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Tratar febre no início da Covid-19 dificulta imunidade de rebanho, diz pesquisador

Publicado em 02 novembro 2020

Por Agência FAPESP

Combater sem trégua a febre nos estágios iniciais da Covid-19 pode ser um tiro pela culatra, isso porque além de combater a infecção, o sintoma ajuda a desenvolver a memória imunológica, que sustentaria a imunidade de rebanho.

Por este motivo, os médicos deveriam repensar a administração de antitérmicos logo no primeiro momento da doença, diz o professor Alexandre Steiner, do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, que recentemente teve artigo sobre o tema publicado no Journal of the Royal Society of Medicine.

Ao entrar em contato com um agente infeccioso, o organismo passa a desenvolver imunidade com anticorpos neutralizantes, que podem ser suprimidos caso a febre seja combatida de imediato. “Muitas pesquisas indicam que o aumento da temperatura ajuda o sistema imune a combater patógenos. Diversas funções imunológicas se tornam mais eficazes e a atividade antiviral é uma delas”, diz Steiner. Alguns estudos também mostram que o uso de antitérmicos no início da infecção acaba prolongando-a e aumentando o risco de complicação. A pesquisa foi apoiada pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O cientista cita que dois ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo em voluntários infectados com rinovírus, mostraram que aspirina, paracetamol ou ibuprofeno estavam associados ao aumento ou prolongamento da eliminação viral. “Em um desses ensaios, aspirina e paracetamol demonstraram suprimir a resposta de anticorpos neutralizantes e, paradoxalmente, piorar sintomas nasais”, afirma o professor no artigo.

Segundo Steiner, a febre influencia positivamente no processo de aquisição da memória imunológica, que ocorre quando as células dendríticas do sistema imune “apresentam” os antígenos, o que está atacando o organismo, aos linfócitos, células que “guardam” a resposta imune. “E essa resposta é mais eficaz em temperaturas mais altas”, diz o pesquisador.

Antitérmico e imunidade

Assim, o uso indiscriminado de antitérmicos no início da infecção poderia afetar o desenvolvimento de uma imunidade de rebanho contra o SARS-CoV-2. “A imunidade de rebanho depende do desenvolvimento de imunidade adquirida específica contra o vírus. A proposta é não interferir na febre nos primeiros dias de infecção e dar uma chance maior ao organismo combater a doença por conta própria, reduzindo as chances de desenvolver um quadro grave”, acrescenta.

Outros estudos citados por Steiner podem embasar terapêuticas distintas em relação ao idoso, grupo de maior risco para quadros graves de Covid-19. Um deles mostra que a febre pode estar ausente em de 20% a 30% de idosos com infecções graves, por fatores não compreendidos, mas que pesquisas experimentais revelaram que animais mais velhos poderiam recuperar a capacidade de desenvolver febre ao aquecer o ambiente.

“Se o mesmo padrão termoefetivo ocorrer em humanos, isso pode abrir uma oportunidade terapêutica. Se um idoso com sintomas respiratórios se queixa de calafrios, talvez seja mais adequado fornecer-lhe calor do que buscar o alívio dos sintomas com medicamentos”, escreveu ele no artigo.

Steiner chama atenção para o valor da febre como uma estratégia de defesa do hospedeiro e suas possíveis implicações para Covid-19 e diz que “priorizar o alívio dos sintomas em vez da imunidade do hospedeiro nos estágios iniciais de uma infecção potencialmente fatal pode não estar funcionando a nosso favor nesta pandemia”.