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Tratamento com fumaça pode ajudar germinação de sementes no Cerrado (14 notícias)

Publicado em 04 de agosto de 2024

Estudo brasileiro testou 44 espécies com água de fumaça e encontrou efetividade em 14 deles, além de gramíneas para restaurar áreas degradadas

No Cerrado, as queimadas espontâneas são realidade constatada há décadas e muitas plantas se desenvolveram nesse cenário. Diferente das queimadas causadas por desmatamento, cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) acabam de publicar um estudo que mostra o efeito da fumaça na germinação de sementes de 44 espécies vegetais típicas desse bioma

Segundo os autores, os resultados podem ser usados para viabilização do restauro de áreas degradadas.

"Pesquisas anteriores investigaram a ação da fumaça sobre algumas poucas espécies, mas o levantamento feito neste estudo é o mais completo já realizado no Cerrado. O efeito da fumaça na germinação de 44 espécies do estrato herbáceo-arbustivo do bioma, envolvendo gramíneas, outras ervas [não gramíneas], subarbustos e arbustos”, disse à Agência FAPESP a professora que orientou a pesquisa , Rosana Kolb.

O estudo foi conduzido pelo doutorando Gabriel Schmidt Teixeira Motta , que diagnosticou que na fumaça há centenas de substâncias que podem prejudicar ou favorecer as sementes a depender da espécie.

"As mais conhecidas delas são as carriquinas, reguladores da germinação e do crescimento encontrados na queima de material vegetal. As carriquinas interagem com os hormônios das plantas, promovendo a germinação de certas sementes e inibindo o desenvolvimento de outras", explica a pesquisa

Método de testes

Os autores utilizaram 'água de fumaça', disponível comercialmente, pois a fumaça gasosa envolve características difíceis de replicar, acrescenta a professora. "A ‘água de fumaça' produz um efeito equivalente ao da chuva depois da queimada. E sua ação pode ser facilmente reproduzida por outros pesquisadores”, diz.

A pesquisa não observou estratégias de manejo que seriam utilizadas, mas indica que as sementes que respondem bem poderão ser semeadas em áreas que sofreram a ação do fogo por mais tempo ou que foram previamente tratadas com “água de fumaça”, desde que na concentração adequada, antes da semeadura em campo, em áreas degradadas por pecuária e outros usos do solo.

“Verificamos que, não apenas as plantas típicas de savanas, mas até mesmo algumas espécies de campos úmidos, que não evoluíram na presença de fogo intenso e frequente, responderam bem ao tratamento com fumaça”, destaca Kolb.

Das 44 espécies estudadas, 14 delas (32% do total) mostraram aumento na germinação com variações dependendo da concentração da água de fumaça. Por outro lado, quatro espécies (9% do total) tiveram o efeito oposto, uma redução significativa na germinação, particularmente na concentração mais alta da água, de 5%.

As gramíneas, em especial, germinaram mais após o tratamento.

“Os resultados indicam que a fumaça pode atuar como um estímulo importante para a germinação em algumas espécies do Cerrado, oferecendo uma vantagem competitiva no ambiente pós-fogo. A pesquisa sugere que as respostas à fumaça são altamente específicas para cada espécie e variam de acordo com a forma de crescimento e o tipo de comunidade vegetal”, observa a professora.