Fungos amazônicos, análise preditiva de mosquitos e drones anti-insetos são tecnologias que podem tirar a epidemia do calendário de tragédias nacionais
Baseadas em conhecimentos da Amazônia, em dados preditivos e em análise comportamental de insetos, startups brasileiras criam novas maneiras para o país enfrentar o Aedes aegypti e a dengue.
Com muito apoio científico – mas ainda pouco investimento financeiro –, elas dão fôlego para o Brasil numa batalha longa e extenuante contra surtos cada vez mais mortais da doença.
Os números de 2024 mostram o tamanho da guerra que ainda precisamos vencer. Só até o final de março, foram mais de 1,8 milhão de casos de dengue no Brasil , com um pouco mais de 1,5 mil mortes confirmadas da doença. Com isso, já ultrapassamos o número total de casos que tivemos durante todo o ano de 2023 (1,6 milhão). É a maior epidemia de dengue da história do país.
O surto do vírus atingiu a América Latina. Já são mais de 4,6 milhões de casos até o começo de abril, no que a Organização Mundial de Saúde chama de “pior surto da história”.
Dois fatores explicam o surto sem precedentes: o fortalecimento dos mosquitos e o caos climático. Tais elementos tendem a piorar nos próximos anos.
“Desde 1991, tivemos apenas dois anos em que não houve epidemia de dengue. Se acontece com tanta frequência, é porque tem algo errado na forma como lidamos com o mosquito”, diz Davi dos Santos Luca, fundador da startup Ondaedes , que disponibiliza uma ferramenta de previsão e prevenção de arboviroses.
Especialista em ciência de dados e geomarketing, Lucas levantou anos de dados epidemiológicos, climáticos e populacionais para criar uma plataforma de comportamento preditivo do Aedes aegypti. Assim, o pesquisador traçou o perfil dos mosquitos que se espalham no Brasil e descobriu peculiaridades.
Os ovos dos insetos, por exemplo, eclodem mais rapidamente em temperaturas de superfície acima dos 40ºC, diferente do que mostra a literatura científica, que aponta o valor como a “marca” para a reprodução dos mosquitos diminuir. Com a mudança de temperatura no planeta, a tendência é que os mosquitos fiquem ainda mais resistentes a intempéries.
Além dos fatores externos, há a questão genética. De acordo com Ricardo Machado, fundador da Birdview , especializada em biocontrole de pragas, a resistência à dedetização é passada de geração para geração. O problema é que os ciclos são muito curtos.
O Aedes aegypti passa de larva para fase adulta em 45 dias. Nesse período, as fêmeas conseguem colocar 450 ovos. A cada vez que se reproduzem, os insetos passam “melhorias” genéticas com o objetivo de manter a espécie viva. O que significa que eles aprendem formas de escapar de pesticidas e repelentes. E esses produtos deixam de fazer efeito com o tempo – o que temos sentido na pele.
“Aquele fumacê que a maioria das cidades solta contra os mosquitos é só para inglês ver. São substâncias com pouca eficácia contra o Aedes”, afirma Luca.
Dados os dois desafios, as startups brasileiras procuram formas de não só monitorar, mas impedir que o mosquito evolua a ponto de se tornar um “supermosquito”. “É um temor parecido com o que o mundo médico tem das superbactérias”, aponta Machado.
DIRETO DO SOLO DA AMAZÔNIA
Uma das maneiras mais extraordinárias de se combater o Aedes aegypti veio da terra da Amazônia. Literalmente. Espécies de fungos encontradas em solo amazônico têm função inseticida e são capazes de matar larvas de mosquitos em menos de quatro dias.
Um dos descobridores desse poder foi Gleison Rafael Mendonça, fundador da MetAttack , startup de biotecnologia para inseticidas biológicos. Fundada em Rio Branco, no Acre, a startup de Mendonça é fruto de mais de 10 anos de pesquisa do cientista no chão da floresta.
“Se existe um organismo versátil no mundo, está no reino Fungi”, diz Mendonça. Desde 2018, o cientista pesquisa como os fungos podem ser usados como inseticidas contra o Aedes Aegypti. O que o motiva é testemunhar a alta mortalidade de doenças ligadas ao mosquito no Acre a cada ano.
Dois fatores explicam o surto sem precedentes: o fortalecimento dos mosquitos e o caos climático.
Em 2021, por exemplo, o Estado teve surto de dengue e aumento de casos de chikungunha enquanto estava lidando com a pandemia de Covid-19, o que levou a rede de saúde pública ao colapso. Por lá, a falta de eficiência dos inseticidas afeta a maneira com que as autoridades lidam com o mosquito.
Segundo o pesquisador, a maioria dos produtos usados para espantar o Aedes aegypti não funciona na Amazônia devido à umidade e às condições climáticas da região. Nesse sentido, as duas espécies de fungos se tornam ainda mais importantes. Até o desenvolvimento do produto da MetAttack, não existia um inseticida 100% amazônico, com base nesse bioma.
