Notícia

EPTV

Tuberculose: traição, vacina e novos antibióticos

Publicado em 28 janeiro 2008

Pesquisador de Ribeirão conseguiu bons resultados em macacos

Todos os anos, pelo menos seis mil pessoas morrem no Brasil de tuberculose - uma doença que tem cura, mas que pode matar em uma década 30 milhões de pessoas em todo o mundo. Dos 65 milhões de brasileiros que devem estar infectados, entre 5% a 10% deles, estatisticamente, ficarão doentes. O Brasil ocupa entre o 13º e 15º lugares dos países com maior incidência da doença no Mundo. Na proporção de uma peste da Idade Média, desestrutura famílias, com o poder não só de debilitar fisicamente as pessoas, mas incapacitar para a vida.

Os que contraem a doença são, em sua maioria, pobres, desnutridos e carentes sociais. O tratamento com antibióticos tradicionais, que garante a cura para quem não desiste do tratamento, tem um complicador adicional: os remédios que estão no mercado já sofrem resistência do bacilo, que vem se adaptando ao longo dos anos ao bombardeio químico da terapia convencional.

Célio Silva, professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, que há quase 14 anos desenvolveu uma vacina gênica (DNA) que em animais de laboratório não só protege como cura a tuberculose, até agora não conseguiu realizar os testes clínicos em pessoas: mesmo com laboratórios já montados para isso nas universidades federais do Rio de Janeiro e de Vitória, com produção regular da vacina em Ribeirão Preto, ainda esbarra em poucas e boas dificuldades tecnológicas.

A principal delas é definir a melhor maneira de aplicar a vacina, se por via oral, nasal ou intramuscular. Dependendo da forma, será determinada a quantidade do produto e doses. Enquanto isso, através de um projeto do National Institute of Health - o maior órgão do governo americano que financia pesquisas — Célio Silva conseguiu testar o biofármaco em macacos de um centro de primatologia. A primeira fase dos testes mostrou que o produto não é tóxico e que induz a índices elevados de imunidade.

- O processo de desenvolvimento de qualquer biofármaco é muito difícil. Não basta fazer uma preparação e inocular. É preciso cumprir normas regulatórias e ao mesmo tempo vencer problemas tecnológicos e ainda envolver a indústria — conta o cientista que espera iniciar os testes clínicos até o final desse ano.


Na terapia do câncer, aumentou sobrevida

O pesquisador iniciou também a produção de antibióticos mais eficazes

Célio Silva não gosta de falar muito sobre o desdobramento que terá a experiência bem sucedida feita no Hospital das Clínicas de São Paulo com 21 pacientes terminais com câncer de cabeça e pescoço. Dos 21 pacientes que iniciaram a experiência em 2004 - todos terminais e com previsão de no máximo seis meses de vida- sete faleceram antes do final da fase de observação. Dos 14 que receberam as três doses do primeiro biofármaco gênico desenvolvido no país para o tratamento do câncer, seis apresentaram diminuição dos tumores. Três pacientes ainda estão vivos, completando quase quatro anos de sobrevida.

- Para um teste clínico inicial, os resultados são excelentes, comenta Silva.

O que gosta de enfatizar é que o produto desenvolvido, chamado inicialmente de vacina e que hoje faz questão de designar como biofármaco, estimula o sistema imunológico.

- Feito com DNA do bacilo da tuberculose, verificamos que serve para curar outras doenças também, melhorando a imunidade geral do organismo. Sabemos hoje, em detalhes, como é que funciona o mecanismo contra tuberculose e câncer.

A esperança é testar esse produto também em outras situações, como em um tratamento combinado de tuberculose e HIV, por exemplo.

- O sistema imunológico ganha capacidade de resposta a qualquer patógeno, mesmo contra o câncer.


Novos medicamentos

Célio Silva não só coordena os projetos contra tuberculose do Instituto do Milênio, que reúne mais de 200 pesquisadores em todo o país. Dirige também, com um grupo de doutores do campus local, através da Farmacore — empresa de biotecnologia acoplada à incubadora Supera do campus da USP- o desenvolvimento de novas drogas contra a tuberculose. No ano passado foram testados mais de dois mil compostos de origem marinha, fungos, algas e plantas.

- Dos dois mil produtos, conseguimos 46 compostos ativos para combater o bacilo da tuberculose. Desses 46, já temos duas moléculas novas, em fase pré-química, com atividade melhor contra a tuberculose que esses antibióticos no mercado- revelou.

Ingleses traem pesquisador e conseguem patente antes

Se os testes clínicos com pessoas contra tuberculose tiverem êxito comprovado, o professor Célio Silva não sabe quem se beneficiará com a patente. Tudo porque um grupo inglês, através de um cientista do Medical Research Council - que tinha a sua confiança, decidiu patentear dados do produto como vacina em 1995.

Essa puxada de tapete, que é revelada pela primeira vez no Brasil, prejudicou a obtenção de financiamento dos grandes grupos farmacêuticos. E o mais incrível é que nem no Brasil ele conseguiu obter a patente do produto: o Instituto Nacional de Patentes Industriais ainda não julgou o pedido até hoje.

Silva, que fez o pós-doutoramento em Londres, nesse mesmo instituto, onde começou a estudar a vacina em 1990, mandava o material dos trabalhos para correção da língua inglesa. Quando a pesquisa foi publicada na Revista Nature, Silva não conseguiu mais a patente internacional: descobriu que tinha sido registrada um ano antes.

- Você olha o trabalho publicado e a patente, vê as mesmas figuras. Fiquei louco da vida. Contatei a USP e a Fapesp para interpor algum recurso, mas de nada adiantou.

O Medical Research Council de Londres negociou com uma empresa norte- americana os direitos de comercialização. Empresa que depois procurou Silva para obter dados complementares.

- Se a patente é deles, vocês pedem dados para mim? — indagou ironicamente.

Na época, denunciou o problema pelo mundo todo, o que impediu que os ingleses desenvolvessem a vacina. Mas a patente ainda é deles. E como no Brasil ainda está sem patente, joga com o tempo: acredita que quando for lançar o produto no mercado, em cinco a seis anos, o tempo de 20 anos da patente inglesa expirou. E ele, mesmo correndo o risco de outros grupos tentarem se apossar do seu trabalho, não abre mão das conquistas inéditas na área da imunologia.


De lavrador a cientista

Célio Lopes da Silva, 55 anos, três filhos, quando olha para trás, costuma brincar. "Ʌ meu nome é trabalho", repete, dizendo que não se considera muito inteligente. Modéstia. Quem dos oito aos 18 anos de idade foi tão polivalente quanto seu biofármaco promete, está acima da média. Caminhava quilômetros para fazer o grupo escolar, longe do sítio do pai em Leme, onde se formou como professor. Antes trabalhou como engraxate, auxiliar de mecânico e pedreiro. Teve que plantar algodão e milho, nas terras do pai, para custear o cursinho em São Paulo. No plataforma Lattes, os dados oficiais: membro titular da Academia Brasileira de Ciências; farmacêutico, mestre e doutor em bioquímica, pós-doutorado em Londres, especialização em Imunologia, Jornalismo Científico, entre dezenas de outras coisas.