Notícia

Agência USP de Notícias

Tratamento odontológico pode evitar suspensão de quimio e radioterapia

Publicado em 08 novembro 2007

Indispensáveis no combate ao câncer, a quimio e a radioterapia podem ter um efeito colateral que pode ser significativo para o quadro clínico dos pacientes: a mucosite oral. São ulcerações na mucosa da boca que, em casos mais graves, fazem o médico optar por interromper o tratamento oncológico. É exatamente para evitar que medidas como essa sejam tomadas que o Laboratório Especial de Laser em Odontologia (LELO), da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, vem investindo na capacitação de profissionais na área de laser.

"Desde 2002, o laboratório oferece, gratuitamente, tratamento a pacientes com mucosite oral decorrente de quimio e radioterapia utilizando lasers de alta e baixa potência", explica Alyne Simões, colaboradora no atendimento clínico no LELO e doutoranda no centro de pesquisa em biologia oral da FO. "Mas a partir de 2005  quando conseguimos financiamento da Fapesp no caso de pacientes submetidos à radioterapia de cabeça e pescoço — o projeto ganhou força." De acordo com ela, um dos principais objetivos do serviço hoje é capacitar e formar grupos de dentistas que saibam, com a utilização do laser, prevenir e cuidar do problema de maneira adequada. Grupos que atuariam diretamente nos hospitais, aproximando o tratamento oncológico dos cuidados com a saúde bucal.


Multidisciplinar

As conseqüências da toxicidade de tratamentos quimio e radioterápicos são sentidas, sobretudo, naquelas células que se renovam constantemente. É este o caso das células dos cabelos, das unhas — e da mucosa da boca. Uma vez submetida à radiação, a mucosa tem dificultada sua capacidade de renovação: aparecem, então, as lesões ulcerativas. Dentre os pacientes submetidos à radioterapia de cabeça e pescoço, uma grande porcentagem irá desenvolver algum nível de mucosite oral.

A Organização Mundial de Saúde classifica a mucosite oral em quatro estágios. A partir do terceiro, o paciente já não tem condições de ingerir alimentos sólidos, apenas líquidos; no quarto e mais grave, nem líquidos — não há outra maneira de se alimentar que não por meio de uma sonda. "Às vezes, o paciente sente muita dor, e sua capacidade de fala também fica comprometida. Existe um efeito nocivo sobre sua qualidade de vida, e ele já está psicologicamente afetado por conta da doença, do câncer", observa Alyne. 

Caso de mucosite curada após um mês e meio de tratamento com 18 sessões 

Se o oncologista, por conta de uma mucosite severa, decide pela suspensão do tratamento antineoplástico (a quimio e a radioterapia), há risco de que se perca o controle do crescimento tumoral. Aumenta, assim, o tempo do tratamento do câncer, impõe-se ao paciente um dano psicológico grave. A interrupção, explica Alyne, é o caso extremo. Mas há outros problemas: "A mucosite oral pode causar uma infecção secundária, iniciada pela boca do paciente. É muito sério, pode ter como conseqüência morbidade e até mortalidade".

A prevenção é uma estratégia para reduzir o desenvolvimento de mucosites, e Alyne ressalta que a maneira ideal de se fazer isso é com uma equipe multidisciplinar cuidando de cada caso, uma equipe da qual participem médicos e dentistas. "A idéia do professor Carlos de Paula Eduardo, atual diretor da FO e responsável pelo LELO, é — em nível nacional — treinar e capacitar equipes que atuem juntamente com os oncologistas." Em alguns hospitais particulares, faz parte do protocolo o tratamento odontológico de pacientes com câncer. No caso do LELO, há uma parceria com alguns hospitais da rede pública. Eles enviam pacientes e estes que são submetidos ao tratamento com laser.


Tecnologia

Pacientes submetidos a sessões de quimio e radioterapia estão imunodeprimidos, têm baixa resistência. O tratamento odontológico, portanto, tem de ser não-invasivo. Daí a importância do laser: ele, além de não ser invasivo, é atraumático. Dessa forma, auxilia na prevenção e na cicatrização; e tem efeito antiinflamatório, analgésico e biomodulador — o laser é reparador, biomodula o tecido. "Mas o laser não vai fazer milagre nenhum", aponta Alyne. "É importante ressaltar que o paciente precisa de tratamento odontológico antes mesmo da quimioterapia — antes da aplicação de laser. É para evitar a infecção. Não se pode esquecer da higiene, ela está diretamente relacionada à severidade da mucosite."

A equipe do LELO utiliza lasers em alta e baixa intensidade, variando de acordo com as necessidades de cada caso. Trata-se de um dos centros do Brasil onde está disponível a aplicação de laser de alta potência, que pode ser usado de modo desfocado, induzindo analgesia imediata. Os estudos com relação à utilização de laser nesses casos tiveram início na FO em 2001, com a dissertação de mestrado da cirurgia-dentista Fernanda de Paula Eduardo. Alyne conclui: "Mas esse tratamento odontológico com laser é recente, da última década. Nosso ideal é formar grupos que atuem em outros locais. A associação com os oncologistas é fundamental".

Mais informações: (0XX11) 3091-7645; site www.lelo.fo.usp.br