Notícia

Jornal da Tarde

Um admirável mundo novo começa a ser construído - E com a ajuda do Brasil.

Publicado em 19 dezembro 1999

A ciência brasileira escreve um dos capítulos mais importantes de sua história, diminuindo o fosso que a separa da pesquisa desenvolvida no Hemisfério Norte. Nesse caso, o livro chama-se Genética Molecular, cujas páginas estão sendo escritas em tempo acelerado. Sua leitura trará implicações inimagináveis para a vida, a saúde e a economia dos mortais. Em suas páginas estão o entendimento adequado de vírus, a compreensão de doenças hereditárias, o sonhado controle do câncer, a possibilidade de duplicação de um ser humano, além da produção de antibióticos mais eficientes, entre tantos outros avanços. O Programa Genoma foi iniciado em 1997 pela Fundaço de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), instituição paulista modelo de fomento à investigação científica. Reúne quase 200 pesquisadores, 50 laboratórios de universidades públicas e privadas distribuídos por todo o Estado numa rede virtual, a Rede ONSA (Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis), num compartilhamento de informações inédito em território nacional. A ousadia, coordenada por José António Perez, diretor científico da Fapesp e professor de Física na Universidade de São Paulo, tem como parceiros a Fundação Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), a Copersucar e o Instituto Ludwig para a Pesquisa sobre o Câncer, instituição internacional sediada em Nova York, com filial na capital paulista. "A revolução que estamos promovendo com o Genoma tem impacto similar ao da informática, que é dramático e inimaginável. É o momento de avançarmos no conhecimento e contribuir com a sociedade, remetendo a problemas específicos nossos", diz Perez. Ele explica: "O genoma de um organismo é o conjunto de seus genes. O projeto genoma de um organismo é o esforço concentrado para a determinação de todos os seus genes. Cada gene de um organismo é um pedaço de sua molécula de DNA (ácido desoxirribonucléico), que é responsável por alguma função na célula. Um dos passos mais notáveis da ciência foi a compreensão de que um dos mais profundos segredos da natureza, o código genético dos organismos, a chave da hereditariedade, podia ser entendido de uma maneira simples. Tudo se resume a entender o DNA". Quatro projetos formam o Programa Genoma, que coloca o Brasil no seleto clube mundial da pesquisa científica, como os dois únicos projetos de patógenos vegetais do mundo. O projeto da Xylella fastidiosa, bactéria causadora da "praga do amarelinho", doença que ataca boa parte dos laranjais paulistas, já está em fase final de seqüenciamento e entra agora na parte do Genoma funcional. "Estamos agora na fase mais difícil, de fechar as últimas letras. Para projetar um remédio contra o amarelinho, temos que saber qual é a função das proteínas que a Xylella produz", explica Perez. O projeto teve dotação de US$ 15 milhões. Uma outra bactéria, a Xanthomonas citri, com código genético semelhante ao Xylella e que causa o cancro cítrico no mesmo hospedeiro (a laranja), começou a ser seqüenciada em junho deste ano. "O custo deste projeto será três vezes menor do que o da Xylella, porque a Rede ONSA já está operando. Este projeto terá ainda repercussão em outras culturas, como a do feijão, arroz e maracujá", diz Perez. Ele conta também que o Brasil está construindo uma situação singular no conhecimento genômico de fitopatógenos e alcançando uma posição especial no campo do Genoma de Bactérias. O Genoma Cana, por sua vez, lançado em abril deste ano, com recursos de US$ 8 milhões, tem como meta seqüenciar cerca de 50 mil genes que controlam o crescimento, desenvolvimento, produtividade e o teor do açúcar - com impacto não apenas na pesquisa da cana, mas também nos estudos de genéticas de plantas. "O desafio do próximo século para a humanidade é a ampliação da produção de alimentos e fibras de forma amigável com o meio ambiente", afirma o físico. Mas os olhos estão voltados especialmente para o Genoma Humano do Câncer. Aqui, o diferencial de outros projetos desenvolvidos no mundo é o do seqüenciamento de genes humanos com expressão mais nítida em tumores de alta incidência no País, como os da cabeça e pescoço, gástrico e de colo de útero. Dos US$ 10 milhões atacados, metade é de responsabilidade da Fapesp e outros 50% do Instituto Ludwig. "Além de ter enorme importância do ponto de vista científico e de saúde pública nacional, pode representar a melhor porta de entrada do Brasil para uma efetiva participação no Projeto Genoma Humano", diz Perez. Em entrevista ao JT, ele conta como surgiu e formou o Programa Genoma, explica a criação da Rede ONSA e as possibilidades de diálogo entre os quatro projetos. Como pode ser descrita a origem da motivação para a implantação