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Transtornos mentais na pandemia: Brasil ainda tem números altos (20%), mas não cresceu, em parte da população, aponta estudo.

Publicado em 10 maio 2021

Por Psico.Online

Os números de transtornos mentais na pandemia não mudaram de forma significativa a ocorrência deles, porém continuam altos e afetando mais de 20% da população de 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior e pesquisa do Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.

O que é um indicador importante para as informações desencontradas sobre os transtornos mentais na pandemia.

O resultado é apontado em uma pesquisa realizada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) que avaliou 2.117 participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, acompanhados desde 2008 e avaliados periodicamente durante a pandemia, em 2020.

O trabalho mostra que os níveis de sintomas psiquiátricos, como ansiedade e depressão, apesar de se manterem estáveis, permanecem elevados.

Os resultados são detalhados em artigo publicado na revista científica Psychological Medicine, da Cambridge University Press (Reino Unido).

A pesquisa avaliou a prevalência (quase sinônimo de presença superior) de transtorno mental e fatores de risco associados no grupo acompanhado pelo Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto • Elsa Brasil – ou seja, os transtornos mentais na pandemia em um recorte da população brasileira.

“Ao todo, foram avaliados 2.117 participantes em três períodos ao longo da pandemia, entre maio e dezembro de 2020, por meio de questionários de ansiedade, depressão e estresse, aplicados de forma digital e online“, explica o professor do Instituto de Psiquiatria (IPq) da FMUSP André Brunoni, um dos coordenadores do trabalho. “

O grifo no parágrafo anterior é da redação do Psico.Online observando que 71% dos domicílios com acesso à rede, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2020, do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) e 29% não. Como o artigo original não foi avaliado, é importante considerar a margem de erro dos números apresentados e a região da população.

Os dados obtidos foram comparados com avaliações feitas pelo Elsa Brasil entre os anos de 2008 e 2010, 2012 e 2016 e 2018?.

Os pesquisadores verificaram sintomas de depressão, ansiedade, fadiga, insônia, preocupações físicas e mentais, pânico, fobias, compulsões e obsessões, e alterações de apetite.

“A média de idade dos participantes é de 62,3 anos, e 58,2% são mulheres“, relata o professor.

“A prevalência dos transtornos mentais continuou alta, entre 20% e 25%, mas não mudou de forma significativa na comparação com valores pré-pandemia. A taxa de transtorno mental comum oscilou entre 23,5% e 21,1%, enquanto a de transtornos depressivos foi de 3,3% para 2,8%. A de transtornos de ansiedade variou entre 13,8% e 8%.”

O estudo mostra que a presença de transtorno mental foi maior em mulheres, de baixa escolaridade e com menos de 60 anos, aponta Brunoni.

“Quanto aos sintomas psiquiátricos, inclusive os de depressão, ansiedade e estresse, apesar de uma pequena redução, os níveis permanecem elevados em relação às avaliações feitas antes da pandemia.”

Para abordar as possíveis razões que levaram à estabilidade dos níveis de transtornos mentais e sintomas psiquiátricos mesmo com as dificuldades surgidas com a pandemia, o professor faz uma distinção entre as duas situações. “Sintomas e diagnósticos são coisas diferentes”, salienta.

“Ter um sintoma depressivo é algo normal na pandemia, diferentemente de um transtorno depressivo maior, que é uma síndrome com componentes genéticos e de história de vida.”

Brunoni observa que possivelmente os patamares de transtornos e sintomas já estavam tão altos que não permitiram uma elevação maior.

“Por exemplo, antes da pandemia, quase um em cada quatro participantes do Elsa Brasil tinha um transtorno mental comum. Não havia mais espaço para aumentar, o que é chamado de ‘efeito teto'”, explica.

“Outra explicação possível para o resultado é que as pessoas conseguiram manter a saúde mental ao evitar o isolamento, através de conexões digitais e home office.”

Além disso várias outras explicações e hipóteses podem justificar ou apontar variações: faixas etárias diferentes, região, gêneros, classe social, etc. O estudo é essencial é aponta em uma excelente direção.

“O próximo passo do estudo é identificarmos quem são as pessoas mais vulneráveis a apresentarem ou piorarem o transtorno mental comum, continuando esta avaliação ao longo de 2021”, planeja Brunoni.

