Notícia

Jornal da Unesp

Tudo da abelha africanizada

Publicado em 01 março 2017

A abelha africanizada é um híbrido da espécie de Apis mellifera originado do cruzamento de subespécies africanas importadas para o Brasil e soltas acidentalmente em Rio Claro (SP), na década de 1950, com populações das subespécies europeias que habitavam o país na época. Hoje essa abelha está presente do norte da Argentina ao sul do Canadá.

Pesquisadores do Núcleo de Ensino, Ciência e Tecnologia em Apicultura Racional (Nectar) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, Câmpus de Botucatu, e da York University, de Toronto, no Canadá, conseguiram sequenciar a totalidade do genoma da abelha africanizada e identificar todas as variantes em relação ao genoma de Apis mellifera, já descrito.

Parte desse estudo foi publicada no periódico Scientific Data, do grupo Nature. O trabalho representa parte da tese de doutorado em Zootecnia de Samir Moura Kadri, orientado pelo professor Ricardo de Oliveira Orsi, da FMVZ, e coorientado pelo professor Amro Zayed, da York University. A pesquisa foi financiada pela Fapesp e pelo Discovery Grant from the Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada (NSERC).

Kadri procurou identificar os chamados polimorfismos de nucleotídeo simples (SNPs), variações ou mutações na sequência de DNA que afetam somente uma base – adenina (A), timina (T), citosina (C) ou guanina (G) – na sequência de DNA genômico. Os SNPs são transmitidos de uma geração a outra e podem ser utilizados como marcadores moleculares para uma população. “É possível buscar um polimorfismo na sequência do genoma e associá-lo a uma população com uma característica que predefinimos para estudar sua presença numa determinada espécie”, explica Kadri.

O projeto analisou o comportamento defensivo de 117 enxames de apicultores comerciais em Iaras (SP). Em seguida, com a colaboração da equipe do Instituto de Biotecnologia (IBTEC) da Unesp de Botucatu, foram coletadas abelhas operárias de cada um dos enxames.

Depois, graças à parceria com Zayed, Kadri passou oito meses no Canadá, onde foi extraído o DNA genômico das abelhas. O pesquisador separou 12 abelhas operárias de cada um dos 15 enxames com maior comportamento defensivo e 12 de cada um dos 15 com menor comportamento defensivo. A partir desses indivíduos, no Centre for Applied Genomics, em Toronto, foi feito o sequenciamento completo de genoma da abelha africanizada.

A pesquisa obteve mais de 3,6 milhões de polimorfismos, carreados como marcadores genéticos do híbrido africanizado. Desses, mais de 155 mil polimorfismos estão no interior de cerca de 11 mil genes do genoma da abelha africanizada de uma forma que afetam a síntese dos aminoácidos. “Isso leva a diferenças morfológicas e principalmente comportamentais entre as abelhas africanizadas e a Apis mellifera da linhagem dos Estados Unidos”, explica Kadri.

O artigo na Scientific Data se refere às posições que os polimor fismos e os genes afetados por eles ocupam dentro do genoma. “Foi a primeira vez que foram sequenciados e analisados todos os polimorfismos existentes na totalidade do genoma da abelha africanizada”, garante o pesquisador.

Os dados obtidos foram depositados na base de dados de SNPs no National Center for Biotechnology Information (NCBI) e no Scientific Data, do grupo Nature, podendo ser utilizados por pesquisadores do mundo todo em trabalhos com abelhas africanizadas. “Hoje, todos os estudos que são feitos utilizam como padrão o genoma sequenciado nos Estados Unidos”, afirma Kadri.

Para o professor Orsi, a publica- ção da pesquisa num periódico do grupo Nature é motivo de orgulho para a equipe e o Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da FMVZ. “O trabalho deve se tornar uma referência nacional e internacional para estudos com as abelhas africanizadas”, assinala.