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Tubarão ameaçado de extinção encontra refúgio para se reproduzir no litoral de SP (11 notícias)

Publicado em 01 de junho de 2026

Um tubarão criticamente ameaçado de extinção pode ter encontrado, no litoral norte de São Paulo, um refúgio para acasalar e se reproduzir. Pesquisadores registraram fêmeas de tubarão-mangona (Carcharias taurus) com marcas recentes de acasalamento e sinais de gravidez, no Arquipélago de Alcatrazes, área marinha protegida localizada a cerca de 35km da costa de São Sebastião.

A descoberta muda parte do que se sabia sobre o ciclo reprodutivo da espécie no Atlântico Sudoeste. Até então, estudos indicavam que os tubarões-mangona se acasalavam em regiões como Argentina, Uruguai e sul do Brasil, migrando depois para águas mais quentes da costa sudeste brasileira durante a gestação e o parto.

Agora, os registros apontam que Alcatrazes pode ter uma função ainda mais importante: abrigar não apenas fêmeas grávidas, mas também momentos de acasalamento. O estudo foi publicado no Journal of Fish Biology por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Vicente, e do Instituto de Pesca.

Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, afirma Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo e bolsista da FAPESP no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp.

Câmeras no fundo do mar

A maior parte dos registros foi feita com sistemas de filmagem subaquática remota com isca, conhecidos pela sigla em inglês BRUVs. A técnica usa um suporte com duas câmeras e um braço com iscas, mantido submerso por cerca de uma hora para atrair e registrar animais marinhos.

Entre 2022 e 2025, os equipamentos foram colocados na água 315 vezes, em 38 pontos do arquipélago, com profundidades entre 2 e 50 metros. As amostragens ocorreram no inverno e no verão, dentro do programa Mar de Alcatrazes, voltado ao monitoramento da biodiversidade da região.

Os pesquisadores analisaram as imagens para contar, medir e identificar os tubarões. Sempre que possível, também avaliaram sexo, maturidade e marcas corporais. No caso das fêmeas, a gravidez foi inferida pela distensão da região ventral.

Além do trabalho científico, o estudo contou com colaboração de mergulhadores recreativos que visitam Alcatrazes. Um deles, o biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo, filmou nove tubarões-mangona no verão de 2024, entre 5 e 10 metros de profundidade.

Ciência cidadã ajudou pesquisa

A participação de mergulhadores foi importante porque ampliou a quantidade de registros disponíveis. Esse modelo, conhecido como ciência cidadã, permite que imagens feitas por visitantes e profissionais do mergulho ajudem a documentar espécies raras ou difíceis de observar.

Segundo Fabio Motta, professor do IMar-Unifesp e coordenador de projeto apoiado pela FAPESP, os tubarões-mangona têm características físicas que facilitam a identificação, mesmo em imagens com visibilidade limitada. A posição e o tamanho das nadadeiras, por exemplo, ajudam a diferenciar a espécie de outros tubarões costeiros.

Os pesquisadores também usaram um método recente para estimar o período de acasalamento a partir das marcas de mordidas deixadas pelos machos nas fêmeas durante a cópula. A comparação entre marcas em diferentes estágios de cicatrização permitiu indicar que fêmeas estavam em Alcatrazes durante o período de cópula.

Reprodução lenta aumenta risco

O tubarão-mangona tem uma reprodução considerada frágil. A espécie é conhecida pelo chamado canibalismo intrauterino, no qual os filhotes se alimentam de óvulos e até de outros embriões dentro do ventre da mãe.

Por causa desse processo, as fêmeas normalmente geram apenas dois filhotes por gestação. O período gestacional costuma durar de 9 a 12 meses e pode ocorrer a cada dois anos. Os filhotes já nascem grandes, com cerca de 90 centímetros.

Essa baixa fecundidade torna a espécie mais vulnerável à pesca, à captura incidental, à poluição marinha e à perda de habitats. Para os pesquisadores, a proteção de áreas como Alcatrazes é decisiva para reduzir riscos em fases importantes do ciclo de vida desses animais.

Alcatrazes pode integrar corredor de conservação

O Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes foi criado em 2016 e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 2025, a área foi reconhecida como uma Área Importante para Tubarões e Raias, classificação internacional conhecida pela sigla ISRA.

Como o tubarão-mangona é uma espécie migratória, os pesquisadores avaliam que Alcatrazes e outras áreas marinhas protegidas próximas, como a Laje de Santos e a ilha da Queimada Grande, podem formar um corredor ecológico relevante para a conservação.

Para Motta, os resultados reforçam a importância das unidades de conservação marinhas e de áreas onde a pesca é controlada. Além de proteger tubarões costeiros, o estudo pode ajudar na criação de estratégias de conservação baseadas na dinâmica espacial e temporal da espécie.