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Correio Popular

Trauma de violência atrofia cérebro

Publicado em 16 julho 2006

Pânico. Pavor. Medo. Insegurança. Depressão. Quem foi vítima de violência sabe muito bem o significado de cada uma dessas palavras. Mas os traumas que um ato violento pode deixar no ser humano vão além das incômodas sensações psicológicas. O cérebro, acredite, pode atrofiar.
Uma coletânea de estudos, que ainda não foram publicados na Europa e nos Estados Unidos, realizados por grupos da Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, apontaram a constatação de redução significativa do volume do hipocampo, região do cérebro relacionada à memória, em vítimas de violência. Essa redução pode variar de 5% a 26% em relação a pessoas que não sofreram traumas. "A atrofia é proporcional à gravidade dos sintomas", explicou o psiquiatra Acioly Luiz Tavares de Lacerda, professor da pós-graduação da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e professor visitante da Universidade de Pittsburgh (EUA). "Com essa onda de violência, uma tecnologia promissora vai permitir que o exame de corpo de delito constate danos cerebrais em vítimas de ações violentas", completou Lacerda.
O trabalho agora será realizado no Brasil, com um estudo mais amplo e complexo. Os casos de transtorno de estresse pós-traumático estão sendo analisados por pesquisadores da Unifesp, entre eles Lacerda, que coordena o módulo que investiga as alterações cerebrais por meio de imagens de alta resolução de ressonância magnética. A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), num total de R$ 5,2 milhões. Os trabalhos tiveram início em janeiro deste ano e devem ser concluídos dentro de um ano e meio.
De acordo com estudos epidemiológicos desenvolvidos em diferentes países, 25% das vítimas de situações traumáticas, como estupro, acidente de carro e seqüestro, desenvolvem quadro de ansiedade intensa e persistente. Ou seja, sofrem de insônia, têm pesadelos, perdem a tonalidade emocional (ficam apáticos) e apresentam reações de sobressalto. Leia-se: ficam "uma pilha de nervos". Há ainda o registro de prejuízo na memória, o que faz com que os relatos dos fatos da vida fiquem "pobres".
O trabalho da Unifesp vai envolver 200 voluntários da cidade de São Paulo, com idade entre 18 e 55 anos, vítimas dos mais variados tipos de violência. "Por uma questão de ética, resolvemos não incluir crianças no estudo", declarou o psiquiatra ao Cenário XXI.

Diferencial
A pesquisa brasileira é a primeira do mundo que vai avaliar se a região do cérebro denominada córtex orbitofrontal também sofre atrofia em razão de uma situação traumática. De acordo com especialistas, as pessoas que sofrem lesão nessa região (como derrame cerebral ou acidente) podem apresentar dois tipos de comportamento: se a pancada ocorre no lado direito, a vítima passa a apresentar comportamento "inconveniente", "eufórico", desinibido, como ser falante e ter hipersexualidade. No caso de trauma no lado esquerdo, elas ficam apáticas e apresentam falta de interesse, comportamento semelhante ao das pessoas com depressão.
Por conta de sua complexidade anatômica, só foram desenvolvidas técnicas de medida do volume do córtex orbitofrontal recentemente. Uma das técnicas mais recentes desenvolvidas para a medida do volume desta estrutura cerebral foi desenvolvida por Lacerda, juntamente com três pesquisadores de universidades americanas, trabalho publicado na revista americana NeuroImage, em 2003. O grupo brasileiro de pesquisadores decidiu, então, medir tal região em função da sua relevância e também por ser um dos poucos grupos de pesquisa do mundo a executar uma técnica de medida do córtex orbitofrontal de sua autoria.
Há um ano e meio, Lacerda, juntamente com pesquisadores do Laboratório de Neuroimagem da Universidade de Pittsburgh (EUA), publicou na revista científica Biological Psychiatry um estudo realizado com 31 pacientes com depressão e 34 pessoas saudáveis, todos norte-americanos, com média de idade de 39 anos. Os resultados apontaram que os pacientes com depressão apresentavam uma redução de volume na ordem de 10% da substância cinzenta do córtex orbitofrontal, área que gera estímulo e inibe emoções mais primitivas, como medo, agressividade, raiva e a sensação de descontrole. "Quando essa região funciona mal, há uma avalanche de sentimentos negativos", explicou.
"O córtex orbitofrontal representa de 4% a 5% do cérebro e é uma das regiões mais recentes do desenvolvimento das espécies", completou. Outra informação relevante constatada pela pesquisa é que a atrofia se reverteu nos pacientes que se curaram da depressão após tratamento.
"O que ainda não sabemos é se essa atrofia já existia e foi acentuada ou foi causada pela depressão", disse o professor da Unifesp à reportagem.

Saiba mais
A pesquisa da Unifesp é formada por sete módulos que irão avaliar as seguintes áreas:
1) Alterações hormonais: será medido o nível de um hormônio (cortisol) que se altera em situações de estresse, antes e após o tratamento;
2) Genética: será avaliada a presença de alterações genéticas que possam estar associadas a uma maior susceptibilidade ao desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático após evento traumático grave;
3) Alterações neuropsicológicas: serão examinadas diferentes funções cerebrais tais como memória, tempo de reação, capacidade de planejamento e execução de mais de uma tarefa ao mesmo tempo, raciocínio abstrato e atenção sustentada;
4) Ensaio clínico: será testada a eficácia de uma medicação (topiramato) para o tratamento de pessoas com transtorno de estresse pós-traumático;
5) Estudo epidemiológico: levantamento populacional para se determinar a prevalência do transtorno de estresse pós-traumático na cidade de São Paulo;
6) Modelos animais: será testado um modelo animal de estresse em camundongos recém-nascidos e avaliação de alterações hormonais e cerebrais associadas ao estresse;
7) Alterações cerebrais: será examinado, por meio de imagens de alta resolução de ressonância magnética, a presença de atrofia em regiões cerebrais específicas (hipocampo e córtex orbitofrontal) associadas ao transtorno de estresse pós-traumático.

Campinas ganha instituto de neurociência
"Na década de 80, a psiquiatria evoluiu mais do que nos séculos anteriores." A avaliação é do psiquiatra Acioly Luiz Tavares de Lacerda, um dos fundadores do recém-criado Instituto Sinapse, em Campinas. O instituto é formado por um grupo multidisciplinar de profissionais: psiquiatras, neurologistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e fisioterapeutas. "É preciso analisar a pessoa como um todo, prestando um atendimento integral, multidisciplinar ao indivíduo", justificou.
O Instituto Sinapse atende casos particulares, convênio e trabalha em parceria com empresas o estresse ocupacional dos funcionários. Há trabalhos ainda na área de ensino e treinamento de profissionais. Projetos clínicos também fazem parte dos trabalhos do instituto. Um dos projetos já aprovados é testar a eficiência de dois tipos de medicação para a síndrome do pânico: a sublingual e os comprimidos. "Só dependemos da finalização da estrutura de profissionais que irão acompanhar os trabalhos", disse Lacerda. Há um outro projeto em elaboração que avaliará a presença de disfunções cerebrais (neuropsicológicas) em pessoas com diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
O Instituto Sinapse está localizado na Rua Barão de Ataliba, 100, no bairro Cambuí, em Campinas. Telefone: (19) 3251-4397

Os números 
1/3 da população mundial vai apresentar um quadro psiquiátrico ao longo da vida
17% Sofrem de depressão
3% Sofrem de fobia social
5% Apresentam ansiedade generalizada ao longo da vida