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Tudo para todos

Publicado em 01 agosto 2007

Ministro da Agricultura até o ano passado, Roberto Rodrigues torna-se um entusiasta quase incorrigível quando alguém pergunta sobre as potencialidades do álcool. O Brasil tem terras suficientes para ser grande fornecedor mundial do combustível exportador de tecnologias envolvidas, garante o agora presidente do Conselho Superior do Agronegócios da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e co-presidente da Comissão Interamericana de Etanol.

Paulista de Cordeirópolis formado engenheiro agrônomo pela ESALQ USP com aperfeiçoamento em administração rural, Rodrigues defende o combustível com unhas e dentes. Diz, por exemplo: "O álcool é muito mais conhecido, tem pouca variabilidade, enquanto biodiesel vem de diferentes culturas, com características químicas diversas". 

Ao mesmo tempo ataca quem diz que a cultura de cana-de-açúcar roubará terras hoje dedicadas à produção de alimentos — "Isso é cretino" — e garante que o Brasil pode vender tecnologia, motores e até usinas.

O crescimento do agrobusiness e o atual preço de algumas commodities agrícolas são vistos por Rodrigues com cautela, embora considere que o quadro geral não mude em mais um ou até dois anos.

De qualquer forma alerta que o setor tem que ser avaliado sempre pelo prisma de alguns anos e não pelode alguns meses. E aí, considerando que os preços médios hoje estão um pouco acima da média, diz que a tendência é de queda no médio prazo.

S Stéfani — O crescimento do agrobusiness é consistente?

Roberto Rodrigues — É preciso olhar uma estrada mais longa, um prazo de dez anos. O Brasil viveu, quando eu era ministro da Agricultura, por exemplo, a maior crise agrícola dos últimos quarenta anos. Aconteceu de tudo. N inca houve tragédia tão grande, com seca no Sul, aftosa, geada, aumentos nos insumos, quebra na safra etc. Então, para ter um bom retrato, a tendência dos preços das commodities agrícolas, é preciso olhar no mínimo dez anos. Isso serve para todos os preços agrícolas. Os Estados Unidos estão produzindo este ano 15% mais milho do que no ano passado, quando utilizaram 23% da produção para produção do etanol. Ora, os estoque caíram. Há duas coisas irrevogáveis: a lei da gravidade e as do mercado. Quem não tiver tecnologia, gestão e valor agregado estará fora do mercado.

SS — Mas os preços dessas commodities apontam para acima?

RR — A tendência é de queda de preços no médio prazo. Alguns agricultores quebrarão, mas a agricultura não quebra, pois os mais eficientes comprarão aqueles que não souberam conduzir os negócios. Todo mundo sabe que o preço se dá em função de oferta e procura. Toda produtividade média determina o preço médio. Quando a inflação era 40°/o ao mês ninguém perdia, a ineficiência desaparecia. Com a inflação domada quem tinha produtividade abaixo da média ao longo de dois anos seguidos, por qualquer motivo, foi excluído. Se o produtor que está abaixo da média é excluído a média sobe e a oferta desce. Mas se a oferta cresce, e a demanda não cresce igual, os preços caem. Toda vez que os agricultores incorporam tecnologia e aumentam produtividade quem se beneficia do resultado é o consumi dor, pois os preços baixam.

Fred Carvalho — Investe-se para ganhar menos?

— É uma perversidade agrícola natural. E alguns produtores rurais pensam exatamente isso: a troco de quê vou gastar meu dinheiro para comprar tecnologia se quem vai se beneficiar está lá na frente? Mas tam bém se não fizer isso ficará abaixo da média e será excluído. Então se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

SS — Nos últimos anos a China não pode ter mudado um pouco essa equação?