do Programa Genoma? A história desse Programa começou em maio de 1997, como um projeto. Um grupo de pesquisadores propôs uma resposta a uma pergunta que vinha sendo feita: o que pode ser realizado para que obtenhamos um salto na taxa de crescimento de competência na área de genética molecular? Nosso distanciamento dos países desenvolvidos vinha aumentando. Essa é uma área muito importante, porque é estratégica para se fazer biotecnologia e todas suas vertentes. Hoje, não se faz biotecnologia moderna em agricultura, pecuária, meio ambiente e saúde pública sem um controle de genética molecular. A resposta brilhante foi a de que um Programa Genoma poderia servir muito bem a essa finalidade, porque estaria atingindo um objetivo científico de maior relevância e, ao mesmo tempo, treinando muita gente. A arquitetura do Programa Genoma era, então, a sua própria justificativa: atingir objetivos científicos, formar recursos humanos e, o que é mais bonito nessa área, conseguir trabalhar com problemas que respondem a especificidades geoeconômicas localmente motivadas. A idéia nasceu, portanto, como um projeto - o de trabalhar com um organismo que fosse grande o suficiente, tivesse interesse local, mas não fosse grande demais. Que fosse comensurável com nossa competência e com nossa realidade daquele momento. Por isso, escolhemos primeiro a Xylella fastidiosa e, para decifrar seu código genético, formamos uma rede de laboratórios. A escolha foi muito boa, porque ela é responsável por uma praga na agricultura. Mas a motivação inicial foi mesmo a de gerar competência. A escolha da Xylella foi sugestão do Fundecitrus, que se interessou muito pelo projeto. Como funciona essa rede e por que o nome ONSA? A rede é uma estrutura adequada para esse fim? Nos Estados Unidos, a rede chama-se TIGR, sem o e, mas tendo um tigre como símbolo. Optamos pela sigla ONSA - que, aliás, carrega um bem-humorado simbolismo, e a onça é um animal brasileiro - como uma escolha diferente. Optamos por um instituto virtual com vantagens múltiplas: não houve nenhum investimento na construção de prédios ou na criação de uma estrutura administrativa. Todo o programa é gerenciado e executado via Internet e, também, acompanhado internacionalmente por um comitê. O Programa Genoma é especialmente propício ao decifra-mento do código genético, que é como decifrar um texto escrito com quatro letras alfabéticas - A, T, G e C. É como decifrar um texto enorme, com cada um dos laboratórios da rede recebendo um pedaço dele, e desconhecendo qual é a sua página. Essa informação é decifrada - é o que se chama de seqüenciamento - e transmitida via Internet para um laboratório central de bioinformática, que foi criado na Unicamp. É impressionante a quantidade de informações gerada diariamente nesses laboratórios: é da ordem de 20 mil vezes mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Bach. Uma outra analogia para esse processo é o da construção de uma estrada, onde cada um deve dar seu pedaço. O Programa só termina quando todos levantarem seus pedaços. A bioinformática grudará esses pedaços. Mas a Fapesp sempre teve em conta o alcance dessa iniciativa? Quando começamos, a nossa meta era a de gerar competência. Mas o projeto inicial adquiriu uma dinâmica própria, abrindo novos horizontes e novas implicações. Tudo, aliás, foi uma caixa de surpresas. Não sabíamos quantos laboratórios iriam aderir ao projeto inicial. É um projeto ousado porque tem um rígido cronograma de trabalho. Cada grupo participante tinha que produzir uma certa informação com certa qualidade e num certo intervalo de tempo. Isso não é muito comum em projetos de pesquisa. Os tempos não são tão cronometrados. Sabíamos que a iniciativa era ousada - a única fora do Hemisfério Norte - e de grande qualidade, mas não sabíamos que estávamos abrindo uma página na ciência. Depois do Genoma Xylella, como ocorreram os desdobramentos para os estudos dos genomas do câncer, da cana-de-açúcar e da Xanthomonas? Como foram articulados e como eles se relacionam? Tínhamos um cronograma da Xylella bastante apertado, que era de terminar em maio de 2000. Mas, quando começamos, verificamos que estávamos andando muito depressa. Depois, recebemos uma proposta da Copersucar para que fizéssemos o Genoma da Cana-de-Açúcar, que é muito maior que o Genoma Humano. Oferecemos como contraproposta estudar apenas alguns de seus genes. A cana é um organismo complexo. Mas a idéia, que é muito bonita e está sendo usada nos países desenvolvidos, é o de estudar apenas os genes expressos das plantas. Essa idéia apareceu antes de começarmos o seqüenciamento. Fomos aos EUA e vimos que o National Science estava financiando o genoma das principais plantas americanas, como o milho, a soja, o sorgo e o algodão. Com a cana, temos a oportunidade de trabalhar com uma planta