchieta fazia referência a anjo. Em outras circunstâncias, o padre simplesmente opta por não traduzir e manter a palavra em português em seus escritos.

São os casos de "tentação", "reino", entre outras, que não possuem qualquer significado para o indígena. "Ao meu ver, é essa reorganização linguística que faz do catolicismo pregado por Anchieta e seus companheiros um catolicismo genuinamente indígena".

Na conversa com a reportagem, Paulo Edson foi lembrado de que José de Alencar, muito tempo depois, defendeu que o país adotasse o tupi como língua pátria. A tese, de certa forma, tomou por base o trabalho de Anchieta. "Ele teve de lidar com o que era possível naquela época: o nativo apenas falava o tupi. No caso de José de Alencar, apesar ser genuína sua defesa do tupi, em termos práticos, era um projeto impossível. Na verdade, nós, brasileiros, tínhamos tudo para sermos uma nação bilíngue, como é o caso do Paraguai. Até meados do século XVIII, de quatro brasileiros, três falavam, basicamente, o Tupi. Foi o Marquês de Pombal quem, em 1759, decretou o fim do tupi como língua vernácula, ao proibir o seu ensino nas escolas brasileiras. Com isso, perdemos um acervo cultural riquíssimo. Utilizamos algo em torno de 10 mil palavras derivadas do tupi no português do Brasil, mas muitas delas não temos nem ideia do que tratam. Por exemplo: poucas pessoas aqui de Sorocaba ou de Araçoiaba devem saber o significado dos nomes dos bairros Jundiaquara ou Jundiacanga: a primeira é toca do bagre; a segunda, cabeça de bagre".

Existe, de acordo com Paulo Edson, relação entre o trabalho das missões católicas na América do Sul e a atuação de José de Anchieta, conforme demonstrado no filme "A Missão", do inglês Roland Joffee. A produção aponta o lado menos civilizado da catequese e denuncia a morte de nativos no confronto com tropas espanholas. "Nossa experiência foi menos traumática e menos violenta. O debate teológico sobre o procedimento dos colonizadores e missionários na América Latina era mais intenso na Espanha, diferentemente de Portugal. No Brasil Colonial houve um pouco mais de complacência quanto ao modo de vida dos indígenas e seus costumes".

"Catolicismo Indígena" tem o lançamento marcado para as 19h, no Salão Vermelho da Uniso Trujillo e será vendido, na ocasião, a R$ 22. Ele também pode ser adquirido no site www.pacoeditorial.com.br, a R$ 42,90. Em breve, estará disponível nas livrarias.