Um tubarão criticamente ameaçado de extinção pode ter encontrado, no litoral norte de São Paulo, um refúgio para acasalar e se reproduzir. Pesquisadores registraram fêmeas de tubarão-mangona (Carcharias taurus) com marcas recentes de acasalamento e sinais de gravidez, no Arquipélago de Alcatrazes, área marinha protegida localizada a cerca de 35km da costa de São Sebastião.
A descoberta muda parte do que se sabia sobre o ciclo reprodutivo da espécie no Atlântico Sudoeste. Até então, estudos indicavam que os tubarões-mangona se acasalavam em regiões como Argentina, Uruguai e sul do Brasil, migrando depois para águas mais quentes da costa sudeste brasileira durante a gestação e o parto.
Agora, os registros apontam que Alcatrazes pode ter uma função ainda mais importante: abrigar não apenas fêmeas grávidas, mas também momentos de acasalamento. O estudo foi publicado no Journal of Fish Biology por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Vicente, e do Instituto de Pesca.
Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, afirma Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo e bolsista da FAPESP no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp.
Câmeras no fundo do mar
A maior parte dos registros foi feita com sistemas de filmagem subaquática remota com isca, conhecidos pela sigla em inglês BRUVs. A técnica usa um suporte com duas câmeras e um braço com iscas, mantido submerso por cerca de uma hora para atrair e registrar animais marinhos.
Entre 2022 e 2025, os equipamentos foram colocados na água 315 vezes, em 38 pontos do arquipélago, com profundidades entre 2 e 50 metros. As amostragens ocorreram no inverno e no verão, dentro do programa Mar de Alcatrazes, voltado ao monitoramento da biodiversidade da região.
Os pesquisadores analisaram as imagens para contar, medir e identificar os tubarões. Sempre que possível, também avaliaram sexo, maturidade e marcas corporais. No caso das fêmeas, a gravidez foi inferida pela distensão da região ventral.
Além do trabalho científico, o estudo contou com colaboração de mergulhadores recreativos que visitam Alcatrazes. Um deles, o biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo, filmou nove tubarões-mangona no verão de 2024, entre 5 e 10 metros de profundidade.
Ciência cidadã ajudou pesquisa
A participação de mergulhadores foi importante porque ampliou a quantidade de registros disponíveis. Esse modelo, conhecido como ciência cidadã, permite que imagens feitas por visitantes e profissionais do mergulho ajudem a documentar espécies raras ou difíceis de observar.
Segundo Fabio Motta, professor do IMar-Unifesp e coordenador de projeto apoiado pela FAPESP, os tubarões-mangona têm características físicas que facilitam a identificação, mesmo em imagens com visibilidade limitada. A posição e o tamanho das nadadeiras, por exemplo, ajudam a diferenciar a espécie de outros tubarões costeiros.
Os pesquisadores também usaram um método recente para estimar o período de acasalamento a partir das marcas de mordidas deixadas pelos machos nas fêmeas durante a cópula. A comparação entre marcas em diferentes estágios de cicatrização permitiu indicar que fêmeas estavam em Alcatrazes durante o período de cópula.
Reprodução lenta aumenta risco
O tubarão-mangona tem uma reprodução considerada frágil. A espécie é conhecida pelo chamado canibalismo intrauterino, no qual os filhotes se alimentam de óvulos e até de outros embriões dentro do ventre da mãe.
Por causa desse processo, as fêmeas normalmente geram apenas dois filhotes por gestação. O período gestacional costuma durar de 9 a 12 meses e pode ocorrer a cada dois anos. Os filhotes já nascem grandes, com cerca de 90 centímetros.
Essa baixa fecundidade torna a espécie mais vulnerável à pesca, à captura incidental, à poluição marinha e à perda de habitats. Para os pesquisadores, a proteção de áreas como Alcatrazes é decisiva para reduzir riscos em fases importantes do ciclo de vida desses animais.
Alcatrazes pode integrar corredor de conservação
O Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes foi criado em 2016 e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 2025, a área foi reconhecida como uma Área Importante para Tubarões e Raias, classificação internacional conhecida pela sigla ISRA.
Como o tubarão-mangona é uma espécie migratória, os pesquisadores avaliam que Alcatrazes e outras áreas marinhas protegidas próximas, como a Laje de Santos e a ilha da Queimada Grande, podem formar um corredor ecológico relevante para a conservação.
Para Motta, os resultados reforçam a importância das unidades de conservação marinhas e de áreas onde a pesca é controlada. Além de proteger tubarões costeiros, o estudo pode ajudar na criação de estratégias de conservação baseadas na dinâmica espacial e temporal da espécie.