RR — Sim, e tem ainda o etanol de milho, para o qual se criou uma demanda adicional brutal, e o horizonte geral para biocombustíveis, que também muda a geoeconomia agrícola mundial. Na China, nos últimos quinze anos, 350 milhões de pessoas deixaram o campo. E o maior êxodo rural de toda a história universal. Equivale a duas populações brasileiras! A China hoje consome 52% do cimento do mundo. Só Xangal tem mais gruas do que todas as cidades européias somadas. Fui lá no ano passado depois de dez anos. Se não soubesse onde estava não saberia dizer que cidade era aquela.

FC — o agricultor só sabe olhar para a terra...

RR — Quando os preços caem o agricultor deixa de plantar. Aí a oferta fica nula, a demanda é multo maior e os preços sobem e ele volta a plantar. Essa ciclotimia é eterna em qualquer lugar do mundo. Há várias lições disso, uma delas: nunca come ce qualquer atividade agrícola com preços acima da média, porque ela vai cair. E se o produtor entra multo na baixa os custos de produção são mais altos que os preços. Então tem que apostar na proximidade da média e ficar nela durante vinte anos. Em um ano se ganha, em outro se perde, mas na média se ganha. Costumo fazer um gráfico com o qual mostro um trem que sobe um morro, O problema é que quando a locomotiva começa a descer os vagões ainda estão subindo.

FC — É por isso que os países desenvolvidos não querem abrir mão dos subsídios aos agricultores?

RR — Os países desenvolvidos criaram mecanismos de salvaguardas, subsídios, que ficaram tão importantes que já foram incorporados. Na Europa hoje 34°/o da renda liquida são subsídios. Se tirarem esses benefícios os produtores vão para a cidade também e desestabilizam a economia desses países.

FC — Mas o Brasil tem subsídios indiretos, como as rolagens das dívidas. Não seria melhor dar um subsídio direto?

RR — Não é necessário, o agricultor brasileiro é muito competitivo. Ele precisa de um seguro rural, de renda, que cubra as questões climáticas, de preço ou um desequilíbrio qualquer ambiental. O: o câmbio baixou 15'V Que culpa tem o produtor rural que fez tudo certinho? Então o governo tem que ter um mecanismo para isso. Um seguro do qual o produtor pague uma parte, o produtor de insumo pague outra, os bancos também e o governo outra. Mas demora vinte anos para criar a massa de recursos desses quatro agentes para um fundo de cadastro consistente.

FC — Em que estágio, na verdade, estão os preços das commodities agrícolas?

RR — Pouco acima da média em alguns produtos. São os casos, em especial, do milho e da soja.

FC — O que um fabricante de máquina agrícola, implementos e caminhões deve esperar no curto prazo? Para 2008, por exemplo?

RR — Os preços em Nova York e Chicago são muito bons para o ano que vem e devem permanecer assim mais uns dois anos. Estamos numa curva positiva. A descendente, se acontecer, leva quatro ou cinco anos.

FC — Quais as culturas agrícolas o senhor imagina que continuarão, digamos, privilegiadas nos próximos tempos?

RR — Milho e soja. A cana caiu muito, 32% este ano.

SS — Apesar de todo esse aumento da frota flex?

RR — É preciso lembrar que baixa ram a mistura do álcool na gasolina de 25°/o para 20 assim ficou por seis meses. E tem muito mais peso no consumo a participação do álcool na gasolina do que o álcool dos motores flex. E os proprietários  de carros flex não usam exclusivamente álcool no tanque. Disse aos meus filhos, que administram negócios agrícolas, para tirarem o pé do acelerador Neste mercado trabalha-se com expectativas, com o futuro. Não significa que 2007 vai mal, mas nos próximos anos pode cair.

Leandro Alves — O consumidor ainda não tem confiança no álcool?

RR — Não é que não tenha confiança. Não existe uma confiança no futuro, na certeza que teremos sempre etanol nos postos. Ainda existe uma memória dos tempos de problemas com o álcool.

LA — O preço da gasolina também não inibe o consumo do álcool?

