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TV Cultura sob pressão

Publicado em 17 março 2009

Secretário do governo Serra prega implosão do sistema de gestão da emissora e critica aparente desprezo pela audiência

 

Secretário de Relações Institucionais do governador José Serra e presidente do PSDB paulistano, o advogado José Henrique Reis Lobo, 65, sacudiu o conselho curador da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura. 

Em carta enviada aos conselheiros (são 47), Lobo questionou a falta de preocupação com a baixa audiência da emissora e defendeu a implosão do próprio conselho, além da "profissionalização" da diretoria executiva, presidida por Paulo Markun.  A Cultura tem média atual de só 1,4 ponto no Ibope da Grande SP, equivalente a 80 mil domicílios sintonizados na emissora por minuto. 

As críticas de Lobo foram o principal assunto da reunião mensal do conselho, ontem. 

Lobo diz à Folha que está provocando o "imobilismo" da TV Cultura por conta própria, mas sua atuação é avaliada por alguns como um balão de ensaio do governo para tentar implantar mudanças na TV.

Serra tem o desejo de reformar o conselho curador, mas nunca manifestou preocupação com a audiência.  Se mudar o sistema de gestão, não será sua primeira interferência.  No final de 2008, o governo do Estado, que banca 42% dos R$ 194,7 milhões do orçamento da Cultura, impôs um contrato de gestão em que a fundação terá de cumprir metas, como a redução de publicidade. 

Lobo diz que o contrato de gestão deveria ter incluído também metas de audiência, o que não ocorreu.  Ele considera um absurdo uma emissora que consome quase R$ 200 milhões por ano registrar pouco mais de um ponto no Ibope. 

Diz que é preciso "traduzir" esse dinheiro em audiência, para "justificar o investimento feito com recurso público".  Os programas, defende, têm de ter uma relação custo-benefício.  "Não é porque se trata de uma emissora pública que não se deve se preocupar com isso." 

Mas, segundo ele, dar audiência na Cultura é algo que "envergonha": "Falar em audiência na TV Cultura parece uma preocupação plebeia, o que é um engano.  É perfeitamente compatível ter programa de qualidade que ao mesmo tempo tenha quem assista".

Na reunião de ontem, João Sayad, também secretário de Serra (Cultura), se opôs a Lobo: "A TV Cultura é um instrumento de política cultural, que tem muitas preocupações, e a menor delas é a audiência".

Elitismo

As principais funções do conselho curador são fiscalizar a aplicação dos recursos e as ações da diretoria executiva, além de eleger o presidente da emissora a cada três anos e zelar pela autonomia.  O órgão é composto por reitores de universidades, secretários do Estado e do município, empresários, políticos, acadêmicos e artistas.  Para Lobo, é tudo "gente muito séria e competente", mas que não entende nada de TV. Ele mesmo se sente incompetente para analisar programas e prega conselhos menores, compostos por especialistas. 

Lobo critica Markun por tirar e colocar programas do ar "sem base técnica, profissional, científica", o que "reforça a impressão de que a TV foi transformada em laboratório". 

Para o secretário (que diz só assistir ao programa "Café Filosófico"), é um equívoco a ênfase que a direção tem dado às "novas mídias", com a transmissão do "Roda Viva" antes na internet e só depois na TV.

Leia carta de secretário a conselheiros da Fundação Padre Anchieta:

 

da Folha Online

Carta enviada por José Henrique Reis Lobo, secretário de Assuntos Institucionais do Estado de São Paulo, aos conselheiros da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura:

"Prezado Conselheiro

Na reunião de 2ª.  Feira p.p. levantou-se a questão dos índices de audiência dos programas da TV Cultura, sabidamente insignificantes, bem como a necessidade de se tomarem providências no sentido de que eles possam ser revertidos o mais rapidamente possível, inclusive para justificar o volume de investimentos que se fazem, a maior parte com recursos públicos, na Fundação Padre Anchieta.

Essa preocupação pode ter parecido irrelevante demais para um Conselho de notáveis, integrado por intelectuais, acadêmicos, poetas, literatos, homens e mulheres de finanças, artistas, empresários, políticos, diplomatas, todos da mais alta respeitabilidade e que a transferem, como atributo, à própria instituição.

No entanto, não é mais possível passar ao largo desse problema, como se a audiência próxima do zero fosse apenas um detalhe sem nenhuma importância, indigna de ser considerada por uma emissora com finalidade educativa.

