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Cruzeiro do Sul online

Um alerta para o futuro

Publicado em 16 maio 2010

Por Wilson Marini

Eventos climáticos de efeitos trágicos poderão ocorrer com mais freqüência nos próximos anos e décadas. É o que mostra estudo de pesquisadores brasileiros publicado este mês pela Revista Fapesp, órgão de pesquisa do Estado de São Paulo, destacado em tema de capa sob o título Para evitar novos flagelos. A reportagem, de Dinorah Ereno, revela um quadro de alterações do clima que vai atingir cada vez mais as cidades brasileiras.

Os resultados práticos desse levantamento, chamado Identificação das vulnerabilidades das megacidades brasileiras às mudanças climáticas, serão apresentados ao prefeito da Capital, Gilberto Kassab, apontando as áreas com maior risco de deslizamento de encostas e inundações e uma projeção até o ano de 2030 se nada for feito em relação ao modelo adotado até aqui de crescimento urbano com ocupação desordenada. De acordo com a simulação, a expansão se intensificará em áreas da periferia, provocando o surgimento de novas áreas de risco de inundações e deslizamentos.

Megacidades

O projeto Megacidades, financiado pelo Global Opportunities Fund Climate Change and Energy Programme, do Reino Unido, pela Rede Clima e pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, inclui amplo levantamento de clima, poluição, relevo, hidrografia, uso e ocupação da terra, saúde e outras informações, com cenários futuros para as regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, polos com mais de 10 milhões de habitantes. A experiência poderá ser replicada a outras metrópoles como Belém, Recife, Belo Horizonte e Curitiba, em projeto a ser financiado pelo Ministério do Meio Ambiente no segundo semestre. Semelhante tecnologia, fundamental para o planejamento urbano pelas prefeituras e órgãos públicos, bem que poderia estar disponível também às cidades médias do Interior Paulista, especialmente aquelas com 200 mil habitantes ou mais. Para isso é preciso articulação entre governos e um dos caminhos é a participação efetiva de suas lideranças políticas. Mãos à obra!

No Interior

Esse conjunto de novas informações serve no mínimo de alerta aos prefeitos e lideranças das cidades médias do Estado, especialmente as mais conurbadas e com problemas potenciais para desastres ambientais. A Baixada Santista e a região de Campinas já são oficialmente regiões metropolitanas, o que significa que atingiram um status econômico e populacional em que os problemas locais devem ser pensados pelo bloco de municípios com o governo do Estado e não mais isoladamente. A prevenção ambiental é um bom desafio para fazer funcionar na prática a gestão regional.

Novas regiões

A Secretaria de Planejamento do Estado realiza estudos para a criação das regiões metropolitanas do Vale do Paraíba, com sede em São José dos Campos, e de Sorocaba. Mais um indicativo de que os problemas urbanos estão se avolumando e exigem respostas planejadas globalmente pelo Poder Público.

Prevenção

A Assembléia Legislativa de São Paulo promoveu audiência pública esta semana para discutir o veto dado pelo governador José Serra em 2008 ao projeto de lei que cria o Plano Estadual de Prevenção de Riscos Ambientais. Participaram técnicos e o secretário nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades, Celso Carvalho. As discussões apontaram para a necessidade de uma política de gerenciamento e prevenção de riscos ambientais. A hora é agora.

Atenção integral

O geólogo Eduardo Soares de Macedo, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), trabalha atualmente no mapeamento de favelas na capital paulista. Sobre as mortes provocadas pelas enchentes, ele afirmou no encontro que a única explicação possível para tragédias desse tipo é a falta de prioridade dos governos para a questão no passado. Estamos ainda muito atrasados nesse planejamento, afirma. Segundo ele, a tendência dos órgãos de Defesa Civil para o futuro é utilizar o conceito de atenção integral ao desabrigados, de modo que o Poder Público possa apoiá-los para que consigam restabelecer a sua vida. Não basta dar colchões e cesta básica, afirma.

Fatalidade, não

Outro geólogo, Fernando Nogueira, lembrou que a falta de informação leva a população e até agentes públicos como prefeitos a acreditar que desmoronamentos e enchentes são fatalidades da natureza e por isso, inevitáveis. É necessário estabelecer estratégias de prevenção e prever riscos, avisa.