intrinsecamente nossa. Portanto, enquanto pensávamos o Genoma Cana, iniciávamos o Genoma Xylella. Em agosto de 1998, percebemos que a idéia funcionava com rapidez e que a Rede ONSA era eficiente. Nesse momento, surgiu uma outra idéia: a de fazer o Genoma Humano expresso em tumores de cânceres. O Instituto Ludwig, com quem fizemos parceria, ficou entusiasmado com a performance da Rede ONSA e decidiu investir US$ 5 milhões no Genoma Câncer. Este projeto vai obter informações para o entendimento dos tipos de genes importantes nos processo de carcinogênese. Isto vai permitir propor previsões de diagnósticos precoces e de terapias. A prevenção, detecção, prognósticos e tratamento dependem cada vez mais do domínio das técnicas moleculares. Ao estudarmos esses genes nos tumores, estamos também entendendo os genes normais e dando uma contribuição ao Genoma Humano. Na parceria com o Instituto Ludwig, surgiu também o compartilhamento de uma combinação que é o método Orestes. O Genoma Xanthomonas, por sua vez, completa-se com o da Xylella, porque são duas bactérias relevantes para a agricultura brasileira, que infectam o mesmo hospedeiro. Em 2000, eles já começam a se dialogar. Entendido o código da Xylella, poderemos ter em breve um mecanismo eficiente para o combate da 'praga do amarelinho'? Nós queremos saber agora por que a Xylella se torna patogênica, por que ela faz mal para a planta e por que ela produz uma doença. O esquema é entender a patogenidade a partir de seu genoma. Mas agora é a fase mais complicada: não é possível calcular quando daremos resposta ao problema do "amarelinho". Esperava-se chegar tão rapidamente a esse estágio? As novas máquinas de seqüenciamento também contribuíram para esse tempo recorde? O que no começo parecia um desafio se transformou depois numa grande vantagem competitiva. Não podíamos imaginar os efeitos do trabalho cooperativo: pesquisadores de diversas instituições, compartilhando dificuldades e sucessos que decorrem da capacidade dos grupos, trabalharem de forma sinergética. A visibilidade do Programa é o outro sucesso. Todo o interesse manifestado não tem precedentes na ciência brasileira, porque a ciência precisa dialogar com a sociedade. Informação científica é instrumento de cidadania. Nessa área, as implicações passam desde um simples exame de sangue, à empregabilidade e ao seguro-saúde de um indivíduo. Outro dado importante foi a descoberta das máquinas de seqüenciamento, que permitem seqüenciar grande quantidade de informações. Porque o grande impacto não se dá só com grandes idéias. Se uma grande idéia não for seguida na parte de instrumentação, não se consegue avançar cientificamente. Qual sua opinião sobre elementos geneticamente modificados? Temos que avançar e dominar esse conhecimento, com o qual devemos nos relacionar. É claro que devemos dominar as circunstâncias: o que queremos ou não queremos. Não conseguiremos fazer biotecnologia em qualquer área- agricultura, veterinária e meio ambiente -sem conhecer, que é a principal implicação do programa Genoma. O século 20 foi da Física. O que se anuncia será da Biologia, ironicamente depois da Biologia ter sido sua vassala durante séculos. Qual sua opinião sobre essa transformação? A Física tem algo que eu chamo de arrogância epistemológica, porque ela não estabelece limites para o entendimento da natureza. O que estamos vendo é uma aproximação com a Biologia do ponto de vista da linguagem quando se fala em genética molecular: todo o código genético tem uma grande molécula, e ao estudarmos moléculas nos colocamos no capítulo da Física. A Biologia também começa a se aproximar da Física -não só no entendimento do comportamento das moléculas, mas também na própria abordagem de como processar um grande número de informações. Isso, os físicos já vêm fazendo na Cosmologia, na Física de Partículas Elementares e na Meteorologia. Diariamente, em meus cursos, digo que os físicos devem saber mais sobre Biologia. O físico deve também abrir os livros de Biologia, não só porque é bonito, inteligível, mas também por abrir espaço profissional com as novas abordagens em genética molecular. O que é a Fapesp? A Fapesp é um instituição criada em 1962, que recebe meio por cento da receita tributária do Estado de São Paulo para pesquisas. Sempre cumpriu sua missão com eficiência, gerando uma tal credibilidade que, em 1989, passou a receber 1% da receita tributária. A lei determina que a Fapesp não gaste mais do que 5% de seu orçamento em despesas administrativas. Ela só gasta 2%. Mas, mais do que isso, a Fapesp tem um patrimônio rentável que investe exclusivamente na pesquisa científica. Os custos Fapesp (folha salarial e infra-estrutura) são inteiramente cobertos por seu patrimônio. É uma instituição singular com uma situação privilegiada no Estado. Marcos Bragato, especial para o JT