Notícia

Ensino Superior

Um caso de sucesso

Publicado em 01 fevereiro 2008

Como uma instituição que nem constava nos relatórios dos órgãos brasileiros de avaliação e fomento à pesquisa passou a apontar indicadores de eficiência na área.

Em 1996 os autores deste artigo ocuparam as funções de reitor, vice-reitor e pró-reitor acadêmico da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), tendo como maior desafio a implantação da pesquisa em uma universidade sem nenhuma tradição nessa área, que não constava sequer dos relatórios dos órgãos brasileiros de avaliação e fomento à pesquisa. Na época, o que se classificava como pesquisa na UMC estava mais próximo da extensão universitária - útil, mas não era pesquisa científica. Como conseqüência, a universidade não conseguia captar recursos junto aos órgãos de fomento à pesquisa.

Para implantar, rapidamente, uma base científica sustentável partiu-se de algumas estratégias básicas: primeiro, conscientizar a entidade mantenedora e a comunidade de que a pesquisa científica é intrínseca a uma universidade (embora não necessariamente a todas as instituições de ensino superior), conhecer o potencial interno, avaliar esse potencial diante das áreas de pesquisa prioritárias nas agências de fomento - uma vez que sendo a UMC uma universidade particular, não seria justo que o estudante pagasse sozinho pela pesquisa. Em seguida, a partir da comparação das áreas com o potencial interno, definir a composição de grupos viáveis e competitivos, preferencialmente de caráter multidisciplinar, para agregar mais professores e alunos de forma a difundir a experiência de pesquisa em um número grande de cursos e garantir a integração do ensino com a pesquisa.

Foi preciso centralizar a pesquisa nos professores doutores que, por excelência, são os docentes formados para realizar e produzir pesquisa científica competitiva, reforçando os grupos em construção trazendo pesquisadores seniores para liderar alguns grupos e pós-doutores (procurados junto às listas existentes no CNPq e Capes), conforme as necessidades.  Como estratégia de montagem de equipes, foram "garimpadas" lideranças com ampla experiência e histórico de captação nas áreas contempladas, que se somaram aos professores da casa que tinham o perfil necessário e atraídos recém-doutores com bom currículo e afinidade com as linhas estipuladas.

A partir da concepção desse planejamento estratégico, o projeto de pesquisa institucional foi implantado no início de 1997. Os grupos de pesquisa foram constituídos a partir desse planejamento e passaram a ter projetos aprovados por sua qualidade junto à Fapesp e ao CNPq, inclusive participando do Projeto Genoma instituído pela Fapesp.  Em 1999, a UMC já era a segunda instituição privada do estado de São Paulo na captação de recursos para a pesquisa na Fapesp, ficando atrás somente do Instituto Ludwig, coordenador do projeto Genoma.

Apesar de muitas mudanças, ocorridas na universidade a partir de 1999, os grupos já existentes se consolidaram graças a seus próprios méritos científicos e novos grupos surgiram. Essa base de pesquisa assim estabelecida e consolidada acabou gerando programas de pós-graduação stricto sensu, dois de doutorado e dois de mestrados, avaliados com conceito 5 pelos comitês da Capes.

Recentemente, agora no Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia, os autores analisaram alguns indicadores de pesquisa nas instituições de ensino superior brasileiras, públicas e privadas. Para isso, utilizou-se da produção científica para os países ibero-americanos, com base nos dados Thomson Scientific-Institute for Scientific Information (ISI) publicada no site do Universia, dos dados relativos aos recursos concedidos pelo CNPq, do número de cursos de pós-graduação reconhecidos pela Capes e do número de docentes das instituições constante do Censo do Ensino Superior do Inep.

A partir desse estudo, do qual participaram 83 instituições (78 universidades e cinco faculdades) que contabilizaram no mínimo 50 trabalhos científicos nos últimos cinco anos, de 2001 a 2005, disponíveis naquela base de dados, constatou-se que a UMC se destaca entre as universidades brasileiras em todos os indicadores de eficiência relacionados às atividades de pesquisa.

A UMC está entre as cinco instituições de ensino superior com os melhores indicadores: produção científica indexada por doutor em tempo integral (5o lugar), produção científica por curso de pós-graduação stricto sensu (5o lugar). E terceira colocada no cálculo do índice de produtividade (IP) que leva em conta o investimento do CNPq por trabalho publicado, além dos dois indicadores mencionados, a partir da técnica estatística da construção de componentes principais (veja o ranking completo clicando aqui). Todos os dados são relativos ao período de 2001 a 2005.

Resumindo, esse caso de sucesso na implantação da pesquisa como fruto de um planejamento estratégico meticuloso em uma universidade particular sem nenhuma tradição na área demonstra que é possível realizar esse "milagre", desde que a pesquisa seja limitada a alguns grupos com pesquisadores experientes e capazes de gerar parte importante dos recursos necessários à sustentação de suas atividades.

Roberto Leal Lobo e Silva Filho, ex-reitor da USP e ex-reitor da UMC, atual presidente do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação da Ciência e da Tecnologia

Maria Beatriz de Carvalho Melo Lobo, ex-vice-reitora e ex-reitora em exercício da UMC e atual vice-presidente do Instituto Lobo

Oscar Hipólito, ex-diretor do Instituto de Física de São Carlos, USP, e ex-pró-reitor acadêmico da UMC, pesquisador do Instituto Lobo