Notícia

Gazeta do Povo online

UH, resgate da memória

Publicado em 30 outubro 2008

Por Francisco Camargo

Para o pessoal da velha guarda, para a turma que acabou de chegar, está chegando ou pretende correr o risco: que tal uma visita ao arquivo de fotos inéditas do jornal Última Hora? Informa a Agência Fapesp que o Arquivo Público do Estado de São Paulo recuperou 4 mil fotografias da velha UH. Um acervo valioso, também, para pesquisadores e interessados na história do país nos meados do século 20. São imagens que não foram publicadas no jornal. A Última Hora (era assim chamada, “a” Última Hora, tanto pelos leitores como pelo próprio Samuel Wainer e seus jornalistas) circulou de 1951 a 1971. Revolucionou a imprensa, tanto estética como tematicamente e, acrescento, também profissionalmente (estou me referindo à relação empresa–jornalistas, gráficos, setor comercial, administrativo, etc.) O reportariado era escolhido a dedo. Recebia muito acima dos demais profissionais da praça. Lembra o “Cidadão Kane”, de Orson Welles, ao montar a sua redação, não é? Mas, voltando à notícia da Fapesp (sempre ela!), o Arquivo Público já havia digitalizado todos os exemplares do jornal sob sua guarda, disponíveis para o público no site http://www.amigosdoarquivo. com.br/uhdigital.

Para quem está chegando agora à conversa: uma das características que marcaram a Última Hora foi o uso de fotografias e ilustrações em quase todas as páginas. Ao todo, cerca de 400 fotografias eram tiradas diariamente para cada edição. As fotos não utilizadas eram recolhidas ao arquivo. Ellen Arevaldo, diretora do Núcleo de Arquivos Iconográficos do Arquivo do Estado, conta que a organização do material começou em 2006. Estará disponível em 2009.

Autobiografia

Para a coluna não ficar apenas na transcrição da notícia, Natureza Morta e Beronha foram pautados para catar mais coisas no livro Minha Razão de Viver – Memórias de um Repórter, autobiografia de Wainer, já com conteúdo integral, que saiu 25 anos depois da primeira edição. Foi uma condição imposta por Samuel, segurar parte da versão original até que morresse, o que veio a ocorrer em 1980. A obra traz em detalhes os meandros do poder, de Getúlio Vargas e o Estado Novo até o golpe de 1964. Na segunda tiragem, com organização e edição de textos de Augusto Nunes (editora Planeta), são tornados públicos o que Samuel chamava de “campos minados”, que só deveriam ser “inteiramente escancarados” depois de sua partida. Samuel morreu aos 68 anos.

Para se ter uma idéia do peso da UH, no início dos anos 60 o jornal circulava no Rio, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Niterói, Belo Horizonte e Recife.

Quando da morte de Getúlio (24 de agosto de 1954), a UH, sempre fiel ao doutor Gegê, vendeu quase 800 mil exemplares – o jornal passou 20 horas rodando edições sucessivas.

Na véspera do suicídio, a manchete foi: “Só morto sairei do Catete”. Na edição seguinte, o jornal manteve a manchete, acrescida, apenas, de uma linha no alto da página: “Ele cumpriu a promessa”.

Foi mais um toque de gênio do gênio.