Por meio da investigação de um grupo de 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior e pesquisa do Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil, o Elsa Brasil pesquisa a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas, principalmente cardiovasculares e diabetes, sendo que entre os fatores indiretos estão as doenças relacionadas à saúde mental.

Atenção: esse recorte de dados é importante para o público avaliado na pesquisa.

Os resultados da pesquisa são apresentados no artigo Prevalence and risk factors of psychiatric symptoms and diagnoses before and during the COVID-19 pandemic: findings from the Elsa-Brasil Covid-19 Mental Health Cohort, publicado em 21 de abril no site da revista científica Psychological Medicine, da Cambridge University Press (Reino Unido). O estudo foi liderado por André Brunoni, Isabela Bensenor e Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O trabalho teve a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Harvard Medical School (Estados Unidos) e Oxford University (Reino Unido) e foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Artigos científicos podem ser de diferentes formatos: pesquisa em livros, pesquisa em população, resultados preliminares, etc. Quando avaliamos um artigo científico é importante verificar o método, questionar o que foi realmente abordado nele (o objetivo) e seus resultados.

Quando trabalha-se com ciência, você tem por procedimento inicial a questão do “eu não sei” ou “eu ignoro” e a partir daí, elimina-se as informações que são testadas, em um trabalho de formiguinha, pedacinho por pedacinho.

Os trabalhos que envolvem estatística, precisam considerar números e faixas. População, viés, amostra, etc.

A importância de avaliar artigos científicos é que você, leitor e leitora, precisaria, assim como as notícias verificar as fontes, verificar os pesquisadores, etc. Fazendo uma pesquisa sobre a pesquisa. Entretanto, quando falamos de instituições quem tem renome e que já são confiáveis, você dá crédito a elas.

Para avaliar um artigo sobre transtornos mentais na pandemia, como foi amplamente divulgado, você precisa explicitar: quais transtornos mentais, que período da pandemia, qual a população analisada, qual a amostra utilizada e se ela possui ou não um viés. Por exemplo, na excelente pesquisa acima, 15 mil indivíduos, empregados em 6 instituições públicas do Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil – o que deixa de fora o norte e o centro-oeste.

Além disso, para ser empregado em uma Instituição pública, você precisa atender aos critérios: nacionalidade brasileira; gozo dos direitos políticos; quitação com as obrigações militares e eleitorais; nível de escolaridade exigido para o exercício do cargo; idade mínima de dezoito anos; aptidão física e mental.

Importante: em nenhum momento desqualificamos a pesquisa apresentada, entretanto, é importante perceber que há um recorte cultural, que precisa ser considerado e avaliado para se falar amplamente sobre transtornos mentais na pandemia.

Fonte Original: Jornal da Usp em https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/05/09/prevalencia-de-transtornos-mentais-e-alta-mas-nao-cresceu-na-pandemia.htm – transtornos mentais na pandemia.

Artigo em inglês: https://www.cambridge.org/core/journals/psychological-medicine/article/prevalence-and-risk-factors-of-psychiatric-symptoms-and-diagnoses-before-and-during-the-covid19-pandemic-findings-from-the-elsabrasil-covid19-mental-health-cohort/CD2CA7F817D2C631F919FA1562BD97C2https://www.cambridge.org/core/journals/psychological-medicine/article/prevalence-and-risk-factors-of-psychiatric-symptoms-and-diagnoses-before-and-during-the-covid19-pandemic-findings-from-the-elsabrasil-covid19-mental-health-cohort/CD2CA7F817D2C631F919FA1562BD97C2

Prevalecencia e fatores de risco nos sintomas diagnósticos psiquiátricos antes e durante a Covid-19. Brunoni, A., Suen, P., Bacchi, P., Razza, L., Klein, I., Dos Santos, L., . . . Benseñor, I. (2021). Prevalence and risk factors of psychiatric symptoms and diagnoses before and during the COVID-19 pandemic: Findings from the ELSA-Brasil COVID-19 mental health cohort. Psychological Medicine,1-12. doi:10.1017/S0033291721001719https://doi.org/10.1017/S0033291721001719