R — Mas se o álcool custar, na bomba, até 70% do preço gasolina vale a pena colocá-lo. E hoje está em 50%! Então não há argumento que não seja o emocional para não se utilizar o álcool.

LA — A Fapesp e a Dedini anunciaram pesquisa com álcool de celulose, bem como melhores práticas neste setor...

RR — É álcool de celulose da folha de cana. Os cientistas dizem que produzimos 8 mil litros de álcool e nos próximos doze anos devemos atingir 15 mil litros por hectare. Dá para evoluir ainda mais, mas ainda existem restrições porque aí seriam os transgênicos. Temos de aproveitar melhor o bagaço, a folha para extrair mais álcool do canavial.

Francisco Bueno — O Brasil venderá tecnologia para outros países?

RR — Sim. Venderá tecnologia de produção de álcool, carros flex, sistemas flex, o próprio álcool e até as usinas.

LA — E como ficam os Estados Unidos na produção de álcool? RR — Os Estados Unidos trans formam, no álcool de milho, uma unidade de energia para produzir duas de energia renovável. Nós conseguimos oito unidades de energia renovável.

FC — O caminho é exportar para os países asiáticos ou ensiná-los como fazer?

RR — Precisamos convencer outros países a plantarem cana, mas com nossa tecnologia. Não existe commoditv com um só produtor Os asiáticos estão crescendo a taxas incríveis, portanto precisam do álcool. Também têm problemas de poluição, principalmente a China. Vamos exportar para os Estados Unidos, mas principalmente para a Ásia. Uma hora o protocolo de Kioto funcionará, embora ninguém queira trocar a dependência do petróleo dos árabes pelo álcool dos brasileiros.

FB — A tese de que o álcool roubará espaço para a plantação de alimentos faz sentido?

RR — Isto é cretino. Participei de um debate com ambientalistas que afirmavam que acabaremos com a comida e com a Amazônia. Temos 62 milhões de hectares agricultáveis, 3,2 milhões deles com cana, ou seja, 5% apenas. Sobram milhões de hectares para plantar alimentos. E, claro, não dá para utilizar as terras amazônicas para plantio. Tem água demais lá. Outro ponto: a cana ajuda no aumento da produção de alimentos. Ela é plantada onde antes havia pasto e, na rotação de culturas, pode-se produzir leguminosas.

LA — E o biodiesel?

RR — O álcool é muito mais conhecido, tem pouca variabilidade, enquanto o biodiesel vem de diferentes culturas, com características químicas diversas de viscosidade, glicerina, lubrificidade etc. O mercado do biodiesel ainda é muito restrito. A gasolina, por exemplo, pode receber a adição de 25% de álcool. O diesel recebe 2 de biodiesel e em 2012 passará para 5%. E há outros problemas. Por exemplo: o mesmo tanque de combustivel não pode transportar álcool hidratado em uma viagem e biodiesel em outra. São incompatíveis mas tudo tem solução. Será viável, mas demanda ainda muita pesquisa.

SS—Fala-se em uma usina inaugurada no Brasil a cada mês até 2012. Seriam mais de oitenta. Haverá excedentes para exportação?

RR — Serão menos usinas, mas altamente produtivas. De qualquer forma existirão excedentes, pois a tecnologia aumentará muito a produtividade.

SS— E a questão da mão-de-obra, dos cortadores de cana?

RR — Há duas correntes. Uma é contrária, pois implica o que considera trabalho subumano. Outra a defende por temer o desemprego. Mas existem estudos para plantar outras culturas cm mais ou menos 12% de atual área da região de Ribeirão Preto. Com seringais, fruticultura, madeira para móveis seria a fuga da monocultura, que é ruim, criando atividades que gerariam empregos para os cortadores de cana desempregados pela mecanização. O Sthv de frutas, por exemplo, dá para agregar valor com a produção de doces, compotas etc Poderiam partir para a criação de frango, que é um ovo carregado de milho que criou asas e bico.