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Tubarão-mangona: espécie criticamente ameaçada é flagrada se reproduzindo no litoral de São Paulo (11 notícias)

Publicado em 02 de junho de 2026

Pesquisadores da Unifesp, Unesp e Instituto de Pesca registraram pela primeira vez o acasalamento e a gestação do tubarão-mangona no Arquipélago de Alcatrazes, redesenhando o mapa reprodutivo da espécie no Atlântico Sul.

Um estudo inédito revelou que o tubarão-mangona ( Carcharias taurus ), classificado como criticamente ameaçado de extinção, está realizando todo o seu ciclo reprodutivo nas águas do Arquipélago de Alcatrazes , no litoral norte de São Paulo.

A descoberta muda o que se sabia sobre a espécie e reforça o papel das áreas marinhas protegidas na conservação dos tubarões brasileiros.

Refúgio inesperado a 35 km da costa

Localizado a 35 quilômetros de São Sebastião, o Arquipélago de Alcatrazes abriga um Refúgio de Vida Silvestre gerido pelo ICMBio desde 2016.

Foi justamente nessa área protegida que pesquisadores da Unifesp, da Unesp e do Instituto de Pesca registraram, pela primeira vez cientificamente, a presença do mangona tanto no verão quanto no inverno — e com evidências diretas de acasalamento e gestação.

Os resultados foram publicados no Journal of Fish Biology e contaram com apoio da FAPESP e da Petrobras.

“Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, afirma Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo e bolsista da FAPESP.

Como a pesquisa foi feita

A maior parte dos registros usou os chamados BRUVs, que são sistemas de filmagem subaquática remota com isca, compostos por duas câmeras e um braço com iscas, mantidos submersos por cerca de uma hora.

Ao todo, o equipamento foi lançado 315 vezes em 38 pontos do arquipélago, em profundidades de 2 a 50 metros, entre 2022 e 2025.

O estudo também contou com ciência cidadã: mergulhadores recreativos que frequentam Alcatrazes regularmente colaboraram com registros em vídeo.

O biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo filmou nove indivíduos durante o verão de 2024, entre 5 e 10 metros de profundidade.

Um método desenvolvido nos Estados Unidos permitiu ainda estimar, pelas marcas de mordida deixadas pelos machos durante a cópula, quando o acasalamento ocorreu, confirmando que as fêmeas estavam em Alcatrazes no momento da cópula.

Por que o mangona é tão vulnerável

O tubarão-mangona tem uma biologia reprodutiva extremamente delicada. A espécie foi a primeira em que se descreveu o canibalismo intrauterino : os filhotes se alimentam dos óvulos e dos irmãos mais novos ainda dentro do útero da mãe.

O resultado é uma gestação de 9 a 12 meses que produz, em média, apenas dois filhotes e pode se repetir somente a cada dois anos.

Essa baixa fecundidade torna a espécie incapaz de suportar a pressão da pesca, da poluição e da perda de habitat. Não à toa, o mangona figura entre os tubarões mais ameaçados do mundo.

Um corredor ecológico para tubarões

Os pesquisadores apontam que Alcatrazes, junto a outras áreas protegidas próximas — como a Laje de Santos e a Ilha da Queimada Grande —, pode formar um corredor ecológico estratégico para a conservação da espécie.

Em 2025, o arquipélago foi oficialmente designado uma Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

“Ao revelar a dinâmica espacial e temporal da espécie, o estudo pode dar suporte para estratégias de conservação”, destaca Fabio Motta, professor da Unifesp e coordenador do projeto.