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O Dia (RJ) online

Tráfico de pássaros: crime e risco à saúde de pessoas

Publicado em 17 agosto 2014

Rio - O tráfico de pássaros silvestres, além de ser um crime, pode causar danos à saúde de quem negocia ou adquire as aves. Mais um motivo para pensar bem antes de comprar aquele papagaio numa feira ilegal. Pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) comprovou que mais de 60% destes animais carregam micro-organismos nocivos ao seres humanos e a outros bichos.

Os cientistas da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP examinaram 253 pássaros de 34 espécies, resgatados das mãos de traficantes. Eles foram encaminhados ao Departamento de Parques e Áreas Verdes de São Paulo para avaliação, reabilitação e devolução à natureza. As bactérias, fungos ou ambos estavam em 158 deles (62,5%). O trabalho foi feito com Auxílio à Pesquisa da Fapesp.

Grande parte dos compradores de animais traficados mantém as aves como bichos de estimação em casa. “As pessoas devem ter ciência que podem ser contaminadas por determinados agentes bacterianos, virais e fúngicos transportados pelos animais, especialmente os grupos de risco – idosos, crianças e pessoas imunossuprimidas ou que são submetidas a algum tratamento imunossupressor”, avisou a responsável pelo estudo, Priscilla Anne Melville, à Agência Fapesp.

Outros estudos já mostravam que 90% das aves capturadas morrem antes de chegar ao destino. Quando resgatadas por órgãos fiscalizadores, muitas já estão doentes devido a condições sanitárias ruins na captura, no transporte e no cativeiro.

O pesquisador André Saidenberg esclareceu que, mesmo em liberdade, aves podem hospedar micro-organismos que podem causar doenças. entanto, em geral, observa-se equilíbrio entre o micro-organismo e o hospedeiro, o que atua sobre o controle populacional. A presença de determinada bactéria não significa obrigatoriamente que a doença se manifeste. Mas em caso de captura para tráfico, esse equilíbrio pode ser alterado em razão dos elevados níveis de estresse e às más condições de higiene e alimentação a que são submetidos os animais. Isso “pode acarretar o desencadeamento de doenças infecciosas”, disse.

Bactérias resistentes

A pesquisadora Priscilla Anne Melville explicou que “foram isolados ao menos 15 gêneros de bactérias, três de leveduras e quatro de fungos filamentosos”. Alguns deles apresentaram resistência a determinados antimicrobianos. Ela ressaltou que os animais contaminados estas com bactérias, resistentes a medicamentos, precisam ser tratadas antes de voltarem ao meio ambiente.

“Ao serem eliminadas no ambiente, as bactérias multirresistentes a antimicrobianos podem se multiplicar e infectar diferentes hospedeiros, disseminando a resistência antimicrobiana entre as bactérias”, explicou. “Isso pode levar ao desencadeamento de doenças de difícil tratamento, já que a resistência antimicrobiana reduz as possibilidades terapêuticas. Por outro lado, muitas bactérias podem se tornar resistentes a um antimicrobiano, mesmo sem nunca terem tido contato com o mesmo”, acrescentou. Sabiás, canários, curiós, entre outros, são os mais traficados, seguidos por papagaios e araras.