As espécies pesquisadas por Mendonça já são usadas atualmente na indústria agrícola para prevenção de pragas e poderiam ser usadas por grupos de controle de saúde. O que o cientista faz é isolá-las e induzir o crescimento dos fungos no laboratório. “Eles têm boa resposta tanto no meio ambiente quanto no espaço controlado de laboratório”, garante.
No momento que é colocado em contato com a água, o fungo lança esporos inseticidas, capazes de matar 100% das larvas. Tudo isso sem o risco de ser mais um deposto químico no meio ambiente. Mendonça pesquisa a possível ação contra os ovos.
Ainda em fase de aprovação junto a agências ambientais e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o produto da MetAttack passa por outro desafio: o financeiro. “Toda essa fase de autorização requer bastante recurso. Estamos buscando investimento, participando de eventos que propiciem contatos com investidores.”
Mendonça lembra que, embora o setor de biotecnologia esteja crescendo no Acre, ainda há pouco olhar de investidores para a região.
COMO UM AEDES AGIRIA?
Os fungos da MetAttack são apenas uma parte de uma solução para acabar com a dengue. É preciso entender em que espaços distribuí-los para que, de fato, o maior número de larvas sejam exterminadas. E é aí que entra a Ondaedes, de Davi Luca.
O sistema foi criado em Vitória da Conquista, na Bahia, para entender porque a cidade teve um surto da doença tão mortal em 2019, apesar das condições não serem consideradas favoráveis a esse tipo de fenômeno. Davi Luca fez uma plataforma de big data, unindo dados geolocalizados que pudessem explicar a alta de casos na cidade.
as startups procuram formas de impedir que o mosquito evolua a ponto de se tornar um “supermosquito”.
O que encontrou foi uma forma de rastrear as populações de Aedes aegypti, já que conseguiu entender como eles se comportam nos municípios brasileiros. A Ondaedes cruza informações da localização dos casos, da temperatura da superfície, da incidência de chuvas, do tipo de adensamento populacional e do formato das moradias e cria um mapa de calor.
Nesse mapa, é possível observar quais áreas têm mais tendência de ter circulação de mosquitos infectados e quais podem ser afetadas. Também aponta quais as regiões da cidade que podem ter mais ovos, ajudando a ação dos agentes de saúde.
Outro dado que a plataforma de Luca mostra é a circulação de pessoas. “Os mosquitos picam em um período, e a gente analisa quais áreas da cidade têm mais circulação nesse período. Entender isso pode apoiar o município a visualizar e prever os bairros que precisam de mais cuidado”, explica.
Dados como a quantidade de mulheres grávidas na região também apoiam a ação de prefeituras contra o zika vírus, causador de microcefalia.
A startup está em conversas com governos municipais e com países europeus. A ideia é o produto chegar em uma segunda fase para passar a também servir para o usuário final. “Queremos criar um aplicativo ou um sistema de alerta que avise as pessoas sobre as regiões mais afetadas onde elas devem se proteger contra o mosquito.”
A SALVAÇÃO VEM PELO AR (E PARECE UM MOSQUITO)
E se os mosquitos pararem de se reproduzir? Esta é a saída escolhida pela BirdView. A startup da cidade de São Manuel, no interior paulista, tem especialidade em bioinseticidas para o mercado agrícola. A companhia usa drones para chegar em espaços remotos de lavouras.
De acordo com o CEO da companhia, Ricardo Machado, insetos e outros animais pequenos (ou bioinseticidas) controlam a infestação de pragas em lavouras. Fundada em 2015, a startup começou a analisar como usar as soluções para reduzir a reprodução do Aedes aegypti e encontrou uma alternativa: soltar mosquitos estéreis na natureza.
A tecnologia usa raios-X para “castrar” mosquitos machos. Os insetos são lançados no meio ambiente, cruzam com os selvagens e interrompem o ciclo dos ovos, já que não há fertilização. “A técnica evita que os mosquitos criem mais resistências genéticas”, explica Machado.
Para espalhar os bichinhos estéreis, a companhia usa drones. Um drone pequeno tem capacidade de fazer a soltura de 17 mil insetos por voo e cobre uma área de 100 mil metros quadrados. “Com os drones, conseguimos soltar os mosquitos machos em áreas urbanas remotas, como terrenos baldios”, diz o executivo.
A companhia trabalha em conjunto com a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa) e com a Organização das Nações Unidas (ONU). Além de agir contra o Aedes aegypti, a técnica dos insetos inférteis funciona contra a mosca tsé-tsé, que espalha a “doença do sono” em solo africano.
A startup está em discussão com prefeituras e secretarias estaduais de saúde com o objetivo de assinar contratos antes do final deste ano. Considerando o surto da dengue atual e os próximos que podem vir, as ações são mais do que urgentes.
Crédito: Fast Company Brasil