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A Granja

Transgênicos: perto ou longe dos canaviais?

Publicado em 10 outubro 2006

É difícil projetar quando o Brasil poderá efetivamente plantar cana-de-açúcar geneticamente modificada. Os estudos em laboratório envolvendo a cultura existem desde a década de 90, mas a legislação ainda não permite o cultivo comercial de variedades transgênicas. Alguns pesquisadores imaginam que o plantio pode ser liberado daqui a cerca de oito anos. Os mais otimistas apostam em um prazo de dois a três anos. O fato é que o processo envolve especialmente questões ambientais e econômicas e depende da aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para deslanchar.
O caminho até lavoura também engloba uma série de análises de biossegurança. "Se tudo der certo e as pesquisas mantiverem o nível atual, poderemos ter o plantio em larga escala daqui a uns cinco ou seis anos", acredita o doutor em genética Marcelo Menossi, professor da Universidade Estadual de Campinas/SP (Unicamp).
Entre os institutos, centros de pesquisa, empresas e universidades, as atenções estão voltadas para plantas mais fortes e mais interessantes economicamente ao produtor. A tolerância à seca, a resistência a herbicidas, doenças e insetos e o aumento do teor de açúcar estão na lista de prioridades quando o objetivo é desenvolver um produto diferenciado. "Alguns estudos nos mostram que é possível até mesmo dobrar a quantidade de açúcar produzida pela planta", exemplifica Menossi, que trabalha em uma pesquisa direcionada a essa característica na cana. O estudo envolve, além da Unicamp, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista (Unesp/Jaboticabal), o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a Central de Álcool Lucélia.
O trabalho aproveitou os resultados do Projeto Genoma, desenvolvido com uma série de laboratórios paulistas durante cerca de três anos e que identificou 43 mil genes. A partir desse banco genético, os cientistas buscaram cruzar informações entre aqueles que pareciam ou estavam envolvidos de alguma forma com o metabolismo da sacarose. Por enquanto, os testes com a cana geneticamente modificada são realizados em casa de vegetação, mas a intenção dos pesquisadores é solicitar à CTNBio os experimentos no campo. "Esse processo envolve muita burocracia, mas acreditamos que num prazo de um ou dois meses os papéis necessários devem ser enviados à comissão", observa Menossi. Para dar uma idéia do benefício econômico do aumento do teor de sacarose no canavial, o pesquisador cita um dado interessante: "Se o índice for ampliado em 5%, o que é considerada uma elevação extraordinária, podem ser incorporados R$ 300 milhões por ano à cadeia produtiva do Estado de São Paulo", destaca.
Entre os países produtores de cana-de-açúcar, ainda não existe plantio comercial com variedades transgênicas. As próprias características genéticas da planta tornam o processo bastante complexo, ressalta o engenheiro agrônomo Marcos Antonio Sanches Vieira, professor da Universidade Federal de São Carlos/SP (UFSCar) e diretor executivo da Rede Interuniversitária para Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa). "A quantidade e a variação no número de cromossomos são grandes, o que torna o trabalho mais difícil em comparação com culturas como a soja e o algodão", afirma o pesquisador. Ele lembra que uma variedade de cana normalmente demora entre 10 e 12 anos para ser lançada.
Na área da transgenia, a Ufscar desenvolve, em parceria com a Universidade Federal do Paraná (Ufpr) e o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), pesquisa com um gene que oferece resistência à seca. "Fizemos uma seleção e estamos avaliando o potencial do material em situações de estresse hídrico", relata Vieira. O especialista sustenta que a cana pode ter um facilitador no momento da definição por pesquisas a campo com a tecnologia transgênica. "Em comparação com o milho, por exemplo, a cana tem uma reprodução mais complexa e, portanto, mais segura quando o temor é pela contaminação de plantas convencionais", esclarece.