Notícia

O Liberal (PA)

Transplantes de células do pâncreas dentro de dois anos

Publicado em 31 julho 2000

Por São Paulo - Agencia Estado
Os médicos e cientistas brasileiros têm boas notícias para os diabéticos. Em dois anos, no máximo, transplantes de células do pâncreas poderão ser feitos no País. As células do pâncreas são responsáveis pela produção de insulina, que é insuficiente nos diabéticos. O anúncio foi feito por um grupo de pesquisa liderado pelo endocrinologista Freddy Goldberg Eliaschewitz, da Universidade de São Paulo (USP) e, do Hospital Heliópolis. Esses transplantes são realizados no Canadá com sucesso. No Brasil, a equipe de Goldberg está aperfeiçoando a cirurgia com uma técnica para acabar com o risco de ação. Isso deverá ampliar o leque de pacientes para os quais a operação, conhecida como transplante de ilhotas de Langerhans, é indicada. As ilhotas, que representam 2% do pâncreas, são agrupamentos de cerca de 300 células nas quais se encontram as células beta, produtoras de insulina. O organismo dos diabéticos do tipo 1, que representam cerca de 10% dos casos, destrói totalmente essas ilhotas, porque o próprio corpo produz anticorpos contra elas. Esses são os pacientes que precisam tomar várias doses darias de insulina. "Outra solução é repovoar o organismo da pessoa com as células que produzem insulina", explica Goldberg. O único problema é que, como em qualquer outro transplante, o organismo rejeita as novas estruturas. "O paciente tem de tomar drogas imunossupressoras, o que aumenta o risco de infecções e de câncer; por isso só são submetidos a esse tratamento os diabéticos em condição crítica, com grande dificuldade para controlar as taxas de açúcar no sangue." Além disso, o organismo do transplantado pode destruir novamente muitas das ilhotas recebidas, como já fez com 1 milhão delas quando se tornou diabético. Por esses motivos, o cirurgião britânico James Shapiro escolheu a dedo os pacientes para os transplantes de ilhotas de Langerhans, realizados no Canadá. Os resultados foram apresentados em maio. Foram oito os selecionados entre pacientes em estado grave da diabete, com insuficiência renal. Eles foram submetidos a um procedimento simples: uma injeção e, no máximo, uma noite no hospital. Foram feitos, em média, dois transplantes em cada paciente para que a quantidade de ilhotas fosse maior. Onze meses após a cirurgia, eles estavam produzindo insulina normalmente e centros de transplantes do mundo todo interessaram-se em reproduzir a experiência. "Nós já temos capacitação tecnológica para fazer essa cirurgia no Brasil", diz Goldberg. Há cinco anos, ele e mais 11 cientistas e médicos desenvolvem, num laboratório montado no Instituto de Química da USP, a técnica de isolamento das ilhotas para transplante, que inicialmente será feito em 20 pacientes com características semelhantes aos do Canadá. Para que a prática comece a ser realizada no Brasil falta apenas a aprovação do Comitê Nacional de Ética em Pesquisa Médica, que normalmente demora cerca de um ano e meio. A grande novidade é que, paralelamente à cirurgia, o grupo está desenvolvendo uma técnica, chamada de microencapsulamento, que vai proteger a ilhota do processo de rejeição do organismo. A cápsula é uma membrana de polímero que deixa a insulina sair, mas não permite que os anticorpos cheguem às ilhotas. Segundo Goldberg, sem o risco do efeito colateral da rejeição, o transplante poderá ser feito num número maior de diabéticos e não só naqueles pacientes em estado grave. A cápsula é um experimento desenvolvido conjuntamente pela USP e a Universidade de Miami, com financiamento (US$ 400 mil até 2003) da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto tem apoio ainda do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de várias empresas como os Laboratórios Biobrás e a Aster Produtos Médicos. Os biólogos chefiados pela professora-adjunta do Instituto de Química da USP Man Sogayar, estão tentando tornar o transplante ainda mais acessível usando técnicas de clonagem. "Nossa intenção é conseguir multiplicar o número de ilhotas, produzindo, por exemplo, 100 milhões a partir de 100 mil", diz Goldberg. A inovação, sonho de qualquer diabético, tem a desvantagem de elevar muito os custos da operação, por isso levará mais tempo para ser realizada. A terapia celular com cápsulas, calcula Goldberg, deve entrar na prática médica num prazo de cinco anos. E, com ela, podem vir os milhares de clones de células produtoras de insulina.