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Pequenas Empresas & Grandes Negócios

Tudo pela saúde

Publicado em 01 dezembro 2017

Por Paula Pacheco

Os investimentos públicos em ciência e tecnologia caíram 50% entre 2014 e 2016. Mas o cenário pouco animador não impediu o surgimento de startups inovadoras, dispostas a criar soluções úteis para a sociedade. É o caso da Tismoo, que atua na área de biotecnologia. Fundada em abril de 2016 em São Paulo, a startup é pioneira mundial no segmento de análises genéticas ligadas ao autismo. A iniciativa de criar a empresa partiu de Marco Antonio Innocenti, 50 anos. Durante seis anos, ele havia percorrido hospitais em busca de um diagnóstico para a filha, que sofria de uma síndrome neurológica rara. Para ajudar outros pais na mesma situação, decidiu fundar a Tismoo ao lado de sete sócios. O investimento inicial foi de R$ 3 milhões - R$ 1 milhão em dinheiro e R$ 2 milhões em aportes de patentes dos cientistas que fazem parte da sociedade. "A pesquisa científica demanda investimentos elevados e de longo prazo. Podem-se passar anos pesquisando sem chegar a um resultado satisfatório", diz Gian Franco Rocchiccioli, um dos cofundadores da empresa, ao lado de Innocenti.

A startup atua em duas frentes. A principal é a que oferece testes baseados em sequenciamentos genéticos para ajudar no diagnóstico de transtornos relacionados ao autismo. Cada teste custa R$ 4.157. Os sócios também realizam pesquisas genéticas para recriar em laboratório as etapas do desenvolvimento neural. O objetivo é investigar como as mutações de determinadas células levam a um quadro clínico específico e buscar alternativas para reverter o processo. Para financiar os estudos, os sócios estão em busca de aportes: o objetivo é conseguir R$ 8 milhões até o início de 2018. "Já fomos procurados por alguns fundos", diz Rocchiccioli. No primeiro ano de operação, a Tismoo faturou R$ 1,2 milhão.

MAIS PESQUISADORES, MENOS DINHEIRO

Falta de verba dificulta a produção científica

O número de pesquisadores em atuação no Brasil cresceu 11% entre 2014 e 2016, de acordo com o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Mas esse aumento não encontrou respaldo no governo: no mesmo período, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações foi de R$ 8,94 bilhões para R$ 4,59 bilhões. Além do gargalo na produção científica, a falta de recursos pode dificultar a formação de profissionais que queiram criar suas próprias biotechs. "As pesquisas feitas nas universidades formam os empreeendedores que irão investir em startups inovadoras. Ou seja, não investir na universidade é matar a galinha dos ovos de ouro", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp. Para quem está disposto a empreender com biotecnologia, a boa notícia é que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) anunciou, no mês de novembro, a criação do Fundo de Coinvestimento Anjo. O objetivo é apoiar startups inovadoras em áreas como agronegócio, cidades inteligentes, economia criativa, nanotecnologia e biotecnologia. O fundo atuará em conjunto com investidores-anjo e aceleradoras.

LABORATÓRIO HI-TECH

Diagnósticos precisos, medicamentos que evitam a metástase, testes genéticos que determinam a predisposição do paciente para determinada doença: conheça as inovações propostas por essas biotechs do interior de São Paulo

GENOTYPING

A especialidade da Genotyping, fundada no final de 2008 pela pesquisadora Débora Colombi, 47 anos, são os testes genéticos que medem a predisposição para vários tipos de câncer. "Alguns desses testes são cobertos pelos planos de saúde, o que garante uma boa demanda vinda de laboratórios", afirma Débora. Outro foco de atuação são os testes de metagenoma, capazes de identificar todos os tipos de bactéria em uma amostra. Entre os clientes, estão empresas de beleza que querem medir a eficiência de desodorantes. A startup, que foi incubada na Prospecta, de Botucatu (SP), conseguiu um aporte de R$ 4 milhões do Fundo de Inovação Paulista. Em 2017, a Genotyping deve fechar com um faturamento de R$ 3,5 milhões.

ONKOS

Um dos exames diagnósticos desenvolvidos pela Onkos, com lançamento previsto para fevereiro de 2018, deverá ser capaz de identificar com uma precisão de quase 100% se as células retiradas de nódulos da tireoide são benignas ou malignas. Segundo Marcos Santos, 33 anos, fundador da startup de Ribeirão Preto (SP), o teste pode reduzir em cerca de 70% as cirurgias de retirada da tireoide. "Com um diagnóstico mais assertivo, é possível diminuir as despesas de cobertura por parte dos planos de saúde e do SUS", afirma. O serviço poderá ser contratado diretamente pelo paciente ou por laboratórios e hospitais. A previsão é chegar a 500 testes realizados em um ano até fevereiro de 2019. A startup, que negocia aportes com investidores, não revela faturamento.

VERITAS

Desde 2009, Sandra Faça, 42 anos, estuda novas maneiras de tratar o câncer de mama. O objetivo da startup de Ribeirão Preto é produzir um anticorpo capaz de inibir uma proteína-alvo envolvida na metástase, evitando a migração celular para outras partes do corpo. Nos estudos realizados em camundongos, o anticorpo se mostrou eficiente. "O ativo também potencializa a ação da droga que já é utilizada atualmente no tratamento de pacientes", afirma Sandra. A patente foi depositada nos Estados Unidos. A próxima etapa são os testes clínicos, que podem durar até cinco anos. Enquanto procura apoio de um laboratório para os testes, toca o projeto com bolsas recebidas da Fapesp e do CNPq.