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Época

Três mil empresas em gestação

Publicado em 15 setembro 2008

Por Maria Laura Neves

Como as incubadoras estão ajudando a formar empreendedores de sucesso no Brasil

O engenheiro químico Marcos Gugliotti, de 38 anos, começou a bolar um sistema para economizar água em 2002, quando fazia pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Sem capital para investir nem laboratório para trabalhar, ele procurou uma incubadora – instituição que ajuda a desenvolver empresas em fase embrionária. Em 85% dos casos, as incubadoras funcionam em universidades ou institutos de pesquisa. Na USP, há o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), o maior do gênero na América Latina. Com seu projeto de preservação da água aprovado no edital do Cietec, em 2004, Gugliotti conseguiu um financiamento de R$ 350 mil e um curso de planejamento de negócios. Nascia assim uma nova empresa, a Lótus Química.

Três anos depois, a Lótus está em uma nova fase. No início de junho, a empresa foi graduada – ela saiu do Cietec, pois atingiu o ponto em que deve ser capaz de ganhar dinheiro sozinha. Gugliotti negocia com investidores para começar a produzir seu invento em escala industrial. Trata-se de um pó que, em contato com a água doce, forma uma película capaz de reduzir a evaporação de açudes, represas e reservatórios por dois dias. Ele afirma já ter recebido propostas de clientes potenciais de várias partes do mundo. “Ter passado pelo Cietec me deu muita credibilidade”, afirma. “Mostra que eu não sou um cientista maluco.”

O Cietec abriga 116 empresas incubadas. Todas têm por vocação criar produtos inovadores. Nos últimos seis anos, lançou 74 empresas no país. Antes de graduá-las, a incubadora acompanha cada detalhe do desenvolvimento do negócio. De seis em seis meses os incubados preenchem um relatório em que descrevem seus problemas e relatam os avanços de suas empresas. Os relatórios são avaliados por um comitê de consultores. Eles sugerem soluções para cada etapa do processo de amadurecimento do negócio. Mais que isso, ajudam os empreendedores a achar seu lugar no mercado, descobrindo quais são seus clientes e possíveis concorrentes e até encontrando um preço competitivo para os produtos. Se, durante a gestação, a empresa-bebê apresentar algum problema de malformação, como não conseguir avançar nas pesquisas ou não atingir uma meta fixada no plano estratégico, um diagnóstico é traçado pelos conselheiros. Se o incubado não reagir ou o projeto mostrar deficiências que comprometam seu desenvolvimento, é abortado. A empresa é desligada do Cietec antes mesmo que termine o prazo estabelecido no contrato. Os incubados ainda contam com uma assessoria de marketing que divulga a empresa no país e no exterior. Em troca, pagam um aluguel pelas salas que ocupam e pelos recursos que compartilham, como secretárias, telefone e até o cafezinho.

O Cietec é um dos responsáveis por uma espécie de revolução no mundo dos negócios no país. O fenômeno das incubadoras surgiu em 1959, nos Estados Unidos, mas tomou corpo apenas na década de 1980. Aqui, ele apareceu com os primeiros investimentos de universidades no mercado da tecnologia, também na década de 1980. Mas ficou adormecido, e só na virada do século XXI as incubadoras começaram a florescer. Em 2000, havia 135 incubadoras no país. Em 2004, elas eram 283. Hoje, são 393, que preparam o lançamento de 3 mil novas empresas. Cerca de 2 mil empresas em atuação no país nasceram dessa forma. “As incubadoras são fundamentais para dar fôlego aos empreendimentos baseados em inovação, cujo grau de incerteza é muito alto”, afirma Marcos Hashimoto, coordenador do centro de empreendedorismo do Ibmec São Paulo. Esse é o tipo de empresa que faz mais diferença para o progresso.

Dentro das incubadoras, as empresas passam por quatro fases. A primeira é a implantação, momento em que a idéia começa a ganhar as feições de um produto. Depois vem o crescimento, quando o produto é lançado no mercado e os empreendedores têm de divulgá-lo. A terceira fase é chamada de consolidação, quando a empresa começa a ter lucro. O momento final é a liberação, quando elas têm de andar com as próprias pernas. Em todas as etapas, as empresas contam com o auxílio dos consultores e ex-incubados. Outra vantagem de fazer parte dessa estrutura é a sinergia com outras incubadas. Como é raro haver concorrentes dentro da mesma instituição, os pesquisadores prestam ajuda mútua, compartilhando soluções.

Esse “mutirão da pesquisa” dá resultado. Cerca de 80% das empresas originadas em incubadoras sobrevivem. É bem mais que a média nacional. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), apenas 44% das empresas brasileiras ultrapassam os cinco anos de vida. “Nossa missão é fomentar o surgimento de novos negócios inovadores, lucrativos e sustentáveis”, diz Guilherme Ary Plonski, presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores, a Anprotec.

A taxa de sucesso atraiu a atenção dos investidores. No Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), uma das incubadoras mais eficientes do país, há recursos do fundo de investimentos de risco Có Investimentos, da Fir Capital e da Rio Bravo. Grandes empresas como Motorola, Votorantim e IBM também se associaram ao Cesar. Elas têm privilégio na hora de conhecer as tecnologias gestadas por lá. Outro tipo de capitalista comum em incubadoras é o “anjo”. São pessoas físicas que investem dinheiro próprio. Quando não contam com investimentos privados nem com anjos, os incubados buscam recursos nos órgãos de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os salários dos empreendedores e de seus funcionários são quase sempre bolsas de estudos – o que evita impostos trabalhistas. Variam de R$ 1.000 a R$ 5 mil, de acordo com a graduação do bolsista.

Voltado para as áreas de eletrônicos, software, mecânica óptica e engenharia biomédica, o Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas (Celta), em Florianópolis, lança seis novos empreendimentos por ano. As empresas ali graduadas deverão faturar juntas R$ 1 bilhão em 2008. “Somos muito rigorosos na seleção dos empreendedores”, diz Tony Chierighini, diretor-executivo do Celta. “Queremos planos de negócios com alto grau de inovação e que sejam viáveis financeiramente.” Um dos casos de maior sucesso do Celta é a Nano Endoluminal, fabricante de próteses médicas. Em 1997, quando faziam pós-graduação na Universidade Federal de Santa Catarina, Luciano Moreira, Nikolaus Geisthövel e Ricardo Peres se uniram para criar uma maneira de fazer com que cirurgias de artérias do coração pudessem ser realizadas sem cortar o paciente. Entraram para o Celta e criaram uma prótese que reduziu as taxas de óbito e o tempo de duração dos procedimentos. Hoje com 30 funcionários, a empresa fatura R$ 10 milhões por ano. “Se não tivéssemos a oportunidade de entrar na incubadora, com certeza a empresa não existiria”, diz Moreira. “Hoje seríamos empregados, e não empreendedores”.

Revista Época – Negócios & Carreira – 15/09/2008 – Pág. 96