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Jornal Primeira Página

UFSCar desenvolve substância que subistitui quimioterapia

Publicado em 02 junho 2020

Por Da redação

A maioria dos pacientes sofre com as reações adversas dos tratamentos quimioterápicos, como enjoos, dores nas articulações, retenção de líquido, fraqueza e alteração no sono, para combater a disseminação do câncer, e recentemente, porém, surgiu mais uma possibilidade de contornar esses incômodos.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sintetizaram em laboratório uma substância que se mostrou eficaz para matar células cancerosas sem comprometer as saudáveis: o tungstato de prata, a bala de prata.

Testes em laboratório

O tungstato de prata, composto formado pelos elementos tungstênio e a prata, passou a ser objeto de estudo na UFSCar em 2012. O foco, na época, era a utilização do composto no desenvolvimento de novas tecnologias voltadas à produção de energia e ao tratamento de resíduos orgânicos encontrados na água, como hormônios e medicamentos.

Com o tempo, foram descobertos os efeitos bactericidas e fungicidas do material. Para testar a possível capacidade de a substância agir contra células cancerosas, as propriedades do tungstato de prata foram modificadas por meio da irradiação de elétrons e de pulsos de luz ultrarrápidos, via laser, como explica Elson Longo, professor do Departamento de Química e diretor do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais da UFSCar.

Os procedimentos aumentaram a atividade bactericida do composto em 32 vezes e deram origem a nanopartículas de prata. Uma vez em contato com células tumorais e saudáveis de bexiga de camundongos, as nanopartículas de prata destruíram as primeiras, enquanto as demais permaneceram inalteradas.

E é essa capacidade de atuar somente sobre as células doentes que acentua a possibilidade de um tratamento livre de reações indesejadas. “Os efeitos colaterais estão ligados à não seletividade do quimioterápico para as células tumorais, o que faz as sadias também serem afetadas. A altíssima seletividade das nanopartículas de prata para as células cancerosas é um indício de que esses efeitos podem ser minimizados”, detalha Longo.

As experiências foram realizadas in vitro, e o câncer de bexiga tornou-se objeto de estudo por não existirem muitas pesquisas sobre esse carcinoma, de acordo com Marcelo Assis. Há chances de o composto atuar sobre outros tumores. “É preciso verificar a viabilidade ou não da substância como agente antitumoral para outros tipos de câncer. Já há tungstato de prata sendo irradiado por elétrons e laser para que sejam feitos novos ensaios em outras células”, adianta.

Publicada em 2019, na revista Scientific Reports, jornal online publicado pelo mesmo grupo editorial da revista científica Nature, a pesquisa, realizada em conjunto com a Universidade Técnica de Liberec (República Tcheca) e a Universidade Jaime I (Espanha), contou com o incentivo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Ainda este ano, os pesquisadores pretendem testar os efeitos da substância em camundongos vivos, ainda com o foco no câncer de bexiga. Mas, para definir como isso será feito, eles aguardam o parecer da comissão de ética da UFSCar. Embora admita que é cedo para considerar a aplicação em humanos, Juan Andres, professor e pesquisador da Universidade Jaime I, está esperançoso. “Essa é uma técnica inovadora, altamente seletiva. Estamos na fase inicial, mas os resultados são promissores”, garante.