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UFMG terá centro para epilepsia

Publicado em 14 dezembro 2010

Por Rosildo Mendes

Doença crônica e degenerativa que atinge pelo menos 50 milhões de pessoas em todo o mundo, sobretudo em países em desenvolvimento, a epilepsia manifesta-se de diversas formas, podendo mostrar, inclusive, resistência a todos os tipos de medicamentos disponíveis. Em janeiro, os trabalhos voltados à doença ganharão novo impulso. A UFMG passará a contar com o suporte do espaço especializado em epilepsia refratária, que é resistente à medicação, para ajudar nas pesquisas: o Centro de Excelência em Imagem Molecular.

Em fase de instalação, em área de 320 metros quadrados, no campus Saúde da UFMG, o centro vai abrigar modelo de ponta de Tomógrafo por Emissão de Pósitrons (PET) e outro sistema de PET para pesquisas pré-clínicas com pequenos animais, localizado no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), no campus Pampulha. O núcleo também contará com radiofarmácia e softwares para aplicações neuropsiquiátricas, oncológicas e cardiológicas. De acordo com o professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Marco Aurélio Romano Silva, o equipamento gera imagens de alta resolução para estudos de mecanismos moleculares em tecidos. Importado, ele custou cerca de R$ 5 milhões. Uma de suas vantagens é agregar às imagens diversos dados funcionais como metabolismo e medidas de fluxo sanguíneo.

Inicialmente, garante o professor, o tomógrafo será usado em investigações científicas sobre epilepsia; câncer de tireoide, pulmão e fígado; doenças renais em crianças e neurodegenerativas, como Alzheimer, e psiquiátricas - esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão. Todas são foco de rede de pesquisadores reunidos no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Medicina Molecular.

A proposta de criação do Instituto foi aprovada em 2008, com aporte de R$ 7,2 milhões do Ministério de Ciência e Tecnologia, CNPq e Fapemig. A quase a totalidade do recurso destinou-se à aquisição do PET. Junto ao estudo na UFMG, há outras três pesquisas sobre a doença desenvolvidas em parceria com pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Campinas (Unicamp) e São João del-Rei (UFSJ). Marco Aurélio divide a coordenação do projeto com o professor Edson Amaro Jr., da USP. A previsão é que a pesquisa se estenda por cinco anos, ao custo de R$ 250 mil para a UFMG/Fapemig e R$ 460 mil para a USP/Fapesp.

Segundo Romano, alguns pacientes apresentam quadro persistente de convulsões, sendo esse o maior fator de risco de morte. Para ele, apesar do progresso registrado no tratamento da epilepsia comum, a refratária permanece uma incógnita. A versão refratária da epilepsia é aquela em que o paciente não responde aos medicamentos usados no tratamento, os anticonvulsivantes, e a explicação pode estar em causas ambientais, bioquímicas, imunológicas e genéticas. Do total de portadores da doença, em todo o mundo, cerca de 30 milhões são refratários.

De acordo o professor, novos modelos e abordagens inovadoras no diagnóstico e tratamento são necessários. Ele registra que há teorias que associam a desordem às inflamações na região temporal mesial, a partir da infiltração de células imunológicas no tecido cerebral, ou a alteração de determinados tipos de neurotransmissores e mesmo à características genéticas. Por isso, nas pesquisas, os estudiosos tentarão identificar essas questões a partir de neuroimagens, métodos genômicos e de biologia celular, para saber se há alterações estruturais e funcionais nas células daquela região do cérebro.

A epilepsia de lobo temporal (ELT), segundo Romano, apresenta alto índice de refratariedade medicamentosa e, para esses indivíduos, a cirurgia pode ser uma alternativa que oferece chances de 70% a 90% de controle das crises. O trabalho prevê análise de tecidos do hipocampo extraídos de 120 pacientes epiléticos resistentes a tratamento. As imagens serão analisadas e, se houver necessidade, as cirurgias serão feitas pelo Hospital das Clínicas da USP e Santa Casa de Belo Horizonte.

Segundo a pós-doutorando em medicina molecular pela UFMG Daniela Valadão Freitas Rosa, da equipe de pesquisadores, o diagnóstico da doença é realizado pelo médico neurologista por meio de histórico médico completo, coletada com o paciente e pessoas que tenham observado as crises convulsivas. Além disso, podem ser necessários exames complementares, como eletroencefalograma (EEG) e neuroimagem - tomografia ou ressonância magnética de crânio. O EEG é exame essencial, apesar de não ser imprescindível, pois o diagnóstico é clínico.

Ela a firma que a crise convulsiva é descarga elétrica cerebral desorganizada que se propaga para todas as regiões do cérebro, levando a alteração da atividade cerebral. Pode se manifestar como alteração comportamental, na qual o indivíduo pode falar coisas sem sentido, por movimentos estereotipados de um membro, ou episódios nos quais o paciente parece ficar "fora do ar" ( olhar parado, fixo, e sem contato com o ambiente).

Em muitas pessoas, alerta Daniela, as crises convulsivas podem ser desencadeadas por estímulo visual, auditivo ou algum tipo específico de imagem. Nas crianças, podem surgir na vigência de febre alta, esta de evolução benigna, muitas vezes não necessitando de tratamento. Segundo ela, nem toda crise convulsiva é caracterizada como epilepsia. Isso ocorre quando o indivíduo tenha apresentado, no mínimo, duas ou mais convulsões no período de 12 meses, sem febre, ingestão de álcool, intoxicação por drogas ou abstinência durante as crises.