Notícia

Gazeta Mercantil

Transgênicos: o debate que falta

Publicado em 01 julho 1997

Por Washington Novaes
Biogenética, engenharia genética, produtos transgênicos vão, aos poucos, transformando-se no "derrier cri" da ciência e invadindo as páginas dos noticiários. Quem dominar a biogenética - está na moda dizer - será dono do futuro. Caberia discutir que futuro. Mesmo anotes dessa discussão, entretanto, alguns lances importantes vão-se desenrolando no tabuleiro científico-econômico mundial. Há umas poucas semanas, foi a pequena e esquecida Islândia que chamou a atenção, ao não permitir que os grandes laboratórios farmacêuticos e empresas especializadas em biogenética iniciassem pesquisas em seu território, nesse campo. Preferiu, ao contrário, criar uma empresa nacional -a DeCode Genetics -, com maioria de capital islandês e associada a investimentos estrangeiros. Razões: 1) A Islândia precisa diversificar sua economia, até aqui centrada quase exclusivamente na indústria pesqueira. 2) O país possui um patrimônio genético humano raro no mundo e com potencial extraordinário para pesquisa e desenvolvimento (com o isolamento geográfico, quase todos os 270 mil islandeses descendem de uns poucos vikings que colonizaram a ilha há mais de mil anos; A pequena Islândia proibiu laboratórios e empresas de biogenética de fazer pesquisas em seu território formou-se, assim, uma herança genética homogênea, que facilita extraordinariamente as pesquisas; pode-se, por exemplo, comparar as seqüências de DNA de pessoas afetadas por certas doenças com as de outras pessoas da mesma família, em busca do gene "defeituoso" e supostamente responsável pela moléstia); além disso, os islandeses dispõem de arquivos genealógicos minuciosos e que remontam a vários séculos, assim como de bancos de tecidos e de um serviço nacional de saúde centralizado e documentado desde 1915. A Islândia não é o único país a trabalhar nessa direção. Também Cuba desenvolveu-se no campo das biotecnologias na área de saúde, principalmente, a ponto de provocar uma disputa ainda sem solução entre o governo norte-americano, que insiste em manter o embargo econômico total àquele país, e empresas que querem associar-se aos cubanos. A China está preparando o lançamento, na bolsa de valores de Nova York, de sua empresa Sinogene International, para a qual recrutou o ex-presidente de uma das gigantes norte-americanas do setor, a Genentech, e o principal executivo na área asiática da SmithKline Beecham. Se as escaramuças se intensificam na genética humana, muito mais avançada vai a guerra em outros campos, como o da clonagem e até mesmo na área do Direito - onde já se levantam questões complicadas como o do sigilo das informações sobre os genes de uma pessoa, que pode ser prejudicada no emprego ou recusada por um plano de saúde, se se souber de sua predisposição genética para certas doenças. Mas é no campo dos alimentos que o conflito está mais aceso, como este jornal tem noticiado com freqüência. As chamas desse conflito elevaram-se muito a partir de maio último, quando a Comissão Européia aprovou a exigência de etiquetagem em todos os produtos alimentícios transgênicos, com especificações de técnicas, insumos e metodologias utilizados na produção, "do campo à mesa". A exigência - repelida com veemência pelos Estados Unidos - tem como fundamento a recusa categórica dos consumidores aos chamados alimentos transgênicos. Nos EUA, as pesquisas mostram que 90% se recusam a consumi-los, se não souberem exatamente o que contêm. Na Europa a recusa talvez seja ainda mais forte - a ponto de grandes produtores como Kraft, Nestlé e Unilever haverem anunciado que não os utilizarão. Nos Estados Unidos, entretanto, eles já representam uns 10% da produção de soja e milho. E a previsão é de um mercado mundial de US$ 20 bilhões em pouco mais de dez anos. No Brasil, o algodão transgênico está sendo lançado este ano. A soja está prevista para o ano que vem ou 1999. Várias empresas foram autorizadas a pesquisar — em plantios no Paraná e Minas Gerais, principalmente - vários alimentos. Mas quase não há debate. Vale a pena, por isso, ler na revista Agroanalysis, da Fundação Getúlio Vargas, um competente trabalho da engenheira agrônoma Elisa Conde Barroso Leite, do Instituto Brasileiro de Economia/Centro de Estudos Agrícolas, a respeito desses alimentos, que o jargão científico chama de OGM (organismos geneticamente modificados) e os ambientalistas mais "enragés" apelidam de "frankenfood" (referência a Frankenstein). O trabalho é importante por tratar da questão sob muitos ângulos: - relembra que estão no Terceiro Mundo os grandes reservatórios genéticos utilizados como recursos para melhoramentos vegetais; é uma vantagem estratégica, com a vantagem adicional de tratar-se de melhoramentos que não interferem radicalmente na chamada estrutura cromossomial e não geram impactos biológicos e ecológicos; - há muitos argumentos a favor da rotulagem obrigatória, já que "nenhum dos novos alimentos pode ser diferenciado dos demais pela aparência ou por suas características organolépticas; nem mesmo testando quimicamente o leite produzido por indução de hormônios artificiais pode-se garantir se o leite colocado no mercado consumidor foi produzido ou não a partir dessa tecnologia"; - já há uma empresa - a Novartis - disposta a rotular seu milho transgênico; - os riscos ecológicos até aqui apontados nos alimentos transgênicos são de vários tipos; alguns deles: as culturas resistentes a herbicidas podem polinizar espécies nativas aparentadas e transferir para estas os genes da resistência, sem que se saibam as conseqüências que isso terá; plantas preparadas para resistir a certos vírus podem estimular o surgimento de novas variantes do mesmo vírus; a maior agressividade dos cultivos transgênicos poderia ameaçar plantas silvestres e variedades nativas e assim reduzir a biodiversidade (nos países do Terceiro Mundo o risco seria maior, tanto pela maior quantidade de parentes silvestres dos cultivos agrícolas, quanto pela menor capacidade de regulamentação); transgênicos para produção de compostos fungicidas e inseticidas nas plantas podem eliminar insetos e fundos benéficos. Também na área da saúde, lembra a professora Eliana C. B. Leite, já há muitos riscos apontados, entre eles efeitos alergênicos nos consumidores, sem que esses possam identificá-los, por falta de rotulagem, e alterações nos sistemas bioativos do metabolismo humano. Vários riscos econômicos são igualmente apontados no trabalho. E, diante de tudo, fica a certeza de que está faltando no Brasil um debate mais aprofundado - com a participação indispensável da comunidade científica e da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, do Ministério da Ciência e Tecnologia. É o mínimo a que os cidadãos/consumidores têm direito. E ainda lembrando que a vantagem do patrimônio genético homogêneo o Brasil também tem em muitos grupos indígenas.