Como sustentei na referida reunião, constrange-me, como Conselheiro, recomendar que determinado programa continue no ar ou dele deva ser retirado, porque, ainda que possa ter sobre ele determinada opinião, não me parece que esse deva ser o critério para se decidir a respeito, atribuição que, a meu ver, deve caber a profissionais que levem em conta o público que se quer atingir, A AUDIÊNCIA A SER ALCANÇADA e a linguagem mais adequada para a consecução do objetivo colimado.

Poder-se-á alegar que os estatutos da Fundação dão aos Conselheiros essa competência, o que a legitima do ponto de vista regimental, mas não a torna menos questionável, a meu ver, do ponto de vista da eficiência da programação.

Bem por isso, fizemos alusão à conveniência da revisão dos estatutos e à necessidade de uma ampla reforma conceitual e estrutural para nos adequarmos à realidade de uma emissora de televisão, que só se justifica se houver quem a assista, porque não há nada de maior "non sense" do que falar para um auditório vazio, fazer teatro para ninguém ver, realizar debates para nenhuma plateia ou editar jornal para um público que não existe.

O conselheiro Roberto Mendonça, que, como outros, entendeu bem a nossa preocupação e com ela se mostrou solidário, está sugerindo que seja fornecido ao Conselho, para conhecimento, o custo de cada programa da televisão e os índices de audiência que eles tem obtido, segundo institutos confiáveis de pesquisa.

Acho que a informação é importante, porque só assim poderemos entender, como pretende o Conselheiro Rubens Barbosa, qual é a relação que existe entre o custo e o benefício da televisão e das rádios mantidas pela Fundação Padre Anchieta.

Se os prezados Conselheiros me permitem, entendo que a reflexão e os debates sobre esses assuntos não podem mais ser retardados e proponho que eles passem a ser a grande prioridade do Conselho e da Diretoria dessa instituição.

Essa será, a meu ver, a grande contribuição que estaremos dando para o seu fortalecimento.

Atenciosamente,

José Henrique Reis Lobo, 17 de fevereiro de 2009

Quem são os conselheiros da Fundação Padre Anchieta

Alexandre Schneider (secretário municipal Educação)

Arthur Fonseca Filho (presidente do Conselho Estadual de Educação)

Augusto Luiz Rodrigues

Belisário dos Santos Júnior

Carlos Augusto Calil (secretário municipal de Cultura)

Célia Leão (presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de SP)

Celso Lafer (presidente da Fapesp)

Dirceu de Mello (reitor da PUC-SP)

Emanoel Araújo

Esther Hamburger

Eugênio Bucci

Fabio Magalhães

Gabriel Jorge Ferreira

Gustavo Ioschpe

Herman Jacobus Cornelis Voorwald (reitor da Unesp)

Hermes Ferreira Figueiredo (presidente da Associação do Ensino Superior)

Jacques Marcovitch

João Sayad (secretário de Estado da Cultura)

Jorge da Cunha Lima (presidente do conselho curador da Fundação Padre Anchieta)

José Henrique Reis Lobo

José Maria Pereira Lopes

José Roberto Marcellino dos Santos

José Tadeu Jorge (reitor da Unicamp)

Levi Bucalém Ferrari (presidente da União Brasileira dos Escritores)

Linamaria Rizzo Battistella

Luiz Fernando Furquim

Luiz Gonzaga Beluzzo

Lygia Fagundes Telles

Manassés Claudino Fontele (reitor da Universidade Mackenzie)

Marco Antonio Raupp (presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência)

Marcos Ribeiro Mendonça

Maria Helena Guimarães de Castro (secretária de Estado da Educação)

Mario Ernesto Humberg

Matinas Suzuki

Mauro Ricardo Machado Costa (secretário de Estado dos Negócios da Fazenda)

Millú Villela

Moacyr Expedito Marret Vaz Guimarães

Modesto Souza Barros Carvalhosa

Paulo Roberto Mendonça

Renata Lemos Petta (presidente da União Brasileira dos Estudantes)

Roberto Mendonça (coordenador-geral do Pensamento Nacional das Bases Empresariais)

Roberto Teixeira da Costa

Rubens Barbosa

Sérgio Silva de Freitas

Simão Pedro Chiovetti (presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Estado de SP)

Suely Vilela (reitora da USP)