Notícia

Jornal da USP

Transgênicos e legitimamente brasileiros

Publicado em 12 novembro 2001

Por KIKA MANDALOUFAS
Uma ninhada de camundongos foi a grande estrela dos últimos acontecimentos no calendário científico nacional. Os simpáticos roedores, nascidos há nove semanas, são os primeiros animais transgênicos a serem inteiramente desenvolvidos e criados em território brasileiro. O feito é resultado de um trabalho de três anos desenvolvido por duas equipes de pesquisadores em uma parceria de sucesso entre o IB (Instituto de Biociências) e a FMVZ (Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia) da USP. Esse e um outro evento, a criação de um curso de pós-graduação lato sensu em Biotecnologia, que deverá ser colocado em prática no início do próximo ano por iniciativa do Instituto de Ciências Biomédicas, fazem despontar a USP e o Brasil no polêmico processo de desenvolvimento da técnica de modificação genética. Apesar de serem, aparentemente, nada mais que simples camundongos, os animais apresentados oficialmente no último dia 31 em um concorrido evento no salão da Reitoria carregam uma alteração genética que pode torná-los um instrumento eficaz na busca pela cura de uma doença que atinge uma a cada 10 mil pessoas, a síndrome de Marfan. As pessoas afetadas por essa patologia genética produzem uma proteína alterada, costumam ter os membros muitos longos e uma dilatação em artérias importantes do corpo, como a aorta, o que pode acabar sendo fatal. Segundo a professora Lygia da Veiga Pereira, "mãe" do projeto, a partir de um modelo animal é possível estudar o desenvolvimento da doença e testar formas de tratamento que não poderiam ser experimentadas em humanos. Além de Lygia, o professor José Antonio Visintin, da FMVZ, dois professores russos e dois alunos participaram dessa iniciativa que ainda dará muitos frutos. A técnica apresenta possibilidades extremamente amplas de aplicação que vão muito além de pesquisas em torno dessa síndrome e esse é o seu maior mérito. "Trata-se de uma ferramenta de pesquisa poderosa para a ciência", afirma Lygia, sem esconder uma pontinha de orgulho. PRODUÇÃO 100% BRASILEIRA A tecnologia para desenvolver camundongos transgênicos não é nova. Os EUA, por exemplo, produziram sua primeira ninhada em 89. O grande valor dessa iniciativa, portanto, não está no pioneirismo, mas no fato de ser brasileira. O projeto, que custou US$ 400 mil, foi financiado pelo programa Jovem Pesquisador da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e pelo PADCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e só pôde ser realizado através de um trabalho conjunto dos Departamentos de Biologia do IB e de Reprodução Animal da FMVZ. Lygia explica que até hoje o Brasil era obrigado a importar animais desse tipo caso quisesse desenvolver suas próprias pesquisas. "Ganhamos agilidade e autonomia", explica, "além da capacidade de responder às nossas próprias perguntas". Uma vez percorrido o caminho para a criação desses camundongos (veja quadro nesta página), criou-se uma infra-estrutura que agora poderá ser utilizada para responder a outras perguntas científicas de interesse especificamente brasileiro. Segundo Lygia, a equipe já tem duas parcerias firmadas para colocar em prática novas experiências com animais alterados. O Incor do HC/FM (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina) mostrou interesse no estudo de genes relevantes nas funções cardíacas. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), por outro lado, quer se aprofundar na pesquisa de genes que podem estar envolvidos com a diabetes tipo I. Além do seu papel no estudo de patologias, os camundongos geneticamente alterados devem ter uma participação decisiva num outro projeto que também tem chamado muita atenção. "São um instrumento importantíssimo, ainda mais agora com a finalização de mais uma etapa do Projeto Genoma Humano (PGH)." Ela se refere ao mapeamento genético desenvolvido pelo PGH que identificou cerca de 30 mil genes e explica que os camundongos certamente poderão ser usados na próxima etapa do projeto que pretende determinar a função de cada um desses genes. A determinação da função gênica com o uso de camundongos funciona, grosso modo, a partir da desativação de um determinado gene. Da mesma forma que se criaram camundongos com uma alteração genética, é possível criar um, em que um gene específico esteja "desligado". Observando as deficiências que apresentarem os animais portadores dessa alteração, é possível supor a função correspondente àquele determinado gene. Um processo semelhante à tentativa que se faz para descobrir qual interruptor corresponde a que lâmpada quando se quer acender a luz. O MELHOR AMIGO DO HOMEM Os camundongos são a mais clássica cobaia de laboratório. São a matéria-prima de inúmeros experimentos e já foram responsáveis por alguns dos mais importantes avanços da medicina. Por motivos diferentes, representam cobaias ideais nas pesquisas relacionadas à área de maior interesse da ciência: o ser humano. Além de serem pequenos, é fácil alojá-los, possuem um rápido ciclo de desenvolvimento e são mamíferos que têm grande compatibilidade genética com o homem. A partir da tecnologia desenvolvida com esses pequenos animais, também é possível e esperado que se parta para pesquisas em animais maiores. O professor Visintin, que coordenou a parte do processo que ficou a cargo da FMZV, já anunciou que projetos semelhantes estão sendo desenvolvidos com suínos e bovinos. Os bovinos alterados deverão produzir mais leite ou um leite que contenha proteínas de grande importância para o homem. Já os suínos serão alterados no sentido de desenvolverem órgãos imunocompatíveis com o ser humano. Caso isso seja alcançado, esses porcos se tornariam uma rica fonte provedora para suprir a inesgotável demanda por transplante